| 25 ANOS DE KHAN EL KHALILI |


2) Enrolei uma toalha no corpo e desci para ligar para minha noiva, na época. A primeira resposta dela foi: "benzinho...acho que não vai dar certo". O noivado acabou seis meses depois (espero que se um dia ela ler isto, não me crucifique para sempre em pensamento). Liguei em seguida para alguns amigos para chamar como sócios, e todos incrédulos falaram que "iriam pensar". Nas semanas seguintes, ninguém falou nada então cobrei: pelo menos, cinco deles...e todos responderam: "não acredito que de certo". O diretor da empresa com quem eu trabalhava, era um grande empreendedor. Eu acompanhei seu trabalho de perto por 9 anos. Quando soube que eu tinha essa idéia, perguntou: "e você acha que isso vai dar certo?". Isso tudo, estava ficando muito ruim dentro de mim...conviver com uma multidão "que era totalmente do contra"...
3) Por fim, encontrei um amigo, que disse: "não tenho nada a perder (inclusive dinheiro), por que não?" Resolveu arriscar a sociedade com trabalho. Pela amizade, falei: "Tudo bem... trabalhamos juntos, e construiremos juntos!" Mais tarde, perceberia que a realidade das sociedades, não é assim...
4) Após comprar, durante quase dois anos, o equipamento (xícaras, bules, talheres...) e empurrar tudo dentro da casa onde eu morava, com minha mãe e minha irmã, uma noite sonhei que a casa estaria numa determinada rua, próxima ao Largo Ana Rosa, região da Aclimação. Estudava o último ano de economia e resolvi passear de carro, depois da aula, pela rua do sonho da noite anterior. Lá estava a placa "ALUGA-SE".
5) Desci do carro, olhei de perto com as mãos próximas aos olhos, pela janela de vidro. "É aqui! Vai ser aqui!" Tratava-se de um aluguel caro. Uma casa grande. A imobiliária, desconfiada não queria nos alugar, principalmente quando soube o que queríamos montar. O dono da imobiliária já era provavelmente o centésimo que dizia a mesma coisa: "não vai funcionar, não vai dar certo". Queria fiador, aluguel antecipado, telefone como garantia, outro imóvel ou o que mais tivesse para ter a certeza que não haveria problemas. "Onde já se viu montar um negócio como este?", dizia ele.
6) Um outro amigo, Juvencio, localizou o telefone do proprietário do imóvel e me aconselhou a falar com ele diretamente. Fui até a casa dele numa noite, para expor a idéia. Expliquei que estava tentando alugar, mas que estava com dificuldades com a administradora. Este dono do imóvel, quando soube o tipo de negócio que eu tinha a intenção de montar em sua casa, de imediato falou: "isso não vai dar certo... não tem mercado". Aparentemente... só eu acreditava, único no mundo, que seria um negócio viável. Mesmo assim, ele acreditou em mim. Como? Eu não sei... preciso perguntar isso à ele. Quando recebi a afirmativa de que poderia alugar o imóvel foi difícil, principalmente, encostar a cabeça no travesseiro naquela noite, e ter a certeza que iria nadar contra a corrente por um bom tempo, dali para o futuro.
7) 22 de Junho de 1982, com as chaves nas mãos, reunimos alguns amigos e começamos a lavar o imóvel e pintar, sem nem mesmo o dinheiro do aluguel que venceria 30 dias depois. A idéia era utilizar o dinheiro do salário para pagá-lo. E assim foi...um mês depois inauguramos. Em 22 de Julho de 1982 abrimos as portas ao público.
8) Haviam algumas amigas que decidiram ajudar e foram nossas primeiras garçonetes. Não tinham lá muito compromisso com o trabalho não..., mas ajudaram bastante naquele começo. Vinham quando tinham vontade. Eu, continuava trabalhando em Diadema de manhã, estudando último ano de Economia na Liberdade a noite, e, fazendo tudo na Casa de Chá a tarde. Terminava a aula a noite, voltava para a Casa de Chá para encerrar o dia. Eu era um "faz-tudo".... fazia os patés, as compras, as pesquisas, atendia telefone, lavava louças, banheiros, era o caixa, o anfitrião, o garçon, o office-boy, e o que mais aparecesse. Já havia vendido alguns pertences pessoais (som, bicicleta de marchas, auto-rama...) para comprar produtos e manter o negócio. Os recursos financeiros começavam a ficar escassos. Meu carro... coitado, já tinha virado uma "bicheira". Ééééh... pensa que é bolinho?
