Ansiedade: você também já tem!

“Você pode não acreditar, mas fui dormir pensando nessa palavra. Sonhei a noite inteira com todos os tópicos deste texto e acordei agora para me sentar aqui e escrever tudo.  Espero que eu não me esqueça de nada, pois as idéias ainda estão frescas em minha mente.  Estou "ansioso" para escrever sobre tudo isso.

Pois bem, todos nós podemos perceber a ansiedade como uma característica da vida moderna que vem se acentuando a cada dia, atingindo desde crianças até os mais idosos. 

Tanta informação recebida nesse ritmo frenético faz com que nosso cérebro se acelere de forma absurda e provoque uma descarga no sistema nervoso, causando excitação e, por conseqüência, desconforto a um corpo que necessita de descanso e repouso.  

A questão é que essa aceleração acaba sendo diária e permanente!  Aí você acorda cansado(a) e não entende porque dormiu e não descansou.  Vive sempre agoniado(a) e num clima de angústia, esperando que as coisas aconteçam em menos tempo do que deveriam.  E o pior, parece que não acontecem! "
Jorge Sabongi

Uma vez, li em um livro que se formos avaliar o nível da quantidade de informações que uma pessoa recebia no início do Século XX (por volta de 1900) e compararmos aos dias atuais, chegaremos à conclusão que, atualmente, o conhecimento adquirido em um ano se compara à informação recebida a vida inteira de uma pessoa daqueles tempos.

Pergunta-se: o que mudou para tamanha disseminação de informação?  

Antes de mais nada, é bom lembrar que vivemos uma época de transição na história da humanidade.  Nunca, tanta coisa esteve disponível aos sentidos do homem como o que presenciamos nas últimas décadas.  Aceleramos o ritmo de nossos sentidos diariamente.  Isso com certeza mexe com a natureza do ser humano.

Não sou médico nem tenho formação na área para falar com propriedade dos aspectos técnicos que envolvem a ansiedade,  mas acredito que minha percepção com relação ao mundo e o dia-a-dia favorecem algumas conclusões e reflexões.

Se você está no trânsito, tem uma gama de informações e propagandas que, instantaneamente, assimila. Olhando para qualquer dos lados, as placas, as figuras, as pixações, aliadas às informações auditivas que, simultaneamente, acontecem (buzinas, barulho ensurdecedor dos motores dos veículos, vozes, britadeiras, sirenes...), tudo isso associado ao som do seu carro, de onde soa uma música new age, um rock ou uma moda sertaneja (não importa quem somos ou o que fazemos, todos estamos vulneráveis a isso!).  

O celular toca e você assimila também a ligação e o fato de estar fazendo algo ilegal (conversando ao telefone enquanto dirige), cuidando para não levar uma multa.  Parado(a) no farol, alguém lhe pendura uma balinha no retrovisor, instigando você a desembolsar 1 real para adoçar a boca e a vida.  Seus pés pisando na embreagem, freio e acelerador; suas mãos batucando ao volante, cambiando, ligando seta, mudando a música, abrindo e fechando os vidros; seus olhos espertos para ver se não tem nenhum tipo esquisito chegando. Tudo simultâneo, num ritmo frenético. Você, além de tudo, percebe que o trânsito, normalmente lento, vai fazê-lo(a) chegar atrasado(a).  Santo Deus, que paranóia!

Se você não estiver com os vidros fechados e o ar condicionado ligado, sentirá o odor do monóxido de carbono expelido pelos carros, ônibus e caminhões, e o cheiro de fritura vindo das barracas dos camelôs espalhadas pela cidade.  Misturam-se ainda vários outros, acrescentando mais um calhamaço.  Tudo numa confusão de cheiros, que para os mais sensíveis, pode ser o caos apenas na respiração.  Se você fuma então, tem mais um item para somar.

E como controlar esse nível de excitação para que ele não nos traga tanta angústia?

