Sensualidade e Erotismo
(as duas faces em questão)
Um artigo escrito e compartilhado por Jorge & Lulu Sabongi

Sensualidade bem trabalhada ou apelo erótico explícito?

Antes de mais nada, vale a pena diferenciar os dois termos. O erotismo está relacionado com aquilo que é explícito, desenvolvido e preciso, com intenção meramente exibicionista (falando de uma forma bem delicada).  Por outro lado, a sensualidade não possui o condão de mostrar claramente, posto que é implícita, apenas deixa no ar um toque maroto, com uma certa malícia, dando ao expectador somente um vislumbre. Grosso modo: o erotismo apela para os sentidos conscientes, não permite margem a possíveis dúvidas; ao passo que a sensualidade encobre a vulgaridade disseminada no erotismo por velar e desvelar, tornando-se um contínuo por vir.

Na vida escolhemos com qual postura encararemos as coisas, se desenvolveremos nossa sensibilidade, procurando pelo delicado, ou se preferimos tudo em sua forma crua e sem meandros. Assim também é a dança. Claro que, uma arte talhada para o feminino como esta, será sempre visitada pelas qualidades inerentes às mulheres. Sensualidade, charme, encantamento, tudo faz parte de um pacote intrincado que mistura arte e vida.

O erótico é um adjetivo oriundo do amor, da sensualidade. É um aspecto do ser humano que vai muito além da forma explícita que algumas pessoas imprimem à dança. A sensualidade convida à fantasia, à expressão individual de cada um, e parece fazer parte dos talentos naturais das mulheres. O que fazer se elas nascem com este poder demasiado sutil e eficiente? Será que nascem assim ou são suavemente empurradas nesta direção desde a mais tenra idade? Afinal meninas aprendem condutas de comportamento (como se portar, falar, sentar-se, etc.) muito antes que os meninos. Aprendem também as formas de atração e repulsa, e enviam sinais quando necessitam dizer algo mais, sem sequer mover os lábios.

As meninas e mulheres que se interessam pela dança acabam por definir como seu público vai sentir a apresentação. Tudo está conectado. Se uma bailarina se comporta de forma vulgar, seja em seus movimentos ou por seu comportamento antes e depois do show, ela acaba delimitando a opção de seu público.

O velado é sempre mais interessante e sedutor do que a nudez total. Um presente carrega seu mistério enquanto sua embalagem não for violada. Ao abri-lo, imediatamente a aura que nos atraía se desfaz e a magia, que antes parecia palpável, desaparece.

Ao assistir uma bailarina a mesma conexão se estabelece. Dependendo da elegância de quem se apresenta, do refinamento de seus movimentos e de sua entrega artística, os olhos presentes a sentirão.

Onde delimitar a fronteira entre a sensualidade e a sexualidade explícita? Como determinar o grau de qualidade de uma apresentação?

Preste atenção a seus sentidos, eles lhe indicarão o caminho mais adequado. Se a dança que assiste lhe convida a sonhar, se, por alguns instantes, esquece-se de onde está ou por que veio, podemos dizer que foi capturado pelas malhas de um momento sublime, nas quais a sensualidade natural do mundo das mulheres lhe pregou uma peça. Nesse roteiro entram o mistério, a sedução, a delicadeza e, acima de tudo, a aquiescência das outras mulheres presentes, que não se sentem agredidas pela bailarina em questão.

A bailarina que faz do explícito sua arma de frente pode até ter sucesso temporário, mas não recebe do público feminino o mesmo respaldo daquela que elegantemente faz do implícito e sutil uma parte essencial de seu estilo.

Vale a pena lembrar que existe também o outro lado da moeda. Assim como aquela que dança escolhe o modo com o qual direcionará sua performance, o público também tem liberdade de se manifestar internamente de forma livre. Portanto, alguém que erotize tudo o que está a sua volta, naturalmente fará o mesmo ao assistir a dança ou a um filme apelativo. A inclinação para o sutil ou para o superficial é arbitraria, cada um escolhe a sua.

Numa sociedade em que a mídia televisiva e impressa usa o corpo feminino para vender os mais variados produtos, estimulando, além do normal, a sexualidade de seu público, há uma tendência natural por parte da ala masculina em sexualizar todo o conteúdo disponível. No fundo a idéia das campanhas é obrigar, de forma subliminar, o interesse por um produto. Dentro das imagens e das correlações oferecidas pela música, cores e apelos, eles se sentem impelidos a consumir aquele produto. Imaginem isso em grande escala. Quantos não são influenciados de forma grandiosa por essa técnica de marketing em massa?

Assim, para alguém acostumado a ser alvo desse tipo de propaganda, aceitando de bom grado seus efeitos, o estímulo da visão de uma bailarina de dança do ventre vai direto ao ponto. No lugar de visualizar aquela mulher em toda a amplitude de sua atuação, vê somente um corpo ondulante, deixando as fantasias correrem soltas.

Homens não são animais no sentido pejorativo da palavra, apesar de muitos adorarem agir pelo instinto. O processo seletivo essencialmente mental que o homem possui, o leão não tem. No mundo animal as ações, em sua maioria, são ditadas por ordens naturais baseadas no instinto de sobrevivência e manutenção da espécie. Podemos ampliar nossa capacidade de absorção, escolher entre o belo e o grotesco, decidir o que queremos.

O ambiente também faz diferença. Dependendo de onde acontece a apresentação, a bailarina tem a sua disposição um ambiente propício para a boa absorção do que ela tem a mostrar. Sempre sugerimos critério na escolha do lugar. Um restaurante árabe, com ambientação típica e iluminação especial, sempre será muito melhor que uma casa de esfiha ou mesmo danceteria da moda, pois estas usarão a dança apenas como chamariz, não se ocupando em proporcionar nenhum cuidado especial.

Uma bela apresentação exige refinamento e boa qualidade técnica, além da sensibilidade necessária para tocar o coração e as mentes de quem nos assiste.

Uma dança apelativa e excessivamente provocante aguça os canais mais superficiais, trazendo o explícito e o grosseiro à tona. Isso pode estimular o pior tipo de propaganda para esta arte, que, antes de mais nada, deve ser tratada com respeito.

A boa dança está nos olhos de quem vê, refletindo a postura de quem a executa.

Pensemos nela com um vinho de boa qualidade. Diversas facetas são analisadas pelos conhecedores: não há vinho igual ao outro. Diferem em sabor, por conta da uva escolhida, em cor, limpidez, bouquet, corpo, acidez, adstringência, sem falar no gosto que fica em sua boca depois que a bebida se tornou parte de sua história.

Uma bailarina nunca é igual a outra, e nela também vislumbraremos tantas ou mais nuances que nos vinhos. A essas diferenças é que brindamos, por conferirem àquela que se apresenta uma qualidade singular. Ela dança um poema, dando forma a cada verso, a cada estrofe.

O vinho não foi feito para se embriagar e perder a viagem sensorial que proporciona. Assim também é a dança: não precisamos dela para despertar nossos instintos, mas sim nossa sensibilidade.

Cada um agora escolhe seu caminho... Abra seus olhos e receba apenas o melhor, não confunda qualquer coisa com arte, na arte algo mais é dito. Procure a história de cada vinho por trás da dança de cada mulher.

Jorge & Lulu Sabongi - Setembro/2004


revisão editorial:   Andrea Loli  (Brasília - DF)