9) Meu pai, sempre me ensinou que, por pior que a situação pareça, nunca devemos olhar para baixo, nem "de cima para baixo", com ar de arrogância, mas sempre, para frente. Minha idéia era edificar, ao longo do tempo, um bom negócio que me fizesse bem, e se possível, fosse prazeroso também, para todos aqueles que estivessem ligados à ele. Não importa se iriam aparecer ou não situações difíceis e delicadas. Desistir, jamais! A casa começou simples, sem muitas sofisticações. Havia uma única linha telefônica c/extensão, sem nenhum computador (estavam começando os PCs, na época...), não existia fax, não havia propaganda, nem noção de que era preciso tanto dela. Não haviam móveis na cozinha, apenas "engradados de laranja" (feitos de madeira aparelhada, e principalmente bem limpinhos e forrados), chumbados nas paredes, onde guardávamos as xícaras, pratinhos, bules, etc. Uma estrutura muito simples, totalmente impraticável para os dias atuais. Muito do que tinha nas paredes, eu mesmo havia pintado (panôs, afrescos egípcios, cerâmicas...até alguns móveis eu construi). Minha vida afetiva, praticamente não existia... pois eu não conseguia administrar tudo, e mais o dia-a-dia, para um romance. Lulu, veio um ano e meio depois! Certas peças de "quebra-cabeças", aparecem na época certa.
10) A minha ingenuidade: acreditava que logo nos primeiros dias iria entrar tanta gente, a ponto de pagar todas as despesas, e ainda, sobrar algum. Doce ilusão! Um negócio totalmente novo, inovador para a cultura brasileira, escondido numa rua sem nenhum shopping por perto, e sem mídia... qual o cliente que iria entrar numa Casa de Chá Egípcia, se nunca existira outra antes? Ninguém havia falado para este cliente: "vai lá, é bom, eu fui e gostei...". Não estávamos localizados num lugar, onde as pessoas "tropeçam e caem para dentro, porque simplesmente passaram em frente". Quem quisesse vir à Khan el Khalili, teria que pegar seu carro, cruzar a cidade, disposto à vir até nós e apreciar o que lhe estávamos oferecendo. Algo diferente de tudo que havia visto antes! Isso foi muito difícil. Ponto é tudo! E o nosso ponto, simplesmente, não existia. Meu Deus, quando seria a "bola dentro", afinal? Confesso que é difícil não esmorecer com tanta coisa indo contra.
11) Uma semana de negócio, passada a euforia da inauguração, a casa começou a ficar vazia (as boca-livres também acabaram...), agora restava mostrar e provar para mim mesmo, antes de mostrar ao público, que o negócio realmente era viável. Mas por onde começar? Numa noite, quase sem nenhum cliente na casa, entrei em paranóia: passei a mão numa pilha de cartões e fui distribuir na Av. Paulista, em frente ao cine Gazeta. Todo mundo que passava, entregava um cartão... e dizia: "uma nova casa de chá que inaugurou... vá conhecer". No fundo pensava: "um dia ainda vou rir disso...". Que tédio! Hoje tenho que rir disso... e também contar, para as pessoas não dizerem: "você tem sorte, Jorge". No fundo, eu aprendi bem o que é "sorte"...
12) Não havia banco que desse empréstimo, crédito ou qualquer outra coisa. Eram outros tempos. Não tinha ninguém para recorrer se faltasse dinheiro. E como faltou... a ponto de fazer meu instinto de sobrevivência valer cada dia. Factories apareceram e salvaram em momentos críticos. Mas também "vampirisaram" quando houve uma pequena recuperação nos negócios. E assim foi... durante 5 (cinco) anos. Me sentia como aqueles bambus chineses, que vergam, vergam, mas nunca quebram. Meu ex-sócio, não ficou o tempo suficiente para ver o negócio crescer e dar seus frutos. Saiu um ano depois, achando que o negócio "nunca" iria dar lucro e que não iria para frente mesmo. Paguei sua parte durante 12 meses e acabei devendo para, pelo menos, 10 agiotas. Foram tempos realmente difíceis: cheques devolvidos, protestos, cobradores batendo até nas portas dos fundos...
13) Somente em meados de 1986 é que ela passou a ser um negócio rentável. Os clientes adoravam e elogiavam muito o atendimento, o ambiente e tudo que havíamos feito. Todo mundo que vinha à casa, tinha uma sugestão na ponta da língua. "Porque você não faz isso?... Porque você não faz aquilo...". Uma vez ou outra, vinha uma idéia boa, mas a maioria tinha uma noção equivocada de como gerir e administrar um negócio. Não se implanta uma idéia nova, simplesmente porque se acha boa. É necessário pesar tudo, olhar por diversos ângulos (principalmente se não vai gerar custos impagáveis futuramente). Muita gente não tem idéia de gastos e tudo parece muito fácil. E, o principal, quanto tempo isso levará para retornar, e se vai retornar. Bom... aceitava as sugestões e prometia pensar nas idéias....
14) A maioria das pessoas quando pensa em fazer algo novo, sempre tem uma pergunta na ponta da língua: "Quanto é que eu vou ganhar com isso?" Desde pequeno, aprendi que, "se queremos fazer algo bem feito, nem sempre vai haver dinheiro retornando rápido". Por isso, sempre investi de forma institucional (pensando nos clientes dos próximos 5 anos), sem pressa de ver os frutos. Nos negócios, na maioria das vezes, retorno financeiro vem em segundo plano. Em primeiro, acredito eu, vem "a necessidade de se fazer algo bem feito e que nos dê prazer". É uma eterna e trabalhosa construção de negócio. Mas também, é um alicerce permanente. Poucos pensam desta forma. Acho que este foi um dos grandes pontos positivos que pude comprovar para mim mesmo com a Khan el Khalili.
15) Sempre me perguntaram: "Por que uma casa de chá?" Na verdade, foi um "insight", uma intuição... como muitas outras as que dei vazão, quando uma "vozinha" sussurrava ao meu ouvido. As casas de chá em São Paulo não enchiam os dedos de uma mão. E eu não sabia o por quê! Afinal, lugares barulhentos, pontos de encontro e paquera, lanchonetes, restaurantes sempre existiram... e aos montes. Só mudavam o "point", a cada ano, em regiões na cidade. Por que não tentar algo que fosse diferente e bom para todas as idades? Um lugar, intermediário entre o barulho e o silêncio, onde as pessoas sentissem vontade de voltar, pois seu clima, as remetia para um mundo de sonhos. O preço de tentar algo diferente é altíssimo, mas compensador pelo pioneirismo,... se dá certo. Outra vantagem, é que poucos conseguem aventurar ou copiar. O know how deste empreendimento, apesar de parecer simples, requer sensibilidade e sintonia. É em seus bastidores que ocorre a história toda. Eles são um eterno desafio. Todo dia se aprende um pouquinho. E isso, não vem da noite para o dia...
16) Ao longo de duas décadas, um dos maiores problemas e frustrações, comercialmente falando, que vejo do fundo do coração, é olhar para trás, é ver que nosso país, através de governos inoperantes e incompetentes, inviabilizou e continua fazendo isso, com qualquer tipo de negócio. Através de seus planos econômicos mirabolantes, e suas políticas de "tentativa e erro", sempre passando para nós brasileiros, o ônus de seu fracasso freiam nosso desenvolvimento e nos colocam na contra-mão do mundo. O mais difícil em todos estes anos, foi sobreviver à isso: o próprio governo, puxando nosso tapete, sempre. Imagine o que isso não faz em escala nacional, para nosso povo. Quanta gente competente ficou sem esperanças e perdeu tudo, ao longo do caminho? Em nosso país, é preciso perseverança, sangue-frio e principalmente... muita sorte.
18) Uma das habilidades que mais tive que treinar, nos primeiros anos iniciais, foi o "controle da ansiedade". Quando você tem um monte de coisas novas acontecendo simultaneamente, fica pensando como vai ficar, quando estiver tudo pronto e funcionando. Isso tira o seu sono. Acaba sendo nocivo. Assim, cada projeto que acontecia, eu procurava controlar ao máximo minhas emoções.
17) Meu pai, ensinou-me a organização e a datilografia. Com elas, eu comecei minha vida aos 14 anos e dei início à tudo que existe hoje. Deu-me também, através de seus exemplos, muita noção de estética e do funcionamento das coisas. Minha mãe, deu-me a boa educação e procurou ensinar-me o bom senso para com as pessoas e comigo mesmo. Ambos viveram, para conferir o fruto de seu trabalho em suas vidas: o negócio de seu filho, sobreviveu e floresceu, mesmo quando ninguém achava que, um dia "iria dar certo!"
Jorge Sabongi - Julho 2001