ENTREVISTA COM JORGE SABONGI

Entrevista concedida à Renê Dalton - Brasília/DF
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29 de Abril de 2003

1) Jorge, quando e como surgiu a idéia de abrir uma Casa de Chá Egípcia?

A idéia da Khan el Khalili surgiu por volta de 1980.  Após 7 anos de trabalho em duas empresas, eu já não me contentava com os resultados.  Sempre fui uma pessoa que pensava 10 anos a frente, e me assustava a idéia do que me restaria no futuro, se não criasse um negócio próprio.  Aprendi cedo com meu pai (o qual tinha um talento raro para organização), como desenvolver e gerir uma empresa.  Ele dava cursos de técnica comercial, os quais eu assistia desde meus 8 anos de idade, quando aprendi também a datilografia.  Isso foi preponderante para a organização de tudo.

Cismei que queria então abrir um negócio próprio.  Acordava e dormia pensando nisso.  Por volta de 1980, num repente de fúria (já viu aquele filme, "Um Dia de Fúria"?), cheguei em casa desiludido com meu emprego e resolvi que chegara a hora de voar.  A idéia estava chegando, eu sentia no ar,... era necessário estar atento para a hora que ela surgisse.  E aconteceu durante um banho, acredite se quiser!  "Vou abrir uma Casa de Chá!".  Fechei o chuveiro e fui telefonar para minha ex-noiva, na época.  Ela me achou um pouco louco.  Em seguida subi para rabiscar alguns papéis e fazer o planejamento do que seria hoje a Khan el Khalili.

O fato de ter descendência árabe favoreceu na escolha do tema, alguns dias depois.  Desde criança aprendia e respeitava os conceitos e princípios que as famílias árabes normalmente cultivam desde cedo para seus filhos.  É diferente... e assim começou a bolinha de neve.

2) Como surgiu a idéia de colocar dança do ventre?

Um ano depois de aberta a Casa, resolvemos fazer uma festa de aniversário de um ano.  Ao visitar uma família de amigos egípcios, estes sugeriram que fizéssemos uma noite egípcia.  Contratamos uma cantora árabe e telefonamos para um restaurante também árabe que tínhamos ouvido falar, o qual fazia shows de dança do ventre.  Trouxemos três bailarinas e também chamamos um carnavalesco para desfilar com sua fantasia de Marco Antonio e Cleópatra.  Foi um sucesso!  Ninguém jamais tinha visto ou ouvido falar disso, exceto aqueles que iam aos dois restaurantes árabes na época: o Porta Aberta e o Bier Maza.  Começava uma nova etapa na história da Khan el Khalili e também da dança do ventre para o Brasil.

3) Quais foram suas maiores dificuldades no começo em relação as bailarinas?

Não existiam bailarinas.  Acredito que em 1987 é que passamos a ter um grupo que podia ser qualificado de "bailarinas".  Ali começávamos a escrever a nossa história com a arte.  A superficialidade de conhecimentos em relação à dança árabe aconteceu até por volta de 1990.  Até esta data, as bailarinas estudavam e trocavam idéias entre si.  Não haviam aulas.  Daí por diante, Lulu já implementava um "estudo contínuo" para si mesma, que acabava criando uma distância muito grande das danças que se viam no Brasil.  Já estávamos casados nesta época.  E acontecia que, quando Lulu estava na escala para dançar, a casa lotava, quando ela descansava, diminuía absurdamente o movimento.  Resultado: ela tinha que dançar todos os dias.  E assim foi, durante quase 10 anos.

4) Quais foram suas maiores dificuldades em relação a Casa de Chá?

Existem diversos fatores que influem no sucesso ou não de um empreendimento como este: a sazonalidade é um deles.  Outro fator importante é que não existia nada igual, era uma inovação total, portanto todos que vinham, ou eram indicados por alguém, ou tinham curiosidade e ímpeto suficientes para conhecer.  Fora isso, todos os planos econômicos que fracassaram em nosso país nos últimos 21 anos, também causaram uma porção de dores de cabeça.

5) Em que momento da história da Khan, você teve certeza de que estava no caminho certo?

Desde o momento que tive a idéia, em 1980.  Nunca duvidei que daria certo.  Era o único no país inteiro que acreditava com tanta veemência.  Muitos riram da idéia.  Fui chamado de louco, lunático e tudo o que você pode imaginar que indique algum distúrbio mental.  Desde a adolescência, sempre me acostumei a acreditar em tudo que fazia.  Era o mais otimista da turma... criava um negócio e já colocava para andar.  Na verdade sempre fui um visionário... acho que é uma característica do signo de Peixes.  Sonhei, sonhei... e aqui estou...