Toda essa aceleração provoca seu cérebro de alguma maneira.  O resultado é que ele acaba tendo uma sobrecarga permanente que lhe causa stress .  Você não o deixa descansar.  E ele não dá conta do recado. Assim, inconscientemente, o cansaço chega e fica.

Ao dormir, se você não está completamente extenuado(a) a ponto de desmaiar nos primeiros 10 minutos, provavelmente acontecerá uma sobreposição de informações, de forma que ele continuará em trabalho contínuo.  E ele lhe diz: "manda mais informação que eu dou conta!".  Provavelmente, vem uma insônia, carregada das incertezas diárias.  Um receio que, dependendo da noite, poderá se transformar no maior dos medos.

Não sei se você já reparou, mas quando acorda de madrugada e fica rolando na cama, parece que todos os fantasmas do cotidiano vêm à tona.  Tudo o que você assimilou e não resolveu (claro, porque é tanta coisa) lhe assombram e levam você a achar que tudo está perdido e que não há saída.  Nessas noites, você se vê como protagonista num filme de terror encenado em seu quarto.

Encontrei uma saída para estas noites de perturbação gratuita:  tenho, em meu criado mudo, uma garrafa de vinho do Porto.  Apenas um cálice lhe relaxa, dando uma sensação de tranqüilidade que faz parecer que tudo já está resolvido.  O vinho Porto acalma (um pequeno cálice, possui teor alcoólico 20º G.L.).  Só para efeito comparativo, cerveja, tem 6 a 9º G.L. - whisky, tem em média 40 a 50º G.L. - vinhos normais, tem teor 10º a 14º G.L.).  Prefiro o vinho Porto.  Evidente que isso não pode se tornar um hábito permanente a ponto de mudar o metabolismo ou, na pior das hipóteses, lhe tornar um alcoólatra.  É uma eficácia momentânea.

Para aqueles que não descobriram essa possibilidade, existem diversas outras que podem ajudar: um banho bem quente, um chá forte de camomila, um livro envolvente. Enfim, faça tudo, menos ligar a TV, pois você estará jogando gasolina numa fogueira.  Nada pior que um noticiário ou um filme agressivo numa madrugada dessas.  É um momento solitário no qual você tem de lidar consigo mesmo(a).

Todos nós estamos assim e vivemos essa realidade.  Faz parte da vida contemporânea.  Aí acordamos cansados.  Temos a impressão de que não dormimos, a sensação que tudo está atrasado e de que o dia precisaria ter, no mínimo, 30 horas.  Um pavor repentino, muitas vezes infundado.

À noite, todos os fantasmas parecem piores do que na realidade são.

Como acalmar esse ânimo sem limites, que surge num looping de renovação diária, contínua e cumulativa?

Uma das alternativas que você encontra é:  "vou fazer yoga, tai-chi, meditação..., algo que me acalme!"  Depois de 30 dias, descobre que é muito agitado(a) para isso.  Conheço dezenas de pessoas assim.  Parece que essas atividades vivem num ritmo lento demais para seu cotidiano alucinante.  Elas tentam ouvir música clássica, quando sua realidade interna dança ao som de rock and roll.

Hoje acordei agitado, pelo sonho que tive sobre este artigo e por todas as coisas que estão acontecendo à minha volta, assim como você.  Pensei comigo... "vou ficar aqui na cama e só vou levantar quando conseguir reduzir essa excitação".  

E eu tentei: procurei relaxar, ficar alguns minutos sem pensar em nada, dando um pouco de branco ao cérebro. Doce ilusão! Continuava girando para lá e para cá e tudo voltava em velocidade maior!  Tentei então fazer um exercício de respiração, inspirando e expirando lentamente. Foi totalmente inútil! Então, estiquei-me no colchão para pensar com mais tranqüilidade.  Nada funcionou!!!

Quando estamos assim, qual seria a possibilidade de diminuir tudo isso, excetuando-se remédios?

