| Você não vai ver boa dança do ventre na TV |
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"Desista
de encontrar dança do ventre de qualidade na TV! O sistema está travado: ou
você vê iniciantes, sem o menor preparo, ou apresentações torpes, fruto de
produções leigas e míopes no assunto, peritas na banalização e desejosas de
aumentar o Ibope, via exploração do corpo feminino. Existe um desrespeito
silencioso pela dança. Ninguém sabe o que acontece por trás das câmeras.
Apesar de o Brasil ser reconhecido lá fora, através da competência das boas
profissionais geradas aqui, a mídia ainda não aprendeu a respeitar essa arte.
O resultado é sempre o mesmo: sua frustração ao assistir algo que, em sua
fantasia, seria supostamente belo!"
Jorge Sabongi
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Você pode achar exagero, mas é real! O que você pensaria se soubesse que o
tratamento dado pelos programas de TV quando chamam para uma apresentação de
dança do ventre, carece de profissionalismo? O que se ouve das produções
desses programas, na última hora, um pouquinho antes de se entrar em cena, é
algo como:
"Estamos em cima da hora, temos pouco tempo. Não vai dar para fazer o número
inteiro, só temos dois ou três minutinhos. A música vai tocar bem baixinho
(Logo, adeus a emoção!). Vão colocar um rapaz para dançar também"
(Nesse caso, nós nem entramos, pois além de ser uma proposta de mau gosto
ainda esbarra num limite cultural: ISSO NÃO EXISTE! - HOMEM NÃO DANÇA A DANÇA
DO VENTRE - trata-se de uma descaracterização gravíssima da cultura árabe) - e ainda pedem: "preparem algo muito ágil mostrando tudo: véu,
espada, pandeiros, snujs e folclore - tudo em dois minutos, e, ah... eu falei
com meu diretor e, infelizmente, não vai dar para fazer aquela entrevista, não
temos mais tempo." E por aí vai... (isso acontece em 95% dos casos)
Então, fazem aquela "baboseira" sem identidade: "vamos chamar
... as meninas da dança do ventre..." (mas quem são essas meninas? De
onde elas vêm, o que fazem, o que sabem?).
Pior é quando solicitam a "dança muda", isto é, sem música. E se
espantam quando dizemos necessitar do som com qualidade para desempenhar nossa
parte!!! Querem que a dança aconteça sem som e, de acordo com a completa falta
de preparação dos técnicos de edição para esse tipo de dança, pensam que
podem editar sem a trilha original. Imagine com tantas batidas de quadril e
movimentos ondulatórios, se alguém nessa terra consegue colocar uma música
dentro do ritmo da bailarina, depois do que foi gravado originalmente.
Quando não há solução o que fazem? Ahhhhh...usam efeitos especiais, slow
motion, cortes de imagens e uma série de artifícios desnecessários se
tivessem apenas seguido o bom senso e gravado da forma correta.
Não posso deixar de mencionar a delicadeza da produção que, por vezes,
simplesmente coloca a música errada. Sendo ao vivo, tudo deve sair daquele
jeito mesmo e, assim, nosso trabalho é prejudicado, não por nossa falha, mas
pelo absoluto descaso que nos assalta sem aviso prévio.
Por essas e por outras, desde o início de 2001, fizemos um "Padrão de
Regras" a ser seguido, o qual nossa Assessoria de Imprensa deixa bem claro
quando somos convidados. Se esse padrão não for obedecido à risca, declinamos
do convite. Você não tem idéia de quantos programas já recusamos. Preferimos
aparecer menos ou não aparecer que nos sujeitar a uma exposição empobrecida.
Trata-se de respeito pelo trabalho desenvolvido por quem estudou tantos anos.
Isso é contundente, mas tem que ser dito.
As amostras de dança que
aparecem na TV não são o real. Não existe poesia nas tomadas de câmera, pois
a ênfase é dada ao erotismo, ignorando os aspectos mais enriquecedores da dança.
Não há sutileza na captação das imagens. Chega a ser grotesco.
