| DANÇA DO VENTRE: FEITA PARA A MULHER... |
"Feita para a mulher...."
![]() |
Lulu Sabongi (Chile)
A dança pode liberar ou aprisionar, horas se passam e é difícil ir embora.
A música e a dança sempre exerceram o papel fundamental de facilitar nossa expressão e reverberar nossos sentimentos e emoções acumulando energia para liberá-la em seguida através do movimento. Usado para fins variados o ato de dançar nos auxilia terapeuticamente, aliviando tensões e atraindo a atenção e o amor do outro.
Em culturas distantes até hoje a dança cumpre o desígnio sagrado de encorajar a fertilidade humana e a germinação das sementes. A dança que hoje conhecemos pelo nome de "dança do ventre" tem sua origem em algum ponto inalcançável de nossa história como seres humanos. Num tempo em que religião, arte e sexualidade não eram matérias separadas, mas sim coexistentes e cooperantes. ,O nascer e o por do sol, dia e noite, as colheitas e o ciclo da vida, compreendidos primeiro pela alma e depois transformados em mitos e estórias para gerar uma cartilha que ensinava a "VIDA".
Antes da ciência se transformar no que é hoje, as explicações para as leis da vida na Terra tinham por base a compreensão do mundo que nos rodeava e o estreito laço de comunhão com a natureza, tudo vinha da terra, desde o alimento para homens e animais, até as sementes que se transformavam em árvores e a água que saciava a sede.
![]() |
Lainah Al Kaharamana
O ciclo da vida das plantas era e ainda é até hoje muito parecido com a reprodução humana, uma semente germina e brota, primeiro tímida e frágil até crescer e se modificar tornando-se uma planta adulta. No ventre da mulher também uma semente germina e se desenvolve até que, madura vem ao mundo na forma de um bebê.
Essa estreita relação entre a mãe terra e a mãe humana conferiu as mulheres da antiguidade um papel primordial, pois como mantenedoras da vida e sua propagação, através da gestação, elas foram escolhidas para representar até mesmo religiosamente o símbolo da vida em função de seu poder natural de preservação da espécie.
Religião e arte sempre juntas honravam através de rituais os maiores valores humanos, e dentre todos, um merecia destaque especial, a fertilidade. Venerada em rituais feminino, honrada com dança e música, focalizando a região dos quadris e ventre nasceu uma dança que, centrada nas regiões primordias do corpo da mulher responsáveis pela reprodução, relembravam a ela e aos demais a importância da preservação e perpetuação da vida. Nas cerimônias iniciáticas homens e mulheres eram separados durante os ritos, respeitando dessa forma a diferenciação entre os gêneros e sua respectiva similaridade com a natureza.
Falando sobre nosso mundo contemporâneo, bombardeado pelo stress da vida metropolitana, a procura pela excelência em todos os setores da vida, as mulheres se voltam para valores antigos e esquecidos nessa nossa era de Aquário. Delicadeza, suavidade, passam por novo reconhecimento e a feminilidade pede passagem. Numa tentativa de resgate do feminino essas mulheres descobrem a dança do ventre e se encantam por ela, cresce a procura e a aura de mistério dá lugar ao espaço na mídia, sensualidade e sedução, assuntos que sempre interessam.
![]() |
Mayara Al Jamila
Nesse mar de ambigüidades mais uma surpresa. Num tempo onde a identidade sexual não é assunto tão simples quanto na época de nossos bisavós, homens começam a dançar a dança do ventre! E agora? Até onde devemos permitir a intersecção de ações ditas femininas ou masculinas, será que existe um limite? Todos somos capazes indistintamente de executar tarefas sem levar em conta nossa índole natural, ou aptidões oferecidas pela natureza...
Nos países árabes, berços por excelência desta dança, um homem executando artísticamente a mesma e tendo seu tronco superior descoberto, usando um traje que lembre ainda que vagamente o traje feminino, é ato digno de castigos inimagináveis para nós ocidentais.
Como uma dança que cultua e é baseada nas linhas arredondadas do corpo da mulher pode ser executada por um homem? Com todo o avanço da ciência e medicina ainda não foi dado ao gênero masculino o poder de gerar uma vida dentro de seu corpo. Um homem pode gerar, abrigar um bebê por seu tempo de amadurecimento e depois do parto alimentá-lo com seu leite?
Se a resposta é não para as perguntas acima, então o homem não deve dançar a dança do ventre, ela pertence as mulheres, ele precisaria nascer de novo para ter direito a sua execução.
A questão não é puramente fisiológica; existem coisas imutáveis culturalmente e na minha opinião a dança do ventre faz parte da natureza feminina assim como a virilidade faz parte da natureza masculina. Mulheres são férteis, homens são viris. A união é perfeita, inverta os papéis e entraremos num terreno desconhecido.
Dentro da cultura árabe existem também as danças masculinas, que enaltecem a conquista , a força e as habilidades pertencentes ao gênero masculino. A beleza reside antes na diferença do que na igualdade. O que seria das noites de luar se não houvessem as manhãs luminosas para lhe fazer contraste?
Lulu Sabongi - Agosto/2000
![]()