Chego à conclusão que preciso executar, com mais regularidade, alguns exercícios de desaceleração das atividades.  Mas como exercitar se tudo voltará a se preencher em poucas horas novamente?  

Nossa realidade é isto: acúmulo de funções, telefonemas, contas a pagar, recados, cuidados com as nossas coisas... qual é o fio-terra dessa fonte de informação dos sentidos?  Tudo urgente e para ontem.  Como não ganhar stress, como não viver com agonia a tiracolo? O que fazer para não se sentir como aquele sujeito no circo que roda pratos, tentando não deixa-los cair?  Isso é coisa para uma tese?

Recorrer a medicamentos, só em casos extremos!  Conserta-se de um lado, prejudica-se de outro. Medicamentos, só com orientação e ordem médica (nesse caso, é necessário um acompanhamento dirigido por mãos competentes.)

Li uma vez que ansiedade também tem caráter genético.  Tem a ver, pois meu filho também é ligado no 220 volts.  Meu pai também era, meu avô idem e meu bisavô nem se fala.

Não sei você, mas na minha adolescência já era tudo muito corrido. À época não podia contar com o auxílio dos computadores, pois estes estavam apenas começando.  Muita coisa acrescentou-se de lá para cá.  Mas o volume era aparentemente 5% do que é o atual.  Era difícil, mas ansiedade não era algo tão comum.

Vejo atualmente na Internet sites, blogs, fóruns, e-mails, fotologs, comunidades, orkuts, chats, etc. Tem gente que passa horas na frente do computador, que doa sua vida para colocar tudo isso em dia.  E o pior, nunca está em dia! Pode ter certeza que, daqui a alguns meses, haverá mais algumas opções para ampliar ainda mais esse leque.

Esse trabalho só tenderá a lembrar às pessoas que "não se consegue manter nada em dia", pois é algo mais para preencher seu tempo.  

A sensação de falta de proteção contra o mundo e tudo aquilo proporcionado por ele nos pressiona por todos os lados: desde a pilha de jornais, livros e revistas, que não conseguimos ler, até os programas culturais que se vão, devido ao leque de opções. Sem contar festas, eventos com múltipla escolha e datas comemorativas, instando-nos a lidar com gastos impossíveis.  E vamos nós adiar, com a ajuda do cartão de crédito, mais preocupações para quando chegar a fatura.

Resolvi estabelecer um limite para mim e não tenho nenhum ressentimento: vou evitar participar de tanta coisa, pois, simplesmente, não dá! Não consigo tocar todos os instrumentos de uma orquestra ao mesmo tempo!  A Internet sempre trará novidades de comunicação em ritmo cada vez mais acelerado, e isso também influenciará esse processo de aceleração de informação. Todos os fatores contribuirão com sua pequena parcela para ampliar cada vez mais a ansiedade, tornando-a incurável.

Aí penso eu: se você vive no campo, longe de tudo que é eletrônico e dessa balbúrdia toda, sem hora marcada para tudo, sem relógio no pulso, vai se preocupar com toda essa ansiedade?  Observando apenas a natureza e o cotidiano simples, tendo tempo para um nascer ou pôr-do-sol, completamente fora da nossa realidade, mas dentro de outra completamente alternativa?

Quase tudo o que acontece a nossa volta não depende de nosso controle.  De uma forma ou de outra, estamos inseridos em todas as áreas.  Se conseguirmos isolar fatos, creio que será um alívio momentâneo.

Acredito que pessoas muito ambiciosas têm maior dificuldade em lidar com a ansiedade.  Elas sonham e vislumbram uma realidade que, na prática, tem grandes chances de não se concretizar.  Ampliam e mantém uma angústia que acaba se tornando crônica.  Os tempos atuais pedem sobriedade e pés no chão.  Não digo que você deixe seus sonhos de lado, mas agora, mais do que nunca, não dá para pensar em uma grande escadaria, e sim nos degraus, um por um.  É uma questão de mudança de paradigmas.

