| Como avaliar sua dança do ventre |
"Este
artigo tem por objetivo oferecer informações úteis para nortear seu caminho
durante o desenvolvimento e a manutenção da sua qualidade na dança. Não se
angustie se, num primeiro momento, ele lhe parecer árido demais. Com o tempo
perceberá que as informações são simples e facilmente digeríveis.
Sugerimos que você o imprima para lê-lo diversas vezes, pois existe uma gama
de informações preciosas nas linhas abaixo, difícil de assimilar em uma única
leitura.
A
idéia é esta: oferecer-lhe diretrizes e embasamento. Você vai se surpreender
com os resultados a longo prazo.
Esperamos ser de alguma ajuda para você que está trilhando seu próprio
caminho dentro dessa arte.
O resultado abaixo envolve três décadas observando, estudando e aperfeiçoando
aquilo que chamamos, desde o início da Khan el Khalili, de "A Arte da Dança
do Ventre".
Portanto, prepare-se para uma jornada! Se observar estes princípios, sua dança
nunca mais será a mesma. Pode acreditar!"
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"Aceite o fato de que nem todos os dias você vai estar leve para dançar como gostaria."
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O
começo de tudo
O sonho de qualquer bailarina é manter uma platéia presa e atenta a seus
movimentos, do começo ao fim de uma apresentação. Se seu objetivo, ao entrar
em cena, é apenas esse, algo estará perdido. Agilidade e qualidade técnica são
pontos extremamente importantes, mas não são os únicos a serem observados.
A naturalidade ao dançar aliada a um bom preparo artístico são a garantia de
seu carisma em cena. Existem muitos caminhos para seu desenvolvimento, pois cada
mulher é um enigma. O estudo da dança e a intimidade consigo mesma criam, ao
longo dos anos, um panorama intrincado e rico que vai transparecer em sua dança.
Alguns pontos a serem observados:
Dinâmica
A dinâmica diz respeito a variedade de nuances e diversificação de momentos
em sua apresentação.
Você pode favorecer a concentração do público através da correta utilização
da música em seus diferentes caminhos. Sua interação com o som a transforma
no exemplo visual daquilo que é apreciado por nossa audição. Se, porventura,
optar por ignorar as modificações sonoras que lhe são oferecidas, sua
apresentação se tornará homogênea e linear, e possuirá poucos atrativos
para segurar a atenção dos espectadores. A previsibilidade de seus movimentos
nunca será um fator de atração, mas de dispersão.
Muitas vezes podemos perceber uma grande diferença de estilos ligada à
personalidade de cada bailarina. Uma pessoa com alta sensibilidade e dotada de
gosto pelo sensorial terá uma dança mais calma e delicada, seu objetivo ao dançar,
provavelmente, estará conectado à necessidade de expressar sentimentos mais
profundos. Pessoas fortes e voluntariosas tendem a um estilo assertivo e gosto
por músicas mais suntuosas ou marcantes, demonstrando sua imposição e energia
e favorecendo a visão do poder durante as apresentações.
Logo, percebemos que "não é possível brincar com fogo sem se
queimar!" Para atingir o equilíbrio, devemos nos lembrar que, em primeiro
lugar, antes de nosso estilo pessoal, os humores de nossa apresentação devem
ser ditados pela música que nos guia e não por nosso gosto individual. Claro
que cada uma de nós terá uma forma única de dizer o mesmo, mas sempre
respeitando a intenção do compositor que criou a peça.
Dentro de uma música clássica, por exemplo, as falhas de dinâmica soam
absurdamente claras. São peças criadas de forma diferenciada, com um número
maior de instrumentos e, conseqüentemente, com mais riqueza de possibilidades
para a executora-bailarina. Cabe a nós a preparação necessária para poder
aproveitar tudo o que a música nos oferece.