6) Qual a frequência e o público que visita a Khan el Khalili?

Temos público de todas as idades.  Não temos um segmento específico.  Varia de 1000 a 1500 pessoas por semana.  Em épocas, que as pessoas tem poder aquisitivo para satisfazer suas vontades, esse número sobe.  Digamos que, desde o Plano Collor, as pessoas tem estado achatadas financeiramente.  Mas nós temos paciência... já esperamos por 13 anos (...e sempre com esperanças!), que esse nosso país tome o rumo certo.  Muitos gostariam de vir uma vez por semana ou a cada 15 dias à Khan el Khalili, pois é um lugar onde pode-se sonhar.  A economia atual ainda não permite isso.  Mas vai chegar este momento.

7) Nesses 20 anos de existência da Khan, cite uma situação que marcou você profundamente.

Houveram centenas. É difícil falar de um único caso.  Todos os dias, ainda aprendemos muito.  Trata-se de um negócio dinâmico que nunca para de ter novidades.  Um dos momentos de maior emoção foi a entrega dos abays às bailarinas, na Grande Festa dos 15 Anos da Khan el Khalili (1997).  Nunca tivemos a oportunidade de ver o grupo todo reunido, pois sempre foram muitas.  Naquela noite... todas estavam juntas no palco do Sírio, em São Paulo.  Foi muito bom ver todo mundo junto.  Todos que desempenham suas funções lá dentro, sabem que temos uma união que não existe em lugar nenhum.  Tudo fruto de uma disciplina que vem desde o início da Casa.  Esse é um fator determinante para o respeito individual e a ciência de sua importância na equipe.  Muitas vezes, na função de diretor artístico, não pude ser a pessoa simpática como todas gostariam, mas no fundo, elas sabem que a forma como dirijo todo o empreendimento é uma fonte para que todos possam beber água potável, por muitos anos.  Ao final, todos se beneficiam.  Impossível hoje, quem não conheça o nível das bailarinas da Khan el Khalili.  Claro que tem a oposição.  Mas oposição existe, até o dia em que vira "situação"!

Temos consciência que somos uma vidraça bem fina, onde muitos gostam de jogar pedras.  Aqui convivem bailarinas de muitas gerações.  Umas com carga de experiência de décadas, outras com até uma década, e outras ainda, cruzando fronteiras.  Quando se assiste num mesmo dia, gerações diferentes dançando, a diferença é patente, mas mesmo assim, continuamos formando, investindo e acreditando em cada uma delas.  Procuramos ter sempre as melhores bailarinas do mercado e conhecemos quando vemos um grande futuro talento, mesmo estando longe.  Se sabemos da existência dela, vamos buscar! 

Tem aquelas que dizem... "Noooossa,... a Casa de Chá está com bailarinas que não são tudo isso, onde já se viu? Até eu danço melhor que elas".  Espere então alguns meses para vê-las novamente em cena: você nem reconhece!   Esse é um filme que se repete há anos!  A Khan el Khalili é a melhor "pós-graduação de dança do ventre", do mundo, sem falsa modéstia.  Todas acabam nivelando-se por cima.  Adianta você aprender ou dançar com quem não sabe nada ou que só sabe o básico?  Claro que não!  Por outro lado, é impossível você não aprender bem, onde tem tanta gente boa.  Portanto, o que você vê "ao vivo" nos shows, é fruto de um investimento de todas elas, e nosso (meu e de Lulu!).

8) Qual foi o efeito causado da "Novela o Clone" na Khan?

Eu já estudava os efeitos do mercado bem antes da novela, portanto não foi surpresa o que aconteceu antes e depois.  O nosso movimento, em termos de público, sempre existiu, bem antes da novela.  Aumentou 30% na época e da mesma forma, foi embora esses 30%, quando a novela acabou.  Mas consolidou o trabalho que fazíamos e nos garantiu um arranque para os próximos 10 anos.  O que ficou do Clone para nós foi a propaganda institucional.  Fizemos muitos shows e mostramos os talentos da KK para o Brasil.  Não participamos da novela, exceto por alguns "flashes" de imagem de algumas de nossas bailarinas em alguns raros capítulos.  Mas foi o suficiente.  Hoje em dia, a novela nem existe mais, mas as pessoas sabem bem, onde encontrar dança de qualidade quando pensam no assunto e na cultura árabe.  Todo mundo se assustou com a queda e os rumos com a dança do ventre depois da novela.  Aqui fica minha sugestão, que levei anos para aprender: "na hora que as coisas estão boas, é que é o momento fundamental para investir; seu trabalho fica consolidado e reconhecido por anos".