Viver demais o amanhã e se esquecer do hoje faz seu coração vibrar com ansiedade.  Evite antecipar os fatos, deixe-os acontecerem.  Afinal muita coisa acontece ao mesmo tempo.  Administrar tudo tornará você uma pessoa neurótica.  Dê tempo às coisas e, principalmente, tempo à você.

Não podia deixar de mencionar os equipamentos eletrônicos, cada vez mais cheios de inovação, que não param de chegar ao mercado: agendas, palm tops, lap tops, câmeras, relógios, telefones celulares que só faltam tocar CDs (não ria, pois vai acontecer ainda!), etc. Como manter o cérebro, sem excitar absurdamente o sistema nervoso, atualizado com tantas engenhocas à disposição?

O que dizer das fotos em uma banca de revistas ou out doors? Os canais de TV que apresentam flashes de 60/100 imagens a cada 30 segundos?  Tudo isso introjetado em nós como se fosse uma informação única.  Pense: isso cria mais ansiedade ou não?

A medicina irá se aprofundar muito nesse assunto futuramente, em decorrência de ele acarretar, ao longo dos anos, diversos sintomas malignos, por exemplo a síndrome do pânico, cada vez mais comum.  Ainda não foi encontrada uma fórmula mágica para as pessoas conseguirem lidar de forma simples e prática com seus medos.  Isso requer um trabalho assessorado e firme.  Principalmente de decisão pessoal em extirpar bloqueios. 

Viajo muito todos os dias, pois trabalho em São Paulo e moro em Itu, percorro exatamente 200 quilômetros/dia. Traduzindo em tempo, cerca de duas horas e meia quando o transito é bom.  Na estrada sobra muito tempo para pensar, principalmente porque, à noite, é mais tranqüila.  Penso muito.  Penso todos os dias.  Coloco as idéias em ordem.  Utilizo um bom trecho para refletir, reordenar o sentido de tudo isso.  Tem dias que estou saindo de São Paulo e gostaria de estar em casa em 5 minutos.  Impossível, claro!!!  Aí me lembro que existe um tempo, que queira ou não, vou ter que percorrer e não vou conseguir diminuí-lo significativamente para transformar essa 1 hora em apenas 5 minutos.   Nesses dias percebo o quanto estou ansioso.  Aí, pergunto-me "porque essa pressa?" E me respondo: "coloque uma música aí e relaxe... não adianta aumentar a velocidade acima de 120 km/h, controle a ansiedade". Pode parecer engraçado, mas isso me acalma.  

O mais interessante, é que não existe uma ansiedade por uma questão definida: quero chegar rápido, porque quero chegar mais depressa, só isso.  Meu dia foi muito agitado e não vejo a hora de estar em casa.  Entretanto, existem coisas na vida que não adianta querer.

Vejo pessoas dirigirem na estrada sem o menor cuidado: colando a 140km na traseira de outros veículos, piscando a seta da esquerda para pedir passagem, dando farol para "sair da frente, senão eu passo por cima", colocando em jogo a vida de tantos por uma ansiedade incontrolável.  Para chegar 5 ou 10 minutos mais cedo.

Por fim, como conviver com a ansiedade?  

Enquanto a fórmula não vem (e dificilmente virá!), é importante lembrar-se do ditado: "fazer tudo o que for meramente possível e humano", nada mais.  Não exija demais de você e aprenda a dominar a insegurança e a velocidade.  

Lembre-se que tudo tem um tempo de vida útil e tudo leva um tempo para acontecer.  Viajar, de carro, 100 quilômetros em 5 minutos é impossível e vai lhe levar bem rápido daqui!  Para o além!

Portanto, fique e aprenda a conviver com isso!

Jorge Sabongi - Julho/2004


revisão editorial:   Andrea Loli  (Brasília - DF)