EGIPTOLOGIA


A Máscara de Tut-Ankh-Amon

A descoberta da tumba de Tut-Ankh-Amon em 1922 foi o acontecimento mais marcante da história da egiptologia.

Tut-Ankh-Amon, o faraó menino, assumiu o poder do Egito entre 9 e 12 anos de idade.  Permaneceu no trono por pouco tempo, pois faleceu por volta dos 19 anos de idade.  Não ficou famoso por construir grandes monumentos como o faraó Ramsés II, mas pelo imenso tesouro contido em seu túmulo.

O objeto mais famoso encontrado na tumba é, certamente, a máscara funerária que cobria a cabeça, os ombros e parte do peito e das costas da múmia.  Esta máscara é a obra de arte mais fotografada em todo o mundo.  Pesando 11 kg e feita em ouro maciço e pedras multicoloridas, a máscara oferece um espetáculo de inenarrável beleza.

O jovem rei usa um capuz chamado "nemes" com listras feitas de pasta de vidro azul.  A cabeça de abutre na testa do rei simboliza a deusa Nekhbet, padroeira do Alto Egito (sul do Egito).  A serpente representa Wadjet, senhora do Baixo Egito (norte do Egito) e aquela que cospe fogo contra os inimigos do faraó.

A parte branca dos olhos do faraó é de quartzo, enquanto que a parte negra é feita de obsidiana.  Pigmento vermelho foi usado nos cantos dos olhos dando-lhes mais vida.  As sobrancelhas e os contornos dos olhos são feitas de lápis-lazuli.  Os lóbulos das orelhas são perfurados para os brincos.  A largura impressionante destes furos se deve ao uso de pesados brincos de ouro, muito na moda na época de Tut-Ankh-Amon.

No queixo do faraó foi colocada a barba falsa de Osíris, feita num trabalho de cloisonné em ouro e pasta de vidro.  O peito é coberto pelo colar "wsekh" de 12 voltas com incrustações de lápis-lazuli, turquesa, quartzo e pasta de vidro.  O colar termina em duas cabeças de falcão, feitas em ouro, obsidiana e vidro, posicionadas uma em cada ombro do faraó.  Esta obra prima da ourivesaria egípcia não é um simples retrato de Tut-Ankh-Amon.  Trata-se de um objeto mágico fabricado exclusivamente para os rituais de sepultamento.

No Antigo Egito, a mumificação e os rituais funerários tinham o objetivo não só de preservar o corpo e ajudar a alma no Além, mas também o de criar uma semelhança entre o falecido e o deus Osíris. 

Osíris era o deus que morreu e renasceu do Além tornando-se rei e juiz dos mortos.  Quando um egípcio morria, era identificado com Osíris para que, como ele, pudesse renascer no Outro Mundo.  O deus Osíris era representado como um homem mumificado segurando um cajado e um mangual, e usando uma barba falsa com a ponta levemente curvada para frente.

Tut-Ankh-Amon foi mumificado e enfaixado.  Um cajado e um mangual foram colocados em mãos artificiais, feitas em ouro, colocadas sobre seu peito por cima das bandagens.  Sobre sua cabeça e ombros, foi colocada a máscara "adornada" com símbolos de soberania e a barba falsa  de Osíris.  O rei também foi identificado com Rá, o deus sol, cuja pele era feita de ouro e os cabelos de lápis-lazuli.  O rosto, o pescoço e as mãos, feitos em ouro, emergindo da resina negra derramada sobre as bandagens da múmia, criavam a ilusão de que o resto do corpo era feito do mesmo metal.  As sobrancelhas e o contorno dos olhos em lápis-lazuli reforçam a associação com o deus Rá.

Rá e Osíris formavam um ciclo de renovação contínua: morte e renascimento.

A máscara destinava-se também a proteger a cabeça do faraó.  A parte posterior da mascara que cobria parte das costas, contem inscrições hieroglíficas.  Trata-se do capítulo 151b do Livro dos Mortos, destinado a proteger a cabeça e os membros do falecido, além de punir seus inimigos.

No texto, partes do corpo do morto são colocados sob a tutela de diferentes divindades.  Diz o texto: "Teu olho direito é a Barca da Noite, teu olho esquerdo é a Barca do Dia.  Tuas sobrancelhas são o Grande Nove (de Heliópolis), tua testa é (a de) Anúbis, tua nuca é (a de) Hórus, tuas mechas de cabelo são (as de) Ptah-Seker ..."

Esta máscara feita em ouro batido revela o alto grau de refinamento atingido pelos artistas do final da XVIII Dinastia (cerca de 1350 a.C.).  Na verdade, a máscara não é um retrato fiel do faraó.  Como acontece com a maioria das representações de Tut-Ankh-Amon, as feições (formato do rosto e estrutura craniana) são aproximadas.  Os olhos, a forma fina do nariz, os lábios carnudos e o queixo, estão todos de acordo com as características visíveis de sua múmia, e toda a expressão é inconfundivelmente juvenil.

Os artistas conseguiram dar expressão, vida e até sentimento a esta soberba obra de arte.  Cada ângulo do rosto revela um estado de espírito - altivez, alegria, paz, indignação e contemplação.

Os olhos vivos parecem enxergar dentro de nossas almas, motivo pelo qual muitas pessoas sentem-se atraídas ou incomodadas por este jovem rei.  Mergulhado na morte por uma mão criminosa (foi assassinado), Tut-Ankh-Amon hoje contempla serenamente a sua tão sonhada eternidade.

Para um egípcio, era de suma importância que seu nome fosse pronunciado depois de sua morte.  O mundo inteiro pronuncia e escreve o nome de Tut-Ankh-Amon infinitamente.

Tut-Ankh-Amon faleceu entre janeiro e fevereiro de 1323 a.C., seu corpo permanece na tumba, porém seu tesouro e sua máscara estão expostos no piso superior do Museu Egípcio do Cairo.  De lá o rei parece reinar ainda sobre o Egito.  Seus lindos olhos incrustados encantam uma multidão de turistas vindos das partes mais distantes do mundo.  Sua imagem tornou-se o principal souvenir dos lojistas do Egito.  Em miniaturas, pingentes, estampas em camisetas, sacolas e papiros, o nome e a imagem do faraó são vistos por toda parte.

Mas nenhuma destas representações faz jus a majestade eterna do rei menino.

Veja também neste site: O Tesouro de Tut-Ankh-Amon (página de Curiosidades 3 - no rodapé).

 

Wallace Gomes
(egiptólogo e artísta plástico)
Set/2008

 

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