ESTRELISMO - "O VÍRUS"

O "estrelismo" é aquele momento que a bailarina acredita que:
"O que seria do Sol, se não tivesse à mim para iluminar ?"

O lado artístico negro:

Descrição

Dica

Quando e como surge ? Esta é uma fase delicada na carreira artística de toda bailarina.  Começa a apresentar os primeiros indícios quando os elogios começam a borbulhar.  Por alguns instantes ela acredita que já sabe tudo.  Dias depois, já sabe tudo ... e mais um pouquinho.   Acaba construindo uma imagem de si mesma que não condiz com a realidade do que sua personagem traduz ou produz para o público.  Começa uma fase de ilusão que se realimenta com os elogios recebidos de algumas pessoas ou amigos. 
Porque acontece isso ? Ocorre um desequilíbrio entre a realidade e a fantasia de toda mulher.  É um "momento de fama" super-valorizado e mau-curado.  Para ela, a fama vai estar sempre em ascendência.  Seus critérios de auto-avaliação a colocam em um pedestal que ela mesma criou.  Críticas passam a ser inaceitáveis.  O que, por um instante, parecia ser um pequeno deslumbre pode virar um parasita na personalidade, dali para o futuro.
Em algum momento é benigno ? De forma alguma.  Em sua fase aguda afasta a convivência pacífica e harmoniosa. Cria uma personalidade solitária e prepotente, afinal a bailarina está num mundo tão seu, de tamanho egocentrismo, que sua visão turva e acaba perdendo a noção do ridículo.  Destrata companheiras, subjuga alunas e super-valoriza seu passe.  É a ilusão em forma de artista, e isso jamais poderia ser benigno para qualquer pessoa.
Como saber se estou com o "vírus" do ego inflado? A forma como as pessoas vão tratar você irá se alterar radicalmente, pois elas não terão paciência de conviver com o estilo de pessoa que você vai se tornar.  Discussões serão constantes.  Você acabará faltando com o respeito com outras pessoas e até bailarinas mais experientes, e isso é um sinal que ele não está mais encubado, mas sim, "fazendo o serviço".
Como fica a convivência? Extremamente prejudicada.  Na cabeça da bailarina que tem esta visão míope acerca da realidade, ninguém tem razão em nada; ninguém sabe nada, todos estão errados o tempo todo. Ela acha que tem razão em tudo, denigre as companheiras, fala mal de todo mundo, e se mostra entendida em todos os assuntos.  Geralmente fala demais e sempre com muita propriedade nas rodas.  Isto torna a convivência insuportável.
A quem recorrer se eu estiver na fase do egocentrismo? É um caso em que somente a própria pessoa pode fazer uma auto-avaliação e tentar perceber como fazer para voltar ao ponto de referência.  Ninguém pode tomar uma atitude para ajudá-la, pois não vai fazer a menor diferença.  Seu ego está por demais inflado.  Não consegue olhar para dentro de si e traçar algum perfil de mudança.
Quanto tempo costuma durar esta fase ? Alguns meses chega a ser até normal, pois é a média que temos presenciado ao longo das décadas.  Quando prolonga-se por um ano ou mais, a reversão acaba ficando difícil.  Com o decorrer da passagem dos anos, se permanecer, será necessário ajuda de um psicólogo, pois existem pessoas que não sabem e não conseguem lidar com a fama, o sucesso ou a perda de ambos.  Desta forma, ela própria e sozinha dificilmente encontrará forças para perceber que vive uma ilusão.  Na minha opinião, existem casos irreversíveis.
O que fazer para mudar esse panorama? Saber que o momento existe e que ele pode estar perto de você, já é um grande avanço.  É importante tentar afastá-lo e criar um isolamento para não deixá-lo se tornar crônico.  Procure controlar seus ímpetos; evite comentários negativos (seja sobre alguém, as atitudes ou locais); não trate as pessoas com desdém, ou tente denegrir quem quer que seja, se achando o máximo, tentando se auto-promover.  Avalie sempre com equilíbrio todas as situações antes de tomar qualquer decisão.  
Toda bailarina passa por isso? Sim, todas, sem exceção.  E o mais engraçado é que quanto mais avança esse foco exagerado no ego, também é proporcional o desconhecimento profissional, afinal acaba se perdendo tanto tempo para administrar este desconforto que  já não sobra tempo para estudar ou perceber que se está parada no tempo.  A bailarina acaba ficando, de tal forma, tomada pela sua pseudo-grandiosidade, que acaba esquecendo seus estudos e deturpando seus objetivos.  Afinal, chega a conclusão que não faz sentido estudar mais, pois já sabe absolutamente tudo, mesmo !
Pode afetar outras áreas de minha vida? Certamente.  Esta opção não só corrói a carreira e a personalidade  da bailarina, como também começa a afetar sua vida pessoal em todas as áreas.  As pessoas acabam não fazendo sentido para ela.  As atitudes de todos, soam ridículas ou fora de moda.  Somente o que ela faz ou verbaliza é o correto.  Isso na vida real, traduz uma pessoa de difícil convivência, egocêntrica e infelizmente, vazia.
Existe algum antídoto? Lembrar que existe uma palavra que deve ser cultivada todos os dias: chama-se humildade.  Saber que, independente do patamar mais alto você possa subir ou atingir em termos de sucesso, nunca terá o direito de se achar o máximo.   Sempre é hora para aprender, e que, mesmo uma existência completa, não será suficiente para aprender a metade do que existe na dança árabe.
O que vem à seguir à esta fase? Vem o momento de cair na realidade.  Algumas superam, outras não.  As que conseguem superar, iniciam uma nova fase de aperfeiçoamento e aprimoramento, pois já não se contentam com o pouco que sabem ou aprenderam da dança.  Inicia-se uma injeção de novos ânimos.  Correm atrás de novidades, pesquisam e querem revitalizar seus conhecimentos o quanto antes.  

As que não conseguem superar sua fase exacerbada, tendem à cultivar, cada vez mais, em sua própria memória, a sensação de que são as "ilustres artistas magnânimas que o mundo árabe jamais descobriu", ou que "Hollywood não sabe o que está perdendo".  Terão a necessidade de estar sempre inflando seu ego, para acreditar que o que pensam, é verdade.  Ao se cansar desta roda-viva, vem os momentos de depressão.  

 

 

 

"Lembre-se: estrelismo é uma fase das pessoas que ainda não
sabem conviver com o sucesso, ou que pensam que já o tem;
não deixe que se prolongue, à ponto de corromper sua personalidade!"

Jorge Sabongi

Jorge Sabongi - Nov/2000
Revisado em Setembro/2008

 

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