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Brevíssima
história do Meleah Laff
por Samya-Ju
Lá vem ela . . . Fifi Abdo, a ma'alema (1) aparece (que escândalo) fumando a tradicional shisha. Entra no palco sem pedir licença enrolada num lenço preto que de vez em quando é aberto e deixa-nos vislumbrar o fascinante movimento que seus quadris provocam no vestido brilhante e tremeluzente. No vídeo antigo de um de seus mais famosos shows televisionados (aquele em que ela faz uma aparição a deus ex-machina), vi pela primeira vez o que soube mais tarde ser o chamado Meleah Laff (2).
Soraia Zaied trouxe ao Brasil em meados de 98 a primeira definição, ainda grosseira aos olhos nacionais, do que é tão comum para o povo egípcio. Desde então eu, curiosa demais, procuro o que for possível encontrar para entender um pouco a personalidade dessa gente amável e alegre. Edward Said ajudou-me. Intelectual de origem palestina, criado no Egito e hoje professor em Harvard ofereceu-me um presente.
No ensaio entitulado Cairo e Alexandria (3) ele se desculpa pela definição reconhecidamente radical e confessa que divide as pessoas em do Cairo ou de Alexandria. São as duas principais cidades do Egito em termos de difusão cultural; Cairo - dominada pelo rio e pelo deserto, porta de entrada dos viajantes europeus - abrigaria o árabe, islâmico, sério, internacional e intelectual e Alexandria – dominada pelo vento e pelo mar, capital de verão – o apreciador levantino, cosmopolita, sinuoso e volúvel. Essa observação à primeira vista inútil, porém de alto valor didático aos interessados, ajuda-nos a entender a influência de fatores geográficos e culturais, tornando possível a identificação de dois estilos distintos de manifestação popular na dança.
Na década de 40 a cidade de Alexandria era a capital de veraneio do Egito. Turistas eram atraídos pelas praias e balneários elegantes. Nessa época o meleah (lenço preto) estava na moda e compunha o vestuário das mulheres. O clima quente obrigava-as a usarem vestidos leves e o lenço preto deveria protegê-las de olhares maliciosos. Ao dançar elas o utilizavam como um instrumento de sedução, alternando o “esconde e mostra”. Isso é bastante universal, fácil de entender: em todo o mundo os homens são fascinados pela maneira como a mulher se veste para sair às ruas. Quando a moça passa por um grupo de rapazes, mesmo discretamente, recebe olhares curiosos por muitos motivos.
A dança com o meleah, transportada para o palco obedece à realidade do cotidiano e afirma-se: Meleah Laff do Cairo, Meleah Laff da Alexandria.
Ahmed Fekry (4) , coreógrafo egípcio e professor extraordinário explicou em aula a importância da personalidade das mulheres destas cidades no momento de montar um número de Meleah Laff. Em sua exposição afirmou que as moças de Alexandria são conhecidas e admiradas em todo o país pela beleza, charme e força. Independentes, costumam “andar” sozinhas devido à ausência prolongada dos homens locais (por motivos de trabalho, é claro), portanto devem se defender dos turistas que invadem suas praias em busca de diversão. Segundo esse relato é comum o homem atrevido receber golpes de tamando da bela, caso a moça se ofenda com um gracejo masculino inconveniente.
Por isso o Meleah da Alexandria é mais discreto e o lenço trabalhado cuidadosamente. As músicas apresentam um momento especial para a dançca masculina de Port Said (espécie de disputa com punhais afim de demonstrar virilidade e habilidade marcial) e as letras falam do mar, construindo assim um retrato da vida dessas pessoas (5) . Colocada no palco pela primeira vez pelo coreógrafo Mahmmoud Reda na década de 60 , apresentava essa fórmula: a interação das pessoas com o mar (representado fisicamente por um longo véu) e o flerte sutil dos grupos masculinos e femininos. As bailarinas deixavam o palco para soltar o meleah retornando rapidamente enquanto os moços exibiam suas armas.
Agora, vamos ao Cairo de
Said e Fekry: moderna, agitada, das mulheres mais liberais que freqüentam o
mercado de Khan el Khalili. Salvo qualquer anacronismo, entenda-se: estamos
lidando com adaptações para o showbiz.
Fekry define essa dança como engraçada e fanfarrona; a mulher é debochada. A música é um hit parade, os sucessos que fervem nos nightclubs e nas ruas. O pop baladi, se podemos chamá-lo assim, nas vozes de Hakim, Ihab Tawfick, Amro Diab.
É comum as bailarinas girarem o meleah no ar, rodar as pontas alternadamente, amarrá-lo no quadril como as mulheres locais e até mesmo jogá-lo de lado, afinal não há preocupação em exibir o corpo nesse contexto. Por isso ao assistirmos a um tablot de Meleah no Cairo identificamos esses elementos. Costuma fazer parte da routine de bailarinas de dança oriental e faz a alegria da platéia.
Somando os dados oferecidos até agora (do que chegou ao Brasil) talvez seja mais fácil “entrar no espírito” do Meleah, uma dança que obedece à linguagem delicada do flerte e códigos mais que especiais.
Samya (Juliana Donzelli), novembro de 2003.
(1) Do árabe: a tradução literal para essa palavra seria professora, no entanto é utilizado nas ruas (como gíria) para as mulheres mais vividas, sabidas e independentes. (N. da A.)
(2) Do árabe, lenço enrolado.(N.da A.)
(3) In: SAID, Edward. Reflexões sobre o exílio e outros ensaios. Tradução de Pedro Maia Soares – São Paulo: Companhia das Letras, 2003.(N.da A.)
(4) Trazido ao Brasil pela primeira vez em novembro deste ano para show e workshops por iniciativa de Lulu Sabongi.(N.da A.)
(5) Notar as famosas composições Benet Baharei (Meninas do Mar) e Benet Iskanderia (Meninas da Alexandria). (N.da A.)
(2) Do árabe, lenço enrolado.
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