Somente o básico da dança do ventre para crianças   

(...e está bom demais para ela brincar em casa)
por Jorge Sabongi

 "Crianças tem uma facilidade incrível na absorção de conhecimentos. Ao pensar em oferecer a criança aulas de dança do ventre, lembre-se de respeitar os limites da idade e de aproveitamento de acordo com a faixa etária de sua filha.

O exagero na crítica pode apagar a espontaneidade e o prazer da menina.  Talvez valha mais a pena, oferecer uma oportunidade para que ela apenas se divirta e descubra aos poucos este novo universo.  A brincadeira em sala de aula e a exploração de seus horizontes corporais podem oferecer muitas possibilidades saudáveis para nossas filhas adolescentes. 

Esta dança estimula a sensualidade e a sexualidade; vale a pena observar cuidadosamente estes pontos e trabalhar em harmonia para não oferecer estímulos precoces a respeito desses aspectos, muito cedo, na infância.

 Portanto, mantenha limites no aprendizado e redobre a atenção, conversando sempre, e, se mantendo próxima o suficiente, para que sua filha possa estabelecer a tão necessária intimidade entre vocês.

 Na minha opinião, classes deveriam ser organizadas levando em consideração a faixa etária das alunas.  Muitas iniciam seu aprendizado aos doze anos mas, eu pessoalmente, considero a idade ideal, por volta dos dezesseis anos."

Tivemos a experiência em casa.

Yasmin, nossa filha, hoje com 12 anos, assistia desde os 4 anos a dança e também ficava próxima à mãe, assistindo às aulas.  Aprendeu somente vendo as aulas da mãe e os movimentos das alunas.  Logo cedo, pediu um véu para imitar, e é claro, a roupa veio em seguida.  Nos intervalos das apresentações na casa, com música ambiente, ouvíamos palmas nas salas e quando íamos ver, lá estava ela fazendo seu show para o público que aguardava as apresentações de verdade.

Virou um pequeno fenômeno e logo foi para a TV fazer suas danças.  Os programas achavam interessante, pois era novidade, por volta de 1997.  Muito bonitinha, coisa e tal, começou a ser chamada para diversos programas infantis.

Foi aí que percebemos que estávamos estimulando precocemente alguns pontos.  Ir à um programa de TV, todos sabemos, é cansativo!  Não se entra na hora marcada, perde-se o dia todo, o ambiente tem de tudo e, principalmente, não é saudável para crianças, pois todos os quadros que vão ao ar, se misturam indiscriminadamente nos bastidores: mulheres semi-nuas para lá e para cá, atrações ridículas e inverossímeis dos quadros de variedades, personagens caricatos e até crianças de mente enlatada, buscando uma carreira de modelos publicitários por imposições de alguns pais com certa dose de auto-frustração profissional... tudo causando uma confusão na cabeça das nossas crianças.  "Que mundo é esse?"

Para muitos, tudo isso, pode ser absolutamente normal.

Enfim, ela não brincava mais... só se preparava para o programa seguinte.  Um após outro.

Percebemos que este não era o caminho que queríamos para nossa filha e a direcionamos para outras atividades.

Com o advento da novela mostrando crianças dançando, a curiosidade se tornou uma mania nacional.  Ocorre que muitas das academias não estão preparadas nem para ministrar aulas de dança do ventre para mulheres, por carência de boas profissionais, o que dizer disso sendo ensinado indiscriminadamente para nossas crianças?  E o preparo psicológico da professora, que tem em seu curriculum, apenas alguns shows realizados em casas noturnas?  O que sabe ela do tratamento e limite da sexualidade com crianças.  Ela tem filhos, para poder atestar?

Mas a mãe quer que a criança aprenda!

Um momento: é a mãe quem quer aprender, não a criança!  Mas ela acha que não tem idade, corpo ou visual adequados, e que a criança é quem tem que preencher este vazio.  Cuidado com a projeção.  Se a realização é da criança, é outra história.

Existem mães que sonham como sua filha na TV.  Mesmo que isso represente algo contrário para a criança.  É necessário bom senso para perceber e orientar o tipo de ambiente que seu filho deverá freqüentar.  Futuramente isso fará diferença na vida dela.  Deixe-a viver sua idade normal.  Minha avó já dizia: "Criança tem que fazer coisas de criança!"

Se ela pedir, permita, mas certifique-se que existe estrutura para direcionar um bom ensinamento para ela.  Valendo da situação da criança querer aprender, a todo custo, em função do modismo (independente de ter chegado a idade adequada - menos de 12 anos), verifique alguns pontos importantes, à título de sugestão:

1) salas devem ser exclusivas para crianças (nunca fazer aulas com adultos, pois tira-se a liberdade de todos, numa confusão de padrões de comportamento social);
2) limite do número de crianças por aulas, pois seus valores são diferentes dos adultos (máximo 10, para que seja dada boa atenção à todas elas);
3) tempo máximo de 1 hora de aula, por questão de concentração infantil;
4) ensinamento dos passos básicos de forma lúdica, somente à título de brincadeira, sem grandes exigências;
5) psicologia adequada da mestra no trato com crianças para não criar estímulos em algumas, e inibições em outras, fator que tende a repercutir para o resto da vida;
6) ensinar gracinhas (não charme!);  evitar movimentos que estimulem demais a sexualidade;
7) suprimir movimentos que envolvam risco, como cambreés, caídas ao chão... e outros que a idade cronológica da criança não permitam discernir perigo para o corpo (lembre-se que ela poderá mostrar para uma amiguinha na escola e exagerar, podendo machucar-se); 
8) acompanhamento da mãe, assistindo as aulas e tirando uma série de dúvidas que vão surgir para a criança (é uma maneira sadia de ficar mais próxima de sua filha)
9) estabelecimento de um período curto do curso (poucos meses).
10) aulas de dança do ventre não são como um curso qualquer que você deixa sua filha e vem buscar mais tarde.  É necessário um esforço adicional de sua parte.

No Oriente a dança faz parte da vida cotidiana e funciona como uma grande brincadeira.  Dança-se em casa ouvindo música ou cantando, e não existe o sabor que a dança assumiu aqui no Ocidente, como arma de sedução.  Meninas muito jovens, pequeninas mesmo, as vezes, com 5 ou 6 anos, já arriscam seus passinhos e demonstram, de forma natural, uma consciência apurada e fresca da leitura musical.  Este é um presente que apenas aquelas que nascem dentro do meio recebem.  Nós ocidentais, temos que estudar muito, e por longos anos, para quem sabe um dia, sermos capazes de desenvolver o mesmo talento.

Sua filha é seu bem mais precioso, portanto cabe à você delimitar os parâmetros de educação e estabelecer limites para os modismos; evidentemente que não coibindo, mas participando ativamente e observando a curta distância, seu trilhar.

Jorge Sabongi - Julho 2002