9) Fale um pouco da diferença da sua visão pessoal da Dança do Ventre e da visão empresarial.

Isso daria um livro.  Apesar de termos atualmente muitos talentos em nosso país, lamento que tantas bailarinas nivelem seus estudos por baixo, abrindo mão da qualidade no ensino e no nível de aprendizado.  A grande maioria das bailarinas que se dizem "professoras", não passariam hoje no exame da banca examinadora da Khan el Khalili, pois seu conhecimento é básico, seus movimentos são mal articulados e sua presença de palco é inócua.  Enfim, em posse disso, levantam o nariz e se põem a ensinar e a dançar; desconhecem o respeito, a cultura e a ética profissional.  Todas deveriam ter em mente que "dança oriental é uma jornada para a vida toda", e não um aprendizado de meses.  Se não houver compromisso e dedicação, o encanto não acontece.  Cresce uma ilusão de que se é estrela, quando na realidade não é!  E essa imaturidade toda é passada para as novas gerações, pois alunas cultuam suas professoras.  Muitas nem questionam seus conhecimentos.  Já viu aquela brincadeira de telefone sem fio que a gente faz quando é criança?  Quando chega na quinta pessoa (geração), deturpou tudo.  Assim é com as gerações de bailarinas.  Criar um exército de bailarinas conscientes é um trabalho para os próximos 20 anos, talvez eu nem esteja aqui para ver!  Muitas delas não sabem nem para onde vão ou onde querem chegar.  Como se manter ou quais os passos para quando o sucesso chegar.  E o principal, não tem um mapa pessoal delimitando quais são ou serão seus espaços.

Chegamos então ao segundo ponto, onde restaurantes sem estrutura artística e sem paixão pela dança, colocam bailarinas para atrair público.  Não basta isso!  O público não vem somente por causa das bailarinas.  É "também" por causa delas.  Não adianta bailarinas boas dançando em espeluncas, como também não adiantam restaurantes bons com bailarinas torpes, empertigadas e apenas desesperadas por cachê.  Dá para perceber na expressão facial delas, durante o show, quando é só isso que interessa. 

Em minha opinião existem três tipos de bailarinas: as problemáticas, as inexpressivas e as equilibradas.  Cada uma sabe a dor e a delícia de ser o que é!  Num empreendimento de sucesso não podem haver os dois primeiros casos (o primeiro funciona como elemento desagregador, o segundo, afugenta o público).  Em pouco tempo acabam não existindo mais shows, problemas de relacionamento e fatalmente os locais fecham suas portas por má administração ou suspendem os shows alguns meses depois.  E o ciclo recomeça quando surgir um novo local para dançar.

Ademais, elas próprias, acabam criando concorrências desnecessárias entre si (entenda-se o tradicional "puxar o tapete"), mais parecendo uma briga de foices, onde trocam farpas e o veneno é destilado entre todas.  Tudo isso, para ver quem se mantém num lugar que, se formos analisar, nem oferece o mínimo de base, respeito e dignidade por seu talento (quando existe o talento!).  Ao longo das décadas vimos dezenas de restaurantes e casas de chá encerrarem suas atividades por desconhecerem estes pontos importantes.  Fora isso, temos o fator economia, o qual rege os bolsos dos consumidores.  Se, não tem consumidores, não tem dança, nem tem aulas, não tem vendas e acabou o show.  É preciso ter isso em mente, antes de brigarem tanto entre si. 

Esta é uma realidade nua e crua.  Mas é a pura verdade.  Falo isso, porque não tenho interesse nenhum em cultuar ou ensinar algo que prejudicaria alguém, mesmo porque, atualmente sou uma das poucas pessoas neste mercado, que não precisa provar nada para ninguém, ou agradar quem não mereça, exclusivamente por expectativa de retorno financeiro.  O tempo já provou o suficiente e me concedeu a devida credibilidade.  Não tenho inimigos, e tudo o que faço é lícito e cristalino.  Não imito, nem copio... apenas crio.  Assim foi, desde 1980 quando concebi a Khan el Khalili, hoje um filho maior de 21 anos.  Mas exijo qualidade, acima de tudo!  Nunca consegui agradar à todos, nem Cristo conseguiu.  Acho que todos merecem uma segunda chance, mas não uma terceira.

