Depois da Pré-Seleção 


O que fazer, depois que eu passei...

Esta pergunta parece que faz parte dos pensamentos de todas aquelas que passaram pelo processo da Pré-Seleção, e tiveram seu nome publicado na lista das aprovadas.  O que fazer agora?  Qual meu próximo passo?  Como faço para dançar na casa?

Pensando em responder a estas e outras perguntas, que podem fazer parte das dúvidas de muita gente, resolvi escrever este texto, com a revisão do Jorge, ao final.  Esperando que ele possa esclarecer quais as possibilidades à sua espera, e qual a expectativa que você deve ter em relação ao resultado de sua aprovação.

foto: Amira - Jundiaí - SP

Antes de mais nada, é importante dizer que o fato de haver sido aprovada num primeiro momento, isso não lhe oferece garantias de nenhum tipo ou tampouco prêmios.  Como já foi dito anteriormente, criamos este evento para auxiliar em reconhecimento às pessoas que se identificaram com o estilo de dança da casa e trabalham nesta mesma linha.  Portanto, nosso julgamento é baseado num sistema de valores muito peculiar, desenvolvido ao longo dos anos, dentro da casa, através dos shows e da resposta positiva que tivemos do público, sempre presente as apresentações.

A dança árabe existe hoje no mundo todo como uma grande opção de lazer e prática de exercícios para todas as mulheres que por ela se interessem.  

Uma pequena parte das interessadas nesta dança, decidem se profissionalizar.  

Daquelas que optam por este caminho, ainda teremos uma divisão. Algumas professoras estarão restritas ao ensino da dança mais do que a demonstração da mesma, enquanto outras se dividem de forma equivalente entre ensinar e se apresentar

Existem três grupos distintos, no que se refere ao mercado de dança do ventre:

1) Aquelas que exercem as duas atividades, ensino e demonstração, fazendo deste trabalho, uma carreira permanente, ao longo dos anos;

2) Pessoas que circulam dentro do meio comercial da dança, assim como, dentro das escolas; 

3) Professoras, que se apresentam exclusivamente para suas alunas ou em eventos, envolvendo as mesmas, sem entrar em contato com o mercado comercial, propriamente dito. 

Existem diferenças fundamentais entre estas profissionais. Estas diferenças não são ditadas pelas próprias, mas sim por critérios que o próprio mercado da dança acaba delimitando.

Para explicar melhor este tópico, vou usar a casa de chá como um exemplo.  A casa e a escola estão conectadas de forma profunda e trabalham juntas tempo integral.  O fato de termos tradição no mercado, nos faz merecedores de respeito e diariamente recebemos solicitações para orçamentos. São shows que acontecem pelos mais variados motivos. Confraternizações empresariais, casamentos, aniversários, congressos e grandes feiras.  A primeira coisa que é solicitada pelo cliente, não importando seu gênero, tanto homens quanto mulheres, é simples: "Você tem certeza de que vou estar recebendo uma bailarina jovem e bonita para dançar no meu evento, não é?"

Esta é a preocupação primordial numa contratação.  Não cabe a mim discutir a justiça ou injustiça deste desejo.  Esta é a realidade que as bailarinas profissionais de dança do ventre enfrentam se estão tratando de shows comerciais.  A pessoa que pensa numa bailarina para sua festa ou confraternização, tem um modelo em mente.  O modelo não é necessariamente loira ou morena ou até mesmo ruiva, mas existem alguns detalhes essenciais a serem preenchidos pela bailarina em questão. 

Dentro da nossa experiência em contato com o público, podemos dizer que eles são os seguintes:

  • Idade até 30 anos;

  • Corpo bonito (o que não quer dizer magreza excessiva, mas não aceita de bom grado, peso extra);

  • Cabelos longos;

  • Beleza;

  • Classe;

  • Belas roupas;

  • Qualidade de dança;

Independente do que possamos sentir lendo estes requisitos, eles não foram criados pela Khan el Khalili, mas sim por um público consumidor da dança.  Cada carreira tem suas exigências.  No caso da bailarina que opta por se especializar em dança árabe, e pensa em estar trabalhando no setor de entretenimento que aceita esta dança, os critérios acima acabam fazendo parte da cartilha.

O que fazer agora?

Se você foi aprovada, significa que alcançou uma média de 8.0 ou acima disso, considerando as notas de todas as pessoas envolvidas na banca, no dia de sua apresentação.  Isso significa que, durante o tempo em que tem se dedicado a dança, o estilo que desenvolveu segue o estilo da casa, privilegiando principalmente, uma boa leitura musical e a elegância ao dançar.  Se você mora fora de São Paulo, com certeza este certificado lhe oferecerá maior credibilidade, pois muitas pessoas de fora, tem confiança em nossa seriedade na dança.  Este foi um dos motivos principais que nos motivou a criar a Pré-Seleção: oferecer de alguma forma, suporte as pessoas que estão trabalhando conosco, mesmo não estando na mesma cidade.

O fato de ter passado na Pré-Seleção, não lhe concede nenhum passaporte da alegria.  Não é motivo para que pare de estudar e desenvolver sua dança, principalmente encare isso como um simples "status" para a dança.  Bem se sabe, que a bailarina inativa como estudante, perde rapidamente boa parte de sua agilidade e percepção.  Portanto, a primeira coisa a fazer, é continuar seu processo de aprendizagem.

De todas as formas possíveis continue a aprender; para ensinar nunca podemos deixar de assimilar coisas novas.  Provavelmente você está ensinando, e suas alunas tem que ter confiança de que seu conhecimento está em constante reciclagem.

Como faço para dançar na casa?

 Ao contrário do que possa parecer, o fato de ter passado na Pré-Seleção, não lhe garante uma vaga na escala da casa.  É importante saber também, que para tanto, você não tem que ser minha aluna.

Em primeiro lugar, você teria que possuir todos os critérios mencionados acima neste texto, pois a casa é mais do que tudo, um ambiente comercial que depende exclusivamente do público para manter suas atividades.  Portanto, tudo o que fazemos, está conectado ao que captamos do público, que vem até a casa e deixa sua opinião.  Temos pesquisas escritas, e também as impressões deixadas verbalmente. Por e-mail, os clientes escrevem sobre os shows, e suas bailarinas preferidas. Todas estas fontes servem para nortear nossas escolhas também.  Escolhemos colocar na escala em maior número de dias, as bailarinas que agradam ao maior número de pessoas.  Isto tem funcionado muito bem.

Para que uma bailarina nova entre na escala, acabamos seguindo um padrão.  Ela deve estar dentro dos critérios para o setor comercial em primeiro lugar.  De preferência, estudando comprovadamente com alguém da casa ou de fora, também reconhecida pela casa.  Isso evita decepções, como por exemplo, chamar  para dançar alguém que estava muito bem alguns meses atrás, mas que está inativa agora.  Essa perda de qualidade pode acontecer por falta de estudo ou prática e não nos interessa investir em alguém que já parou de investir em si própria.  

Principalmente, porque o nível de dança e as exigências técnicas, ampliam-se a cada ano.  Uma bailarina que aprendeu há 5 anos por exemplo, se não reciclou e assimilou as novas informações disponíveis nos últimos anos, tornou-se estacionária.  É básica, para os padrões atuais.

Outro fator a ser considerado é que, ao chamar alguém nova para escala, estamos deixando em casa, uma bailarina que já agrada ao público da Khan el Khalili; e isso é um risco.  Cada vez mais, o Jorge é cuidadoso ao convidar novas bailarinas para escala.

Além de possuir as qualidades necessárias que podem ser observadas pelo público, existe uma outra qualidade que consideramos essencial.  O bom relacionamento com as outras bailarinas dentro do camarim e bastidores, principalmente o respeito, devido a todas as pessoas que trabalham conosco na Casa e fora dela.  É desgastante ter que conviver com pessoas que se irritam facilmente ou que tenham dificuldade em compartilhar espaços.  Tentamos ao máximo, criar um ambiente gostoso e produtivo para que tudo corra bem.  Quando trabalhamos num clima saudável tudo flui naturalmente e as horas passam voando.

Disciplina é outro fator importantíssimo.  Com os compromissos, horários, roupas e comportamento.

Quando chamamos para os programas de TV, acabamos considerando os fatores acima como fundamentais. Já aconteceu de levarmos um grupo para gravação, onde uma das participantes tinha dificuldades em seguir as orientações propostas para o grupo.  TV por si só, já é estressante o suficiente; não há necessidade de ter desconfortos extras, por escolhermos mal a equipe que vai gravar.  Então, quando vamos a um programa, são escolhidas aquelas que convivem bem em grupo e conseguem compreender que toda profissão deve respeitar hierarquia.  Existe sempre alguém que lidera o grupo, quando estou presente, esta pessoa sou eu.  Na minha ausência, seria a bailarina com mais tempo de casa, a qual recebe a incumbência de preparar a coreografia e orientar o grupo.  Não posso dizer que somos perfeitos, mas tentamos na medida do possível, estabelecer uma base confortável e estável, o que propicia melhor estrutura, para que a dança possa ser explorada de forma tranquila.

Como mencionei anteriormente a escala e organização da estrutura comercial da casa ficam sob responsabilidades do Jorge; cada um assume aquilo que domina facilmente.  

Algumas vezes, indico para a escala, alguém que considero muito talentosa e ele decide se vale a pena ou não, em função da receptividade do mercado.  Tomei esta posição exatamente para evitar o constrangimento de minhas alunas acreditarem que estar comigo,  por si só, garantiria sua entrada na casa.

Se você acredita que reúne os critérios necessários para dançar na casa, aguarde contato do Jorge, através do nosso marketing.  A cada ano, são convocadas novas bailarinas para estágio, não havendo época definida.  Ele é o produtor artístico da casa e o responsável pela organização do grupo como um todo.

Transparência é nosso lema dentro do mercado de dança.  Espero que este texto tenha esclarecido suas dúvidas.  

Os caminhos são tortuosos, mas os resultados sempre valerão a pena, se você decidir trilhar esta estrada.  É importante seriedade e equilíbrio, acima de tudo, tanto para se apresentar, como para ensinar profissionalmente.

Lulu Sabongi - Novembro/ 2003


Lulu