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DANÇA DO VENTRE
Dança Antiga ou Dança Contemporânea
Por Nuriel

A Dança do Ventre, apesar de muito antiga (com aproximadamente 7000 anos), traz sempre características do nosso tempo, ou seja, é uma dança contemporânea.

Vamos aos porquês.

A Dança surgiu de uma forma múltipla em vários povos simultaneamente. Era uma forma de adoração e de culto a Deuses e Deusas, mas que traduzia o tempo daquele povo naquela época. Os seus afazeres domésticos, seu dia-a-dia, os animais, a natureza, tudo era retratado nesta dança.

Ela sempre adquiriu influências externas de outros povos também que não só o árabe. Várias danças folclóricas como a Hagallah, Gawazee, Melea-laf, Khaliji, Assaya, Shamadan, Baladi, na sua maioria danças egípcias ou árabes, e outras danças de diversos países são a base da dança do ventre. Lembrando que todas essas danças são danças populares.

Houve a época que a Índia  influenciava mais, depois foi a época da cultura Hispânica. No início do século passado o ballet Russo. Nos anos 50 e 60 os musicais de Hollywood influenciaram os filmes egípcios onde apareciam bailarinas com roupas cada vez menores, com danças cada vez mais sedutoras, copiando as vedetes do momento. O figurino para dançar deixou de ser o vestido, e passou a ser o conjunto de top, cinturão e saia transparente (conhecido com estilo cabarét), pois assim a dança ficava mais visível. O corpo passou a ficar mais exposto, então a arte da dança e o movimento em si deixaram de ser o mais importante, passando a estética do corpo e a beleza das bailarinas a ocupar o seu lugar. As bailarinas tornaram-se musas desde então. A beleza passou a ser essencial para o mercado.

Nos anos 70 a cultura afro passou a influenciar a música árabe e a dança do ventre.  Mais recentemente a Salsa, o Reggae, o Funk, o New Age, a Dance Music, o Jazz e porque não dizer o Axé Baiano. Todas estas danças e músicas também populares passaram a doar elementos a Dança Oriental.

Até que ponto então podemos dizer que a dança é pura. Até que ponto podemos dizer que isto é ou não oriental. É claro que existem movimentos que hoje fazem parte da dança do ventre e que sabemos qual foi a origem. Como o Arabesque e o Espacato que vieram do Ballet, mas que estão verdadeiramente adaptados ao estilo árabe. Porém, como dosar esta influência sem perder o estilo árabe ou egípcio? É sabido que o ballet é essencial nos giros, deslocamentos, postura e elegância. Mas até que ponto deve-se usá-lo sem a dança ficar contaminada demais? Como devemos dosá-lo sem deixar de ser dança do ventre com influência do ballet e passar a ser ballet com influência da dança do ventre?

 Técnica e Estilo

Como a técnica desta dança só passou a ser ensinada há pouquíssimo tempo, ela não é uma técnica fixa, ou seja, não existe uma cartilha com “x” movimentos que são ensinados igualmente por todas as professoras. Existem várias maneiras de ensinar o mesmo movimento, e a regra é que não há regra. Nós brasileiras tentamos impor a regra da beleza, então o que não é bonito está errado. Mas este conceito de beleza, não será um conceito muito subjetivo? O que é bonito para uns pode ser feio para outros e vice-versa.

Então, o que é ensinado no Brasil é diferente do que é ensinado nos EUA, no Egito, na Europa e demais países. Daí vem uma professora de fora e diz: faça assim ou não faça assim. E aí vem outra e diz o contrário. Em quem acreditar? Quem está certa?

Por ser uma dança em constante evolução não existe nenhum tipo de regra a não ser o bom senso. Não se deve fazer o que pode causar lesões no corpo (para isso uma noção mínima de Cinesiologia é necessária por parte de quem ensina). Devemos evitar a todo custo o que pode parecer vulgar demais, como: joelhos para fora, abertura em excesso das pernas, trajes pequenos ou transparentes demais (que mostrem a calcinha), tudo isso pode manchar a dança.

Mas quanto a este último comentário, e os vídeos em que vemos bailarinas famosíssimas usando trajes mínimos, mostrando quase tudo? Bem, aí é uma questão de alcance na escala social da dança. Aquela bailarina já é tão famosa e tão adorada, que qualquer coisa que ela fizer vai ser respeitada. Esta posição foi conquistada com muito trabalho.

O que parece ridículo também deve ser evitado, mas daí entramos novamente em um conceito subjetivo, pois mesmo o ridículo às vezes é imprescindível naquele instante da música segundo aquela bailarina. Então aí, além da técnica vem o estilo. Hoje, mesmo dentro somente do Brasil, ou dentro de um Estado ou ainda de uma mesma cidade, podemos dizer que existem vários estilos. Cada Escola, ou cada professora tem o seu estilo. E se as alunas não estudam ninguém além daquela mesma professora, ou se estudam as mesmas bailarinas a dança fica igual. Os mais experientes podem até adivinhar quem foi sua professora ou que bailarinas estuda.

