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Dança do Ventre e Preconceito
por Aina Kaorner

 

Certa vez, estava lendo numa revista, uma reportagem na qual um repórter passara alguns dias no Deserto do Sinai; uma península pertencente ao Egito, situada no Oriente Médio, entre a África do Norte e o continente Asiático. Lá moram os povos “beduínos”, cujas mulheres, devido à religião Islâmica, são proibidas de deixar à mostra qualquer parte do corpo senão os olhos, após o aparecimento da menarca (primeira menstruação).

Dentre diversas curiosidades sobre esta cultura, algo que me chamou muito atenção foi saber que mesmo com todas as proibições existentes nesta cultura mulçumana (algo que para nós, ocidentais, aparentam ser verdadeiros absurdos inadmissíveis) é absolutamente normal que as mulheres liguem pequenos rádios de pilha e dancem graciosamente sob o céu estrelado do deserto.

Mesmo em outras civilizações como a dos chamados “Povos Azuis” dos Tuaregs, da parte do Deserto do Saara, que vai da Mauritânia ao Marrocos e Argélia, e segue para o Egito (cuja sociedade é, por incrível que pareça, matriarcal). Eles também realizam a dança em muitos dos seus rituais sagrados, como a “Guedra”, usada para atrair boas vibrações e energias positivas.

A Dança do Ventre para esses povos, já faz parte da cultura e é praticada pelas mulheres desde a infância em festas, casamentos, reuniões familiares, etc. Enquanto que para muitos ocidentais trata-se de algo vulgar e erótico.

Mesmo nessas culturas aparentemente rigorosas, a dança é algo extremamente comum, e faz parte do cotidiano das mulheres; enquanto que, na nossa sociedade, cujas mulheres alcançaram uma grande emancipação, liberdade sexual, política e social, independência financeira, exercem cargos e profissões outrora exclusivamente masculinas, moram sozinhas, criam seus filhos muitas vezes por produções independentes, são líderes e possuem liberdade de expressão; é difícil de acreditar que ainda haja tanto preconceito em relação à Dança do Ventre.

Eu poderia simplesmente omitir essa situação e apenas comentar sobre as coisas boas oferecidas pela Dança do Ventre; só que, agindo dessa forma, mais do que mentirosa, eu estaria sendo negligente.

Muita gente ainda liga a imagem da Dança do Ventre às odaliscas e cortesãs que eram oferecidas aos reis e sultões. Esse erotismo acentuado é constantemente ligado a idéia de prostituição e promiscuidade; como se a mulher estivesse exibindo seu corpo para ser oferecido após o espetáculo (o que sabemos que não é verdade).

Não podemos negar de maneira alguma a sensualidade da Dança do Ventre, inclusive os benefícios de usá-la terapeuticamente como resgate da auto-estima, conseqüentemente o aumento da libido e melhoria da vida sexual do casal. Mas esse é um trabalho próprio voltado para esse propósito com técnicas apropriadas e acompanhamento terapêutico.

 

Qualquer coisa que mexa com o corpo de uma forma expressiva pode tornar-se belo e sensual, como é o caso da Dança Flamenca, do Tango, Salsa, Merengue, Lambada, Dança Indiana, Contemporânea, Jazz, moderna, etc.

Muitas pessoas aceitam normalmente que algum dançarino contemporâneo ou ator fique até nu no palco em suas coreografias e espetáculos, mas simplesmente abomina o fato de ver uma dançarina com trajes de odalisca realizar uma performance de ondulações, tremidas e batidas de quadril. O primeiro é visto como pura expressão artística, e o segundo como vulgaridade e prostituição.

Isso prova claramente a permanência dos vestígios de uma cultura machista, sem esclarecimentos e dotada de preconceitos vindo de questões socio-culturais e estereótipos incutido na cabeça de pessoas ignorantes, e que desconhecem o verdadeiro significado da Dança.

A própria palavra “pré-conceito” quer dizer um conceito pré-estabelecido sobre algo ou alguém que não se conhece bem. Todo mundo se sente no direito de emitir juízo de valor sobre determinado assunto sem conhecê-lo profundamente.

Há uma diferença muito grande em sensualidade e vulgaridade; que não é bastante esclarecida, sendo até mesmo distorcida pelos Meios de Comunicação de Massa. A Indústria Cultural muitas vezes retira a verdadeira essência do objeto artístico, veiculando idéias já consagradas ou aquelas que se pretende incutir. Valores políticos, religiosos e econômicos, são transmitidos de maneira direta ou indireta. Essas ideologias transmitidas retratam a sagacidade manipulativa que procura mostrar aquilo que dá audiência, arrecadando vendas e lucros. Assim, acaba popularizando certos valores de maneira errônea.

Nada tenho contra a essa pirotecnia dos Meios de Comunicação de Massa. Particularmente acho até válido, pois se dá audiência é porque está atendendo aos gostos e as necessidades do expectador. O que sou contra é o desrespeito e a falta de compromisso com a informação, criando imagens estereotipadas e preconceituosas de homossexuais, negros, pobres, presos, prostitutas, mães solteiras, analfabetos, etc.

Baseado nesses conceitos, podemos observar mulheres utilizando-se do arquétipo da odalisca para construir uma imagem de símbolo sexual, fazendo uma elo ligação entre a vulgarização da mulher e a Dança do Ventre como exemplo disso. Muitas músicas são feitas com letras que abordam esse tema de maneira pejorativa: “A cobra vai subir”... Um dos clichês mais usados; dentre outros fatores que contribuem para o desgaste da verdadeira essência da Dança do Ventre, totalmente sagrada e espiritual.

Quando as mulheres primitivas realizavam movimentos ondulatórios do Ventre, comparando a gestação com a fertilidade da Terra, com certeza elas não pensavam na vulgarização e utilização da mulher como objeto sexual. Atualmente esse ritual, antes secreto e sagrado, tornou-se um espetáculo para ser visto de uma forma graciosa como celebração do milagre da vida através do Ventre da mulher; fazendo com que o expectador capte essa energia e encante-se com os movimentos mágicos e graciosos dotados de técnicas específicas e estudos sobre sua origem.

A maldade está nos olhos de quem vê, já diz o dito popular. O ser humano que consegue enxergar alguma maldade numa performance de celebração à vida, tão mágica e bela como a Dança do Ventre, com certeza precisa rever os seus conceitos.

Vale ressaltar que é preciso que cada mulher valorize seu corpo como um templo sagrado da sua alma. Por isso, cabe a bailarina valorizar-se e saber respeitar sua arte, sem deixar margem para que pessoas desinformadas façam certos comentários pejorativos a respeito da sua pessoa, sendo conseqüentemente atribuídos à dança. Cada pessoa tem o seu livre arbítrio para fazer da sua vida o que bem entender, e não é a Dança do Ventre que vai fazê-la perder seu caráter e sua moral; porque felicidade não é pecado.

Aina Kaorner (Salvador-BA)

Professora, bailarina e coreógrafa.

www.ainakaorner.hpg.com.br

 


Aina Kaorner