| 25 ANOS DE KHAN EL KHALILI |

Momentos Engraçados
1) Por ter 22 anos, na época quando abri a Casa, aparentava ser um menino, quando chegava algum vendedor indesejado ou fiscal, sempre perguntavam: "seu pai, está ai?" Eu, dependendo da situação, dizia..."Saiu... viajou".
2) Havia um árabe, muito engraçado, chamado Ahmed que um dia abriu um restaurante próximo à Casa de Chá. Ligou numa noite de 6a. feira e falou: "Jorge... me manda duas bailarinas brá dançar aqui no meu risturante... só que guéro breço barato, vai fazer desconto?". Falei para ele: "Ahmed... você pensa que bailarina é como barraca de pimentão ou beringela, que se compra por baciadas?". Fiquei tão bravo com a grosseria dele, que disse que não tinha ninguém para mandar. "Entomm manda só uma, mas eu baga metade". falou ele. Respondi: "Elas só dançam aqui!". E ele completou, bem à moda árabe: "Quantos camelos bagou bor elas? Fala, que eu baga também!". Desliguei!
3) Um ônibus de excursão, que veio do interior, não me lembro bem de que cidade, cheio de senhoras, chegou uma tarde para trazê-las para um chá. Contrataram algumas de nossas bailarinas para se apresentarem naquele horário. Durante a dança, uma bailarina tirou-me para dançar. Só havia mulheres no grupo. E eu, fui.... quando dei por mim, uma senhora levantou-se e estava atrás de mim, dançando junto, me cercando para falar a verdade. A bailarina foi para o outro lado, e eu, fiquei sozinho dançando com a senhora; só que agora ela já começava a se engraçar e tentar umas brincadeiras mais fortes. Tentei me desvencilhar, mas ela me cercava, e não deixava eu sair. Senti-me como um boi no matadouro. Uma outra, que estava sentada próxima, chegou perto de meu ouvido e falou: "Vai com ela bôbo, ela é dona de dez supermercados... até pode dar um prá você!" Pensei eu: "Oh my god, só faltava essa". Terminada a dança, ela me abraçou e não largava mais... dizia que eu era o homem dos sonhos dela, e eu rindo, sem graça (desesperado, cá entre nós...) esperei dar um intervalinho... e sai correndo da sala. Tive que ir dar uma volta no shopping, pois ela me procurou por toda a casa, incansavelmente. Quando diziam para ela que eu havia saído para um compromisso, ela retrucava: "Não é possível, ele está brincando de esconde-esconde comigo... deixa eu procurar! Adoro homens difíceis...Cadê ele, cadê ele?". Até hoje, não sei se ela estava brincando ou falando sério!
4) A senhora levou 6 crianças de aproximadamente 4 a 6 anos para tomar chá numa tarde. Falou para eles: "tomem chá direitinho, que eu volto para pegar vocês as 5 hs... e não peçam nada mais, entenderam?". As crianças assentiram e foram para sala, para sentar-se nos almofadões. Você sabe como são crianças... umas queriam suco, outras chocolate quente ou refrigerante. Tomaram tudo, menos chá. Na hora que a senhora veio buscar, e viu acrescido à conta o valor de 2 chocolates, 1 refrigerante e 2 sucos, pôs-se a gritar em altos brados com as crianças: "Eu não falei para vocês não pedirem nada extra?... Por que fizeram isso?... Vão ver quando chegar em casa .... Não levo mais vocês à lugar nenhum....". Os coitadinhos olhavam para cima, todos tremendo de medo e aflitos, pensando na represália que viria. Seria em dinheiro de hoje, uns 5 ou 6 reais, a mais, na conta. Não justificava tamanha bronca com aquelas criancinhas. Falei para ela então: "Vamos fazer o seguinte: as crianças não tem culpa; fica como presente da casa por terem se comportado direitinho, tá bom assim?", e cancelei os extras da turminha. A mulher mudou de figura: "Vocês são muito gentis, vou voltar sempre aqui, etc..". Incrível, o que alguns adultos fazem com a cabeça de crianças, por miseráveis reais. Não era necessário nada daquilo.
5) Outra vez, uma criança ao ser indagada da idade pela garçonete, pois acima de 10 anos paga o serviço normalmente, os pais falaram: "Ela tem 9". Imediatamente a menina contestou, e disse: "Papai e mamãe, eu já fiz 9 fazem três anos: já tenho 12, vocês se esqueceram?". A garçonete riu e falou: "só vai pagar se comer como adulto, ok?" Resultado: pré-adolescência, já viu né... a menina comia por dois adultos. Não teve jeito. "Mentira tem perna curta".
6) Havia um outro senhor árabe, baixinho, gordinho, sempre de terno, vermeeeelho como um pimentão, muito engraçado também: falava alto quando chegava e queria todo mundo da casa servindo à ele. Tão rico, que distribuía notas de 100 dólares. Parece brincadeira, não? Dizia: "Não quero saber quanto custa... enche a mesa de comida... bõe tudo o que puder, que eu bago. Não gosto de miséria, quero mesa farta." Acabava comendo 10% de tudo que pedia. Se mandava uma garçonete trazer açúcar, que havia faltado à mesa, dava 5 dólares de gorjeta para a garçonete quando ela trouxesse. Ele era tão excêntrico, que quando saia do banheiro masculino, primeiro abria a porta para a sala.... depois dava a descarga, wááááááhhhsshh e todo mundo ouvia, e via ele sair do banheiro, abotoando a braguilha da calça. Uma figura folclórica. Quando chegava na entrada da casa, já vinha gritando: "Jooooorrrgeeeee.... cheguei... prepara minha mesa, se tiver alguém... maaaaanda sair!!!!". Os anos passaram, e ele sumiu...
Outro, mais engraçado ainda, que chegava todas as noites, sempre com uma namorada, ou "namoradas" diferentes: "Yá Jôrge, este meu novo baixão! Eu ama ela ...(conversa fiada..., a mesma frase da noite anterior....) Dá brá ela tudo que ela quer. Eu baga tudo. Este aqui... é Jôrge, dono de Casa do Chá...esta aqui