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A Guerreira
Ishtar
Quem nunca um dia, ainda que na memória residual haja nada além de uma sensação de antiguidade, ouviu falar da Mesopotâmia? Lendas que se confundem com ciência, mágica com recordações... Quem nunca ouviu falar da “terra entre rios” (uma vez que este é o significado de “Mesopotâmia”)? Tigre e Eufrates, testemunhas da Torre de Babel, da Babilônia de muralhas intransponíveis, de jardins maravilhosos e suspensos, para agradar a esposa do rei Nabucodonossor II, muito antes de nossa era. A Mesopotâmia da lenda ancestral de Gilgamesh, onde encontramos a provável origem de algumas das mais memoráveis narrativas bíblicas, como a do dilúvio, além de um dos mais antigos registros de símbolos e arquétipos ainda hoje correntes. Terra da escrita cuneiforme, da matemática e astronomia avançadas, da astrologia como a conhecemos hoje em dia. Terra da cosmopolita e próspera Bagdá dos séculos acerca de XII d.c., quando, na Europa, vivia-se na convencionalmente chamada “Idade Média”.
Poucos sabem que, em Bagdá, árabes e estrangeiros, muçulmanos e judeus, trabalharam na tradução de manuscritos filosóficos gregos, cedidos então por Bizâncio aos intelectuais do Islã em expansão, e que estas traduções foram muitas vezes base para a versão latina que nos chegou até a contemporaneidade, tornando a passagem da filosofia pelos árabes de extrema importância para nós. E não somente meras cópias, muitas destas traduções constituíram novas e autênticas filosofias. Poucos sabem que Bagdá era servida de hospitais cujas concepções de higiene e administração não muito devem aos de hoje, e que seus médicos estavam na vanguarda da medicina à época.
Universidade Mustansirya, Iraque.
Enfim, quem nunca teve notícias do Crescente Fértil? Pois, mais uma vez, o Crescente Fértil é notícia. O Iraque está na eminência de virar poeira (de estrelas?), se é que quando for publicado este texto, já não estaremos temperando destas poeiras o céu da nossa memória. Alegres danças folclóricas, notas das canções iraquianas, o pulsar da percussão. Delicados mosaicos de vidro transparente e colorido, a arquitetura de proporções gigantescas, arcos e portais. Tudo guardado apenas na memória...
Ou nos museus da Europa e
América do Norte, como a porta de Ishtar, cujo original, pasmem, está em
Berlim, assim como está na França, Inglaterra e Alemanha, grande parte dos
bens culturais do Oriente Médio, Egito e Grécia.
Cópia da Porta de Ishtar, Bagdá
É interessante lembrarmos de que o Crescente Fértil era uma região propícia à agricultura, e que abrangia uma faixa de terra em forma de meia-lua, (lua crescente), partindo da Costa Leste do Mar Mediterrâneo, avançando na direção do Golfo Pérsico, incluindo toda a região entre os rios Tigre e Eufrates.
A divindade Ishtar, ou Inana para os sumérios, foi o símbolo do feminino para as culturas desta região. Todas as culturas têm uma personagem mitológica feminina, sempre ligada ao Amor: a romana Vênus; a grega Afrodite; bem como o cristianismo tem Maria. Mas ao contrário de Maria, Ishtar não é despojada de sua sensualidade, e não é maternal. Em lugar disto, é a divindade do sensual, ou seja, dos sentidos, como se nota a seguir em trecho de oração em seu louvor – “Ishtar é vestida de prazer e amor/ ela é carregada de vitalidade, encanto e voluptuosidade/ Em seus lábios Ela é doce/ A vida está em sua boca/ Quando aparece o regozijo é pleno/ Ela é gloriosa; véus são jogados sobre sua cabeça/ Sua figura é bela; seus olhos são brilhantes”. Representa a força e não a fragilidade, o dinamismo e não a passividade. Podemos até dizer que Maria e Ishtar são duas faces não excludentes, porém antagônicas, do feminino.
Ishtar foi a divindade mais cultuada e mais importante da Babilônia cerca de dois mil anos antes da era cristã. A estas alturas, o nome Ishtar comportava muitos atributos de todas as figuras femininas mitológicas dos povos que por ali passaram (e se estabeleceram), como os assírios, caldeus, sumérios e hititas. Para os assírios, Ishtar era acima de tudo uma guerreira... Esperando que o Crescente Fértil continuasse a ser sempre fértil.
http://www.piney.com/BabIndex.html
http://www.angelfire.com/me/babiloniabrasil/
http://www.gilgamesh.com.br/leituras2_gilgamesh.htm
http://www.mae.usp.br/biblioteca.htm
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