Uma vez, durante um curso, um professor falou: "se você conhece 40 donos de estabelecimentos, onde 39 deles fecharam as portas, qual a opinião que mais importa para você: a dos 39 que fecharam as portas ou a do único que está funcionando?" 

Muitos me perguntam "porque vocês não começam logo com as franquias".  E eu respondo: "Adianta abrir as franquias num mercado estagnado como está o Brasil nos últimos anos?  Eu não vendo engodos.  Sou um empresário que vende sonhos e se for para vender pesadelos, prefiro esperar a noite seguinte.  Vai chegar a hora em que o sonho torna-se realidade!  É preciso paciência, se você quer algo que dê certo!  Aguarde!"

10) Qual conselho que você daria a todas as bailarinas de Dança do Ventre?

Em se tratando de dança do ventre, existe uma briga e uma concorrência desmesurada em todos os lugares por onde ouço sobre a dança; acontecem discussões infundadas e que não levam a lugar nenhum, num mercado que ainda é ascendente.  Esta briga deveria ser por QUALIDADE, antes de mais nada.  Rejeitar o que não presta, o submundo da dança, e procurarem se nivelar por cima: já existe luz e não é mais necessário lamparinas neste Brasil, quando se fala de dança do ventre.  Como pode alguém estudar ou tentar aprender com outra pessoa que nem admira?  Mude de aprendizado, se você perceber que o dinheiro é mais importante que seu progresso e desempenho.  Muita gente querendo inovar exageradamente, descaracterizando a essência.  Devaneios e deslumbramentos devem ser contidos e extintos.  Tem muita bailarina deslumbrada para o pouco que sabe.  É necessário primeiramente cultivar o respeito hierárquico, a humildade e principalmente o equilíbrio.  Personalidades difíceis e temperamentais não sobrevivem.  Podem durar um tempo, mas desaparecem, sem deixar saudades.

Todas as vezes que algum lugar propõe iniciar com dança, vira um vespeiro.  Disputas acirradas, fogueira de vaidades e imperam os clubinhos e bairrismos.  No fim, todos acabam prejudicados.  Primeiro, é preciso fazer a idéia dar certo; a idéia inicial... depois é que se faz os ajustes.  Os lugares não tem experiência no assunto, não sabem como lidar com isso (temperamentos de stars que não são stars!), e em pouco tempo, se desiludem e desistem.  Fim dos shows.

O mais importante de tudo, é saber que: não é o que você recebe como cachê num restaurante, o qual você trabalha, que vai lhe garantir uma carreira de sucesso.  É o seu talento empresarial de criar subprodutos que lhe garantam poder viver da dança, que vão lhe oferecer isso, ao longo do tempo.  Traduza isso como "um longo período de investimentos".  O restaurante é apenas uma "vitrine", um trampolim (importantíssimo para quem quer alçar vôo...), que lhe garante diversos bons shows e contatos fora, e uma forma de você poder tornar-se conhecida. 

Ouço muito falar de bailarinas que, começam a dançar em restaurantes, e assim que se estabilizam, só pensam no cachê, que precisam aumentar, que ganham pouco, que assim não dá, achando que seus rendimentos não são suficientes, etc... sem perceber que estão matando a "galinha dos ovos de ouro".  Isso é miopia comercial.  Coloque uma coisa na cabeça: se você não tiver "vitrine", você será esquecida!  O mercado é dinâmico e muda todos os dias.  Isso significa que, "o que você é hoje, pode não ser mais amanhã".  Em pouco tempo, você estará vendendo o almoço para pagar o jantar.  Aí acaba o encanto... a dança vira comércio para você, uma mercadoria financeira, sem mágica, sem arte, até chegar no seu desespero de causa.  Se você tem um lugar para dançar com frequência, faça de tudo para que continue dando certo.  Dê sempre o melhor de si.  Não se prenda a coisas pequenas, se quiser ser grande um dia.  Pense nos seus próximos 10 anos.  Este é seu ponto de partida.  E este é meu recado para todas as bailarinas do Brasil.

No mais, como fazer para viver da dança, é um loooongo aprendizado.  Quem sabe um dia, eu escreva um livro sobre isso!

Jorge Sabongi

www.khanelkhalili.com.br


Jorge Sabongi