A dança oriental é um sonho! Apesar de se matar esse encanto, por meio da
banalização, ao mostrar a dança sempre da mesma maneira, sob os mesmos ângulos,
fazendo-se as mesmas perguntas e, principalmente, quando chamam bailarinas
principiantes e totalmente inexperientes para se apresentar nos programas
televisivos. Em decorrência disso e do despreparo dos produtores, editores e
outras pessoas ligadas à TV, a dança vira uma atração comum e medíocre nos
programas de variedades.
A dança envolvente, elaborada por uma boa bailarina ou por um grupo de boas
bailarinas, coloca em segundo plano o que vem em primeiro na TV: o apelo sexual.
Mesmo em programas dirigidos à mulher, é patente a marca da exploração do
"corpo" para consumo visual em vez do "feminino". Aparições
nesse tipo de segmento servem apenas de chamariz às mulheres para aprender a
dança. Infelizmente, falta inteligência na forma de apresentar a atração e
de mostrar as imagens! As perguntas que as apresentadoras fazem caem sempre na
mesmice, não acrescentam nada às telespectadoras. A dança não tem brilho,
encanto, nem glamour. É só mais um número, antes do próximo merchandising de
algum produto para emagrecimento ou estética. Enfim, esses programas projetam
tudo de forma superficial e comercial para as mulheres e, a maioria delas,
assiste e aceita, passiva e isenta de questionamento, por pura falta de opção.
Tente recobrar se em alguma vez você viu na TV algo parecido, de longe, com uma
das apresentações das Noites no Harém! Não existe! Não vai ver, com
certeza! Primeiro pelo "ao vivo" e, segundo, porque há mais para se
mostrar do que imagina a vã filosofia das produções televisivas.
Haveria a necessidade de uma
preparação prévia da técnica, o olhar direcionado de outra forma, captando o
movimento certo, com a câmera certa. Não existe, infelizmente, esse
conhecimento. O que se mostra é "corpo"! Isso quando não colocam a
bailarina em posição delicada com perguntas grosseiras e capciosas.
Diversas de nossas bailarinas estão sendo reconhecidas lá fora. São
entrevistadas e mostradas em diversos países da Europa, cuja abordagem é
totalmente diferente. No Brasil, não existe e não é dado o devido respeito à
dança do ventre na TV, mesmo agora, na era pós-Clone, o tratamento para a
mulher, enquanto bailarina, ainda é sumário.
Na mídia impressa, creio eu, ainda falta criatividade para abordar tal tema. Os
artifícios são sempre os mesmos, ainda que o universo da dança seja infinito.
Por anos, as novelas perderam o cordão umbilical com o público. “O Clone”
mexeu num ponto certo: a emoção do público! Gloria Perez achou a receita de
Janete Clair. Num mesmo capítulo ríamos, ficávamos com raiva, apertava-nos o
coração, os olhos lacrimejavam, nossa curiosidade aflorava. Esse é o alvo, o
ponto-chave que traz o telespectador para frente das telas. Alie-se a isso, um
ambiente oriental, frases inovadoras, pensamentos de sabedoria árabe,
personagens caricatos e tem-se a receita da boa audiência.
E por falar nisso, será que "O Clone" deu o devido respeito à dança,
ou também a tratou como mercadoria banalizada global, mesmo dando a audiência
que deu (milhões de brasileiros assistiram à novela)? Será que só a aparição
relâmpago em alguns ângulos, a título de "pano de fundo", como
aconteceu com todas as danças na novela, justificam o "amém" de todo
o mercado de dança do ventre? Se você concorda e acha que, do ponto de vista
de "exposição da cultura", estava bom, é melhor nem continuarmos.
TV é imagem. O sensacionalismo e o erotismo é que vendem!
Desculpem-me, mas as maravilhas que vi na dança árabe até hoje, em nosso país,
por todos os dias durante 20 anos, são o suficiente para exigir mais!
Jorge Sabongi - Janeiro/2002
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