Normalmente, uma obra clássica tem muitos momentos diferentes, alguns
suntuosos, outros melancólicos e dramáticas finalizações. Cada um deles
convida para uma interpretação única. Para estarmos tranqüilas durante a
leitura dessa música, não podemos ter dúvidas básicas sobre técnica ou
ritmos. Um repertório rico em passos e variações é solicitado, e nosso corpo
responderá automaticamente aos estímulos que o som oferece.
A Dança é
viva
A dança é uma arte viva e, portanto, muda como você, a cada ano. Ao adquirir
novos conhecimentos ou passos, tudo se altera, incluindo a forma como se
trabalha a dinâmica.
Sendo a dança uma forma de expressão sensível, ela é permeável a suas próprias
flutuações de humor. Tudo pode influenciar em sua dança. Sabendo disso
antecipadamente, vale a pena preparar-se. Queremos dizer, nos momentos em que a
fragilidade se instala, você terá outros instrumentos para proteger a dança, se
esta for sua opção profissional. Se você for bailarina
profissional, não há como fugir da raia. Os grandes auxiliares nestas situações
são o conhecimento técnico e a experiência de palco. Assim munida, pode
enfrentar um dia complicado apresentando a mesma qualidade de dança que
oferecería se tudo estivesse bem. Por dentro, você pode até saber que
aquilo não foi o melhor, mas o público nunca perceberá.
O
Deslocamento Espacial
Ter noção do espaço parece simples, mas não é.
O que faz com que um gato passe numa fenda pequena de um portão? Seus
"bigodes" indicam o tamanho da fenda a ser atravessada. Cortando-os,
você tira-lhe toda a noção espacial. Esses pequenos fios garantem tamanha
precisão, que o cálculo é feito em fração de segundos, enquanto ele está
correndo, por exemplo. Então ele pula e passa de forma astuta.
Deslocar-se requer mais que técnica e elegância. Requer criatividade! De posse
dessa noção espacial, você executa as evoluções no momento certo e no lugar
certo. Permita que todo o público possa apreciar sua apresentação e não
apenas uma parte dele. Privilegiar apenas um segmento de espectadores é uma das
grandes falhas encontradas nas apresentações. Nunca desmereça uma fração de
seu público. Seus olhos devem estar atentos a cada ponto de sua área coreográfica,
seja ela uma sala ou um palco. Acostume-se a medir, com os olhos e a
sensibilidade do corpo, o espaço a sua volta.
Muitas vezes dançamos perto das pessoas. Nossa sintonia fina deve, ao menos,
pressentir até onde podemos nos aproximar sem tornar inconveniente a pequena
distância entre esses pontos. Como passear entre as mesas, quando numa festa os
convidados estão dispostos dessa forma? Como nos livrar de alguém que já
bebeu um pouco além da conta e esqueceu que não é um rei ou um paxá? Como
medir o tempo certo de olhar, sem intimidar ou criar constrangimento?
O deslocamento bem trabalhado nos oferece liberdade de movimentação e elegância
para fugir de situações embaraçosas sem dar o mínimo indício de desconforto
a quem quer que seja, em especial às mulheres presentes.
Giros e Eixo
de Equilíbrio
Os giros executados na dança estão diretamente ligados a seu "eixo de
equilíbrio". Pessoas que não têm esse eixo desenvolvido perdem a noção
enquanto estão girando e acabam saindo do ponto onde estão pisando, pendendo
para os lados. Durante os giros, é necessária a elegância e a simetria dos
braços e pernas. Quanto mais impecáveis eles forem, maior a facilidade dos
giros.
A noção de eixo central é sempre trabalhada em dança acadêmica, não
importa a área escolhida: ballet clássico, moderno, contemporâneo ou jazz. O
giro sempre está presente em cada uma das vertentes da dança.
Se você tem uma professora ativa e habilidosa nos giros, pode solicitar-lhe
ajuda no desenvolvimento de sua própria habilidade. Se esse não é o seu caso,
procure por uma escola de ballet conceituada e entre na classe de iniciantes.
