MÚSICA E DANÇA ÁRABE

"O boom"

"Quem acredita que a música árabe está invadindo o Brasil e que esse momento é passageiro, engana-se: esse "boom" é mundial e acontece de forma progressiva há pelo menos, 25 anos."

A difusão maciça da música árabe é hoje, o elo que faltava para nós no Ocidente.

NOSSOS PRIMEIROS LPs ÁRABES

Há 20 anos atrás, não havia música árabe no Brasil. Os CDs surgiram na década de 80. Os primeiros LPs de nosso acêrvo na Khan el Khalili, foram comprados nas lojas de New York. Durante três dias percorri as grandes lojas e adquiri os LPs, obras antigas, fora de catálogo e em gravação mono. Verdadeiras relíquias.

Lembro ainda, como se fosse hoje, sentado no saguão do aeroporto, a espera de meu vôo de retorno ao Brasil, grudado com a sacola contendo 55 LPs. Aquele pacote que eu segurava com todo cuidado contribuiria para iniciar uma nova jornada musical em nossa história. As apresentações de dança do ventre tomaram um outro rumo dentro da Khan el Khalili depois daquela viagem...

DE ONDE VEM A SEDE DA DANÇA

Acompanhamos a expansão da música e dança árabe, através da dança do ventre, nas duas últimas décadas. Sua maior repercussão, o epicentro do terremoto, transparece no desejo feminino em resgatar os valores atenuados e obscurecidos a partir da segunda metade do Século XX. O que a vida moderna arrancou da delicadeza da mulher, a dança árabe devolve com juros e correção.

Nada mais justo, emprestar do Oriente o conhecimento que tem suas origens por volta de 30.000 A.C. Há dúvidas sobre o surgimento da dança, hoje conhecida pelo nome de dança do ventre, com vestígios deixados no Egito, Mesopotâmia, Grécia e em tantas outras regiões do mundo.

Nos dias de hoje a polêmica sobre as origens da dança já não ocupa tanto nossa mente mas sim, o que a dança oriental pode trazer para a mulher contemporânea.

Através da Internet, pudemos acompanhar nos últimos cinco anos a proliferação, tanto da música, como da dança árabe, em práticamente todos os países do mundo, nas Américas, na Europa, Austrália e até mesmo no Japão.

No Oriente Médio, berço desta arte, houve realmente uma reviravolta. Centenas de novos cantores surgiram e ganharam fama da noite para o dia. Um estilo moderno nasceu trazendo canções que todos podiam dançar. Novas bailarinas ganharam fama e renderam homenagem às grandes estrelas das décadas de 40, 50 e 60 (Tahia Carioca, Samia Gamal e Najwa Fowad, para citar apenas algumas).

HOLLYWOOD EMPRESTA DO ORIENTE

Nesse período, a dança árabe começava a aparecer para o mundo através nos filmes de Hollywood. Ganhava cada vez mais espaço num mundo fantasioso, de magia, misticismo e sedução. As canções árabes não faziam parte do repertório nos filmes. A música instrumental era responsável pelo "clima". Repare que os trechos em que aparece dança árabe nos filmes americanos, raramente duram mais que 10 segundos. Suave alusão as 1001 noites de Sherazade. Era o suficiente. O efeito sempre foi satisfatório.

À partir da década de 50, as primeiras professoras, vindas do Oriente apontaram nos EUA e nasceria ali a semente de um movimento que tomaria proporções gigantescas.

Na década de 80 a música árabe já era encontrada em território americano, em virtude da grande procura dentro do próprio mercado. A dança, como um vulcão, entrava em erupção na América.

Através dela, milhares de mulheres tem redescoberto uma forma de vivenciar com prazer o encanto feminino abandonado, e restituir seu lugar na vida diária. "A Arte da Dança do Ventre", nada mais é que "A Arte de Ser Mulher de Forma Sublime", com aperfeiçoamento e auto-conhecimento.

OS HOMENS SUMIRAM ... CADÊ ?

A mulher resgata aos poucos sua posição e demonstra ao sexo oposto sua capacidade de tornar-se bela, independente e madura para o novo milênio. Arrisco a dizer, que os homens não perceberam, mas está surgindo uma nova mulher; não nos moldes da geração dos anos 60, onde era necessário provar através do liberalismo sexual que elas estavam em igualdade de direitos: agora essa mesma liberdade aparece de forma subliminar. A evolução feminina é tão acelerada, a mulher já evoluiu de tal forma, que já existe um questionamento sobre o papel masculino. Por este motivo, ouve-se tantas mulheres dizendo que "homens disponíveis são poucos, interessantes então, objeto raro e caminhando para a extinção."

Há de fato um fator de desequilíbrio entre os gêneros. Hoje não se sabe se faltam homens ou se faltam mulheres, mas ambos os sexos acreditam na escassez de seu oposto.

Enquanto mulheres do mundo todo procuram por auto-conhecimento e se preocupam em estruturar sua auto-estima, a grande maioria dos homens se esquece de que não é somente o conhecimento à frente das telas de computador e a expansão profissional que agrada a maioria esmagadora do sexo, dito "frágil". Esses homens procuram "mães", e não "companheiras". A solidão é sua preocupação constante, sensação compartilhada também pelo gênero feminino. Cada um, a sua maneira, procurando pela mesma coisa e sem chances de se encontrar!

O "BOOM"

Chegamos então, a explosão mundial da dança e da música árabe. O encanto agora tem um ritmo acelerado no que concerne a evolução e do aprendizado. "Elas sabem que estão agradando ... e têm a seu favor toda a munição necessária: charme, expressão, e principalmente, a habilidade em explorar o que tem de melhor e omitir o que não interessa, privilegiando suas qualidades pessoais".

Mesmo não tendo as medidas perfeitas, exigidas pela mídia, uma bailarina pode encantar, através de seus movimentos e graciosidade.

Que bom ter certeza de que o charme não é dom de Deus, mas que está ao alcance de qualquer mortal decidida à aprender seu significado.

Resta o imperdoável pecado da vulgaridade conectada à esta dança. Fruto da falta de informação, a apelação sexual acaba surgindo com grande força nos anúncios relacionados a essa área; travestem de forma descuidada a arte, transformando-a num enlatado para o grande público.

O que não possui sedimentação cai, e esse é o destino certo das trajetórias relâmpago que temos presenciado nos últimos tempos.

ATÉ QUE A MORTE TE SEPARE DA DANÇA

No processo do aprendizado, infelizmente muitas se perdem pelo caminho. Tendo aprendido apenas superficialmente os primeiros passos, fazem desta fase a primeira e última de sua curta trajetória como estudantes. O resultado é o que vemos hoje no mercado, diversas escolas oferecendo aulas de dança do ventre com professoras sem nenhuma formação em dança, parece absurdo e é de fato.

Hoje em dia o reconhecimento chega até as profissionais de primeiro escalão, que "por coincidência"estão há mais de 15 anos trabalhando na área, um prêmio mais do que merecido pela estrada trilhada. "Só sei que nada sei ..." deveria ser o lema de toda bailarina. O estudo constante e a prática diária acrescentam nuances que não seriam obtidas de nenhuma outra forma. Nada substitui a perssistência e seriedade.

O dançar é como uma jornada sem prazo para o término, um jardim bem cuidado precisa de atenção constante e assim é a dança. Apaixone-se por ela e decida abraçar toda uma cultura rica em poesia, música e movimentos. Explorando esse território imenso, descobrirá tesouros insondáveis e as surpresas surgirão no caminho de forma inesperada e bem-vinda.

Diversas mulheres oferecem o relato de como a dança modificou suas vidas radicalmente, alterando seu humor e seu corpo, eliminando depressão e descontentamento. Os resultados variam de pessoa para pessoa, mas sempre se manifestam independente dos fatores diferenciais entre as praticantes. Idade, nacionalidade, estado civil ou profissão; não há regra fixa sequer. Todas as mulheres que têm a oportunidade de experimentar essa dança se encantam, sem exceções.

Dançar estimula sua auto confiança, oferece contrôle sobre seu corpo e desperta a intuição e a sensibilidade. Nasce uma nova mulher, dona de suas emoções, consciente de seu poder de fogo e disposta a ser feliz, acima de tudo.

Essa etapa está apenas começando... não se pode prever as dimensões desse movimento!

A MÚSICA ÁRABE AGORA VEM DE BRINDE

Na esteira desse sucesso eminente, a música árabe surge mesclada à diversos gêneros como pop, reggae, flamenco e outros, procurando seu espaço no mercado moderno.

A popularização da música oriental abre espaço para o interêsse do grande público pela cultura árabe, novos títulos surgem a cada dia, a música tradicional também é oferecida agradando à todos, em especial as bailarinas que têm a sua disposição composições elaboradas exclusivamente para dança.

Não se sabe ao certo se a música árabe traz a dança ou se a dança traz a música, o fato é que vivemos um momento de intensa movimentação dentro desse novo universo, uma "febre" assola o país, as danceterias se rendem ao convite e oferecem suas pistas para a música quente e sensual que vem de longe.

A mídia impressa e televisiva já descobriu o impacto desses assuntos nos índices de audiência e agora uma etapa de bobardeamento em massa faz a felicidade dos aficcionados e profissionais da área. Muito ainda está por vir... basta aguardar.

A tamareira demora 150 anos para oferecer seu primeiro fruto; a cultura árabe veio para ficar e em menos de um ano à partir de hoje, muitos frutos terão sido distribuídos por aqui !

Jorge & Lulu Sabongi - Abril/2000