Aí vem a importância dos workshops e vídeos, onde se podem estudar estilos bem diferentes. É através de onde chega-se a mesma conclusão, que vários movimentos podem ser mostrados de maneiras bem diferentes. São nestes cursos que a bailarina amplia os horizontes. É onde a bailarina aprende a deixar de ser igual e passa a estudar mais para ter uma dança inovadora. Sem fugir da técnica ensinada, passa a criar seu estilo próprio e  como uma colcha de retalhos vai descartando alguns movimentos e juntando outros à sua dança. Passa a entender que nada é 100% certo ou 100% errado. Aprende que aquele movimento que ficou estranho executado por aquela bailarina, no corpo dela mesma ficaria mais bonito. Ou se fechar um pouco mais a perna, o movimento já terá outra cara. Portanto todos os movimentos “ruins” podem e devem ser reciclados e adaptados para cada corpo.

A bailarina além de aprender a técnica deve estudar seu próprio corpo e dança e ver o que casa melhor com ela. Existirão movimentos proibidos para a mesma, porque desvalorizam seu corpo e sua beleza, e outros que se encaixarão perfeitamente, aí entra o bom senso. E para irmos além, até mesmo o traje usado, o público e até o local onde dançamos determinam que movimentos podemos ou não fazer, que danças folclóricas podemos ou não incluir no show. Só a experiência pode nos ensinar isto.

Para limpar a dança o ideal é filmar-se de tempos em tempos e estudar-se, ver o que pode ser melhorado e o que deve fazer ou deixar de fazer. Isto é interessante para quem já tem um estilo e não quer perdê-lo, pois a evolução nos faz mudar a cada instante. É claro que nos faz melhorar, mas às vezes deixamos de lado alguma característica linda do nosso próprio estilo por culpa da evolução.

Também por ser uma arte efêmera muitos movimentos criados durante um show às vezes serão esquecidos, pois ninguém estava ali para apreendê-lo em uma filmagem.

Muitos movimentos usados no passado são esquecidos e substituídos por outros mais elaborados por causa desta evolução. Ninguém trabalhou para a catalogação destes movimentos, deixando de ser bonito o que é simples, dando lugar ao que uma aluna definiu como “oito para frente e para baixo com tremido, caramelos crocantes, chantili e uma deliciosa cobertura de chocolate”. Definindo melhor: misture vários movimentos ao mesmo tempo, adicione o tremido e pronto, esta é a dança ideal. Muitas bailarinas têm este estilo, mas será que o mais importante não é a perfeita tradução da música?

Leitura Musical

Corremos sempre o risco de errar poluindo uma música que deveria ser executada com maior simplicidade. Cria-se acentos onde não existem, coloca-se tremidos onde a música não pede. Intensifica-se movimentos que deveriam ser mais sutis. A dança acaba ficando “over”, com movimentos demais. Não se pode esquecer que a música vem junto com a técnica, e de nada adianta conhecer superficialmente várias músicas. O ideal é estudar muito cada frase musical, para criar em seu subconsciente um menu de opções de movimentos que encaixem perfeitamente.

Devemos lembrar que a bailarina é como um instrumento que traduz a vontade da música. Ela tem que traduzir aos expectadores a intenção, o sentimento da música, como se os espectadores não pudessem ouvir. Ela não pode menosprezar o compositor e criar música em cima da que já está tocando. Seria um assassinato de uma composição.

A Expressão Facial

E quanto ao sentir a música e expressar isto através do seu rosto? Como isto deve ser estudado? Bem, primeiro a segurança na própria dança é determinante para podermos ter uma boa expressão facial. Conhecer a música, ter uma boa técnica, tudo isso influi. Ouvir a música algumas vezes deitada de olhos fechados tentando decifrar os sentimentos: tristeza, alegria, euforia, melancolia, ajuda bastante. Apesar da dificuldade em entender a língua árabe, conhecer a letra também é importante. Mas copiar a expressão de uma bailarina famosa, isto nunca! Não adianta ver uma bailarina e simplesmente copiar a sua expressão facial, pois isto é individual. Cada pessoa sorri, chora, sente, sofre de maneiras diferentes. Se copiarmos a expressão de outras bailarinas, deixaremos de ser bailarinas, intérpretes da música, e passaremos a ser atrizes de novela mexicana.

Existem bailarinas que mesmo sem uma boa técnica, ou que não tenham uma estética favorável, passam uma sensação tão agradável ao público, que nos perguntamos como isto pode acontecer? É porque ela consegue passar ao público que está gostando muito de dançar para eles. Então além de técnica e leitura musical, tem que haver envolvimento com a música e com o público também. Se não demonstramos este envolvimento dançando, tudo perde o encanto.

Mona Said em um Workshop disse: “Devemos mostrar que estamos gostando de dançar, e a melhor forma de fazermos isto é deixando tudo, todos os problemas de fora da dança, e naquele instante devemos nos mostrar apaixonadas. Devemos sentir amor quando estivermos dançando.”

A expressão congelada, o sorriso falso, a cara de quem vai chorar a qualquer momento ou de que está sentindo dor, a expressão de superioridade como se  estivesse dizendo “olha o que eu posso e você não”, tudo isso deve ser evitado, pois pode criar uma antipatia com o público e até com outras bailarinas.

Devemos sempre compartilhar a alegria em dançar com o público e ele nos dará em troca todo o reconhecimento e respeito  que tanto desejamos.

 


Nuriel