Com certeza o desenvolvimento dessa técnica irá lhe auxiliar no reconhecimento
de seu centro de equilíbrio e favorecerá diversas facetas existentes na dança
oriental. Dentro do trabalho com véus, por exemplo, os giros são fundamentais.
Para os deslocamentos, são essenciais.
A Emoção
Paralelo a tudo o que foi dito até agora, corre a emoção. A expressão de
seus sentimentos dentro da apresentação não acontece apenas pelas "caras
e bocas", ou pelo famoso "sorriso automático" estampado no
rosto.
Deixando de lado regras pré-concebidas e formatadas, o caminho da expressão
dentro da dança se passa " dentro de você". Se você não se permite
"sentir", não haverá espaço em sua arte para expressar a sua emoção.
Ao acontecer a entrega, estabelece-se uma ligação entre o público e aquela
que dança.
O significado dessa interação é difícil de ser explicado, mas traz algo mágico.
Por alguns instantes não existe divisão entre nós. Cada bailarina sentirá de uma forma diferente o impacto dessa
comunicação sensível, mas temos certeza de que a "marca emocional dessa
conversa musical" deixará lembranças em todas elas.
Por vezes, o caminho para a entrega emocional será propiciado pelo instrumento
solista dentro de uma música: um violino triste e angustiado, o som de uma
flauta suspirando e chamando por alguém, um choroso alaúde dedilhando
interminavelmente acerca da tristeza do amor perdido. Estimule sua sensibilidade
ouvindo música, tente absorver as impressões deixadas por ela em você. Que
instrumento lhe inspira mais, qual lhe provoca tristeza, qual lhe convida para o
silêncio?
Fuja da superficialidade, mergulhe dentro dos sons e imagine que seus movimentos
devem ser a forma visual daquilo que ouve.
"Qual o encanto que exerce uma ópera?" Cenário, luz, figurino, uma
orquestra primorosa, os cantores líricos impecáveis e tudo preparado para
oferecer uma viagem sonora e visual para o público: uma estrutura enorme e
perfeitamente orientada para falar direto ao nosso coração. Quando você menos
espera, a ópera introjetou o sentimento em você.
Guardadas as devidas proporções de grandiosidade e riqueza, deve-se preparar
tudo, única e exclusivamente, para fazer vir à tona alguns segundos de emoção.
Apenas estes instantes fazem valer sua noite ou seu final de semana. Serão
lembrados para sempre e, provavelmente, não se apagarão de sua memória.
Lembro-me de um momento pessoal... Estava eu no Teatro Municipal de São
Paulo para assistir a uma ópera sobre uma saga grega: Xerxes. Isso aconteceu há
mais de 15 anos e, para mim, parece que foi ontem. Se fecho os olhos, ouço
novamente o tenor que representava Xerxes, sua voz preenchendo o teatro, fazendo
meus olhos encherem-se d'água. Aquilo foi tomando uma proporção dentro de mim
que, por um instante, sentia que iria transbordar completamente em prantos... de
felicidade! Compreende o sentido da emoção? Ela vai provocar você durante
milhares de vezes na vida, esperando sua reação.
Quanto mais suscetível às emoções, mais aguçada será sua sensibilidade.
Quanto mais emoção a bailarina tiver dentro de si, quanto mais profunda sua
entrega, o jogo eterno das emoções fará sua parte. E você não será mais
uma bailarina, mas sim uma mensageira da arte e da sensibilidade. Alguém que
oferece vida através de movimentos e beleza.
A Expressão
Facial
"O rosto é o retrato da alma."
Como traduzir expressão facial? Não é algo que se ensine em sala de aula.
Podemos dizer que a expressão do rosto é decorrente da emoção. O que você
sente ao dançar pode ser visualizado pelo público através de seu rosto.
Seus olhos podem denunciar qualquer coisa que esteja passando por sua cabeça no
momento da dança: insegurança, medo, indecisão, tranqüilidade, força e
afetividade. A incontável lista de possibilidades está guardada em sua face
para dramatizar ou comunicar a quem lhe vê e mostrar a forma como você recebe
a música.
Desenvolva, devagar e sem pressão, essa parte da dança. Procure no som as
pistas para sua expressão. Que sentimentos brotam ao ouvir determinada canção?
O que lhe diz sua intuição e sensibilidade?
Um repertório musical sempre renovado e atual é o melhor estímulo para a
diversidade. Acostume-se a ouvir diversos estilos de música, aprecie as diferenças,
descubra os pontos mais importantes de cada grupo musical e procure, através
das similaridades e dos detalhes diferenciados, desenvolver uma leitura pessoal
para cada um dos estilos.
Como seria ter que dançar a mesma música por anos e anos? A renovação é
necessária para as células e para o cérebro. Enjoou? Guarde o CD até sentir
saudades da música. Não a use por falta de opção. Mude suas músicas
constantemente para renovar sua emoção.
Presença de
Palco e sua Finalização
A noção de palco, só o tempo vai lhe conferir.
No começo de nossa experiência como bailarinas, geralmente o palco nos
apavora, e saber que há público sedento de apresentação se parece mais com
um pesadelo que com um sonho.
Em primeiro lugar, tome seu espaço e acredite no direito de utilizá-lo. Seja
qual for o lugar oferecido para que sua dança aconteça, as pessoas que lá estão
aguardam exatamente por isto: uma bela apresentação de dança. De certa forma,
elas estão preparadas para receber o que será oferecido e estão influenciadas
positivamente para assistir ao espetáculo. Tudo o que você tem a fazer é
relaxar e mostrar o que organizou para o momento.
Lembre-se de olhar e se dedicar a todo o público. Quando dizemos isso, é para
informar que seus movimentos deverão ser direcionados, de forma equilibrada,
para todos os lados que tenham olhos direcionados a você. Não se esqueça de
um pedaço da sala ou do teatro apenas porque parece menos cheio ou animado.
Cada pessoa presente merece sua atenção de forma igualitária e sem predileções
aparentes.
A finalização deve ser absolutamente precisa. Qualquer engano a esse respeito
retira grande parte de sua força dramática.
Imagine sua apresentação como uma história que tem começo, meio e fim. Você
se interessaria por ler ou ouvir uma história que não termina? Da mesma forma
é a sua dança: o final coroa tudo o que aconteceu antes. Ele é a chave que
fecha, de fato, a porta que se abriu aos primeiros acordes da música.
Recordando sempre a fidelidade que devemos à música. Nosso corpo deve encerrar
em forma de movimento as impressões sonoras que são recebidas.
Termine junto com a música, nunca antes ou depois. Seu ouvido deve ser
estimulado com os mais variados sons e, principalmente, com os acordes finais.
Tranqüilidade
e segurança em cena
É perceptível, mesmo para o leigo, a insegurança da artista numa dança. Seja
num olhar de soslaio ou de dúvida, num passo sem a medida certa e a percepção
deste, ou na indecisão dentro de uma seqüência. Para adquirir segurança, uma
de nossas metas passa pelo domínio técnico.
De certa forma, a tranqüilidade estará sempre ligada a ela. O conhecimento
adquirido com estrutura propicia a calma necessária para sua permanência
despreocupada em cena.
Ter um estudo baseado no improviso também ajuda, e muito, seu desenvolvimento.
Trabalhando alerta e sem imprimir força desnecessária em seus passos,
oferecendo variações que fluem naturalmente e obedecendo às nuances propostas
na música, seu caminho nasce sem esforço e tudo acontece como parte do todo.
Você e a música passam a ser uma coisa só.
Não se esqueça do que foi mencionado acima acerca da dinâmica: dançar tranqüilamente
não significa dançar de forma tediosa.
Hoje em dia, no Egito e Líbano por exemplo, praticamente todas danças são
coreografadas. Pessoalmente, sempre fui um pouco reticente com relação à criação
de seqüências fixas para apresentações, mas existem alguns fatores que devem
ser levados em consideração. Um deles seria o caso específico de um show de
uma hora ou mais que se repete 6 vezes por semana. Nesse caso, vale a pena
preparar um programa fechado que garanta a qualidade de sua performance, mesmo
quando você não vive um de seus melhores dias. Quando sua vida profissional é
baseada em apresentações curtas, existe maior liberdade de ação e a opção
pelo improviso dirigido parece muito mais estimulante do que a simples execução
de coreografias prontas.
Para mim (Jorge), coreografias limitam a emoção. Você não pode dar o melhor
de si numa música que já dançou exaustivamente em ensaios. Torna-se maçante
e artificial para você. Pense no caso de Mick Jagger cantando "Satisfaction".
Ele já faz isso exaustivamente desde o início dos anos 60. Você acha mesmo
que ele canta com "satisfação"? Tem que cantar, pois pedem, mas para
o artista, a emoção já se diluiu há muito tempo. O que existe é uma
coreografia cênica, uma improvisação dirigida.
Improvisação
Dirigida
Chamamos de improvisação dirigida o estudo detalhado de uma música, com
diversas repetições práticas de dança ligadas à música escolhida. Depois
de algum tempo estudando, você treina suas reações de acordo com cada flutuação
que se apresente, e seu corpo reage adequadamente aos momentos, diferenciando a
apresentação em harmonia com os sons que se apresentam.
De certa forma, a intimidade com a música lhe oferece calma e tempo para
definir o que usar e quando. Os momentos dramáticos e cruciais já estão
marcados dentro de seus ouvidos e, de posse desse conhecimento, poderá escolher
entre diferentes opções de passos, previamente testados, aquele que lhe parece
mais apropriado. O fato de ter tentado outras vezes dançar a mesma peça,
enriquece seu repertório de variações. Assim, mesmo dançando a mesma coisa
mais de uma vez, estará apta a oferecer uma versão fresca, de acordo com suas
emoções naquele exato instante.
Aspectos importantes para um bom resultado em cena:
· Feminilidade claramente assumida. Não se esqueça, ao dançar, que o charme
é fundamental na dança oriental. Não há mal algum em exercitar sua
delicadeza e elegância em cena. Toda mulher possui dentro de si facetas
nascidas em diferentes fases da vida. Em princípio, essas variadas expressões
deveriam ter espaço dentro de nossa dança para se manifestarem livremente.
Dessa forma, em algum momento visualizamos a mulher, em outros uma menina:
diversas faces pertencentes a apenas uma pessoa. Quando assumimos nosso papel
feminino de forma ampla e verdadeira, não corremos o risco de ofender ninguém.
A sensualidade presente na dança faz parte de sua natureza e, se bem
direcionada,
não agride nunca.
· Cuidado esmerado com seu traje e produção visual. Não se iluda ao pensar
que os pequenos defeitos em sua roupa não serão notados, e que aquela
lantejoula faltando passará desapercebida. Como bailarina, você alimenta o público
de diversas maneiras. Todos os sentidos são estimulados por meio dos sons, das
cores, do perfume que usa ao dançar, de sua roupa, e de sua aparência. Tudo
faz parte do contexto. Cuide com esmero de seu visual. Não temos que ser magras
como uma top model. Entretanto, nem mesmo no Egito, que no passado tinha predileção
por bailarinas generosas em suas curvas, essa posição é mantida. Atualmente,
há preferência por corpos mais delineados, ainda que longe dos padrões
espartanos das modelos internacionais. Convém pensar a esse respeito. Toda
profissão tem suas exigências; a nossa não é diferente.
· Conhecimento de folclore. Toda tradição traz consigo grandes riquezas, e
isso não se modifica na dança oriental. O folclore dá um colorido especial a
sua dança e funciona como elemento surpresa em suas apresentações. Dentro de
um show longo, por exemplo, a apresentação folclórica cria momentos especiais
e leves, dando a chance de alargar a visão do público acerca dessa arte.
· O trabalho com os véus. Apesar de a utilização prolongada de véus na dança
não fazer parte das tradições dos países árabes, é difícil deixar de lado
esse elemento tão cenicamente mágico. Como todas as outras possibilidades
presentes na dança, o uso dos véus depende de treino e apuro técnico: como
utilizá-lo em suas entradas e saídas de cena, que força imprimir para obter o
melhor resultado, qual a velocidade exata para criar o efeito que transformará
a dança em sonho. Em nossa opinião, o véu também desempenha um papel
fundamental entre a saída de uma bailarina e a entrada de outra. Levado pelos
movimentos sinuosos e envolventes do véu, o público se distrai e apaga,
momentaneamente, a imagem da bailarina anterior, limpando a memória para
receber a próxima performance.
· Agilidade e técnica de quadril para percussão e partes lentas. O quadril,
dentro da dança oriental, tem o papel fundamental de ler a música em todas as
suas variações. Não importa se num momento o instrumento solista é o alaúde
e, num outro instante, o que se pede é a leitura dos ritmos ou frases de
percussão. Tudo é essencial e não temos como ignorar um aspecto em detrimento
de outro. A evolução dessa parte da dança se dá de forma gradativa e cresce
na mesma medida em que o estudo se aprofunda, tanto em termos musicais quanto técnicos.
O aprendizado vai abarcar diversas áreas na busca do domínio de nosso corpo.
Precisamos sentir o que fazemos, pois o caminho desse domínio passa pela
compreensão. Não há atalho mais curto para se aprender: o único jeito que
conhecemos se traduz em aulas, prática e perseverança.
· A simetria dos braços e elegância das pernas. Os braços são a moldura de
sua dança. Se bem colocados, ninguém nota sua presença; mal colocados,
estragam todo o resto. Pense neles como as molduras dos quadros: o mais
importante é a pintura, mas nenhuma obra de arte que se preze é colocada em
exposição sem uma moldura apropriada. Experimente o estudo das formas com um
espelho que lhe ofereça a dimensão de seus desenhos. Nesse caso em especial, o
espelho é um ajudante maravilhoso. Seus olhos crescem em técnica antes de seu
corpo; portanto, confie em seus parâmetros visuais. Se olhar para o espelho e não
gostar do que vê, pode ter certeza de que algo está muito errado. Deixe-se
levar por seu senso estético, pois, nesse caso, ele é tudo o que você
precisa.
A simetria dever ser observada a fim de garantir harmonia e apuro na visão de
sua dança como um todo. A movimentação assimétrica e descuidada revela falta
de limpeza e tira a concentração do que é mais importante. É incrível como
os pequenos erros se tornam enormes quando nos apercebemos deles. Se puder
evitar esse desconforto, para que conviver com ele?
No que diz respeito às pernas, seu bom senso também é chamado ao serviço.
Dançar com as pernas abertas demais prejudica terrivelmente sua linha e a execução
dos passos. Com distância entre os pés seus esforços se multiplicam e não há
garantia alguma de alinhamento. O equilíbrio também está ligado à forma como
as pernas trabalham durante a dança. Essas constatações, por si só, já são
um excelente motivo se tomar o devido cuidado.
Hoje as roupas oferecem mil possibilidades para exposição das pernas. Algumas
bailarinas preferem ser discretas e usam roupas completamente fechadas, outras
abusam das aberturas e chegam a causar polêmica com a ousadia dos modelos. Cabe
a cada uma de nós exercer escolhas de acordo com os parâmetros que temos a
nossa disposição. Dependendo do evento e do público para o qual vamos nos
apresentar, podemos variar nosso figurino. O gosto pessoal também interferirá
na seleção. De qualquer forma, nenhum tipo de figurino poderá esconder os
defeitos decorrentes de má postura ou colocação errada das pernas.
A sensualidade presente na dança deve andar lado a lado com o noção de estética
e bom senso. A beleza natural pode e deve ser mostrada.
Em cada
país encontraremos um padrão diferenciado. No Egito, temos todos os tipos de
exemplo, desde os figurinos mais modernos e nada parecidos com o que chamamos de
"traje típico" até os mais tradicionais, que nos fazem lembrar os
filmes das décadas de 40 e 50.
Posicionamento
e uso dos joelhos
Mantenha suas pernas próximas e, no caso de deslocamentos, dê preferência ao
uso de meia ponta alta. Esses cuidados fornecer-lhe-ão maior agilidade e
garantia de uma movimentação delicada e elegante.
Outro cuidado que deve ser lembrado diz respeito ao posicionamento de seus
joelhos durante a dança. Eles não devem se manter flexionados, pois essa
colocação não lhe auxiliará em quase nada. Servirá apenas para colocar mais
força sobre a articulação dos joelhos e oferecerá um esforço adicional e
desnecessário para essa região.
O desbloqueio do quadril está relacionado ao controle de movimentos pequenos e
delicados e à habilidade de fazer trocas de peso alternadas, e não ao uso de
força e à imposição de grandes desenhos para clarear o que está sendo
feito.
Musicalidade
Como definir musicalidade? Para a bailarina ser musical, poderíamos dizer, por
exemplo, que sua dança deveria ser harmoniosa. Com o que estabelecer esta
harmonia? O som é nosso caminho, apenas ele pode determinar a ordem,
velocidade, humores e nuances de nossa execução.
O ritmo nasce conosco e está presente em nossa vida de forma natural. Nosso
coração tem um ritmo próprio que se alterna de acordo com as experiências
que passamos. Nossa respiração também obedece a estímulos externos, mas se
mantém em níveis pré-determinados a fim de garantir a oxigenação necessária
ao bom funcionamento do organismo. Com o ritmo musical não poderia ser
diferente.
Dentro da dança, essa divisão marca nossos passos e mudanças, definindo
finalizações de frase e troca de humores. A qualidade como bailarina
passa pelo crivo da musicalidade. Sendo eficiente na leitura sonora do que é
proposto, pode-se libertar para sentir o que é dançado. Um pianista não
tem o direito de alterar, só por gosto pessoal, o andamento de uma peça
escrita há anos. Ele deve seguir o que está sendo solicitado pela partitura.
Assim também é conosco, bailarinas. Se a música pede deslocamento, devemos
responder com ele; se ela passa por um instante melancólico, que assim o seja:
usaremos nossa capacidade dramática para expressar a melancolia contada no som.
Se pudermos usar essa sentença como guia, creio que estaremos suficientemente
inspiradas para todo o necessário no desenvolvimento de nossa musicalidade.
O estilo pessoal: sua marca registrada na dança
O seu estilo pessoal depende de tudo o que já viu, ouviu e sentiu até hoje,
desde o início de seu contato com a dança. Vemos o desenvolvimento de sua
"marca", como a conseqüência esperada de seu crescimento e
maturidade profissional.
Devemos observar profundamente todas as grandes bailarinas que se desenvolveram
antes de nós. Cada uma delas terá um papel fundamental em nossa formação.
Algumas serão nossas musas inspiradoras, outras a perfeita indicação do que não
queremos para nossa própria trajetória. Cada uma dessas mulheres desempenhou
um papel dentro do cenário de dança e transformou a própria vida, assim como
transformamos a nossa.
Ao copiar grandes bailarinas, estudando seus diferentes estilos e formas
pessoais de variação, desenvolvemos novas possibilidades. Num primeiro
momento, tentamos realmente duplicar aquilo que vemos no vídeo ou em aula.
Estudamos até que a qualidade de nosso movimento se aproxime daquela que foi
nosso motivo de estudo. Isso, por si só, já é um árduo caminho. Depois de
algum tempo você perceberá que aquele passo foi incorporado a seu repertório
de movimentos e adquiriu características levemente diferenciadas. Nesse
momento, seu estilo pessoal está nascendo.
Jorge Sabongi - Novembro 2002
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