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A leitura na dança do ventre
por Andrea Alves Loli
Observando a dança do ventre dentro e fora das academias, damo-nos conta de que ela é a leitura de uma poesia.
Prova disso são os estilos vários para se ler a poesia. Há aqueles que a lêem como técnica perfeita, respeitam todos os sinais de pontuação, porém não possuem sentimento algum. Outros preferem ler forjando-lhe um sentimento não-sentido, notamos a ausência de espírito, apesar da tentativa de se imprimir um tom romanceado ao poema. Mas há aqueles que a lêem com tal sentimento que nos dá a nítida impressão de quem nem o próprio poeta o faria tão encantadoramente.
Na dança do ventre acontece o mesmo, pois ela é a leitora não-falada de uma poesia (no caso, a música).
Como bailarinas ou aprendizes, vamos às aulas, freqüentamos workshops e tentamos nos reciclar sempre, para aprender, reaprender ou aperfeiçoar nossa técnica.
Esse é, sem dúvida um esforço válido e necessário. Todavia, se na hora de dançar nos atemos somente à técnica, corremos o sério risco de parecermos marionetes, robôs dançantes.
Quantas vezes já não assistimos a apresentações em que quase adivinhamos o próximo movimento da bailarina? A técnica está perfeita, não há um detalhe a se corrigir, mas faltou algo.
Em outras ocasiões, com técnica igualmente perfeita, notamos que aquele sorriso ou aquela expressão sentida não possui sentimento algum. Até mesmo as brincadeiras com o público são desprovidas de verdade, dando-nos a sensação de uma falsa interatividade. Somos, então, apresentados à dança forjada: a bailarina lê a música (marca até aqueles "duns" ao fundo), mas não a sente.
Entretanto, há aquela bailarina da qual reparamos, inicialmente, a roupa e outros aspectos, mas, no decorrer da música, descortina o mundo que o poeta/músico tentou traduzir em seus acordes.
Essa bailarina sente cada nota em suas veias, ouve as entrelinhas da poesia/música, imprime em nós seus sentimentos, fazendo com que eles também sejam nossos. Sentimos a alegria, a tristeza, a emoção que ela tem ao ler um poema/música que não foi escrito pra ela, mas é como se dela fosse.
Aí, ao fim dessa viagem, notamos que não era uma mulher dançando e sim um ser encantado, dotado de uma magia capaz de nos arrancar de nós mesmos para vivermos um sonho.
Ela aliou a técnica ao sentimento que a música lhe transmitiu (no caso de música unicamente instrumental) e tomou o cuidado de traduzir os refrões e versos da música para a sua platéia (no caso de músicas cantadas).
Não pense que se não houver técnica essa viagem será possível, ela é importante (e muito!), porém não é a única coisa que a dança do ventre possui, existe o sentimento que temos ao dançar.
Sentimento esse que não é passado apenas pela expressão facial, mas sim pela expressão de todo corpo.
Por isso, não dance somente a música, não mostre somente a sua técnica.
Dance também os seus sentimentos e na medida deles, para que sua leitura não se transforme num melodrama ou num sorriso congelado. Mostre ao seu público que você é uma intérprete à altura da poesia/música que oferece a eles.
Andrea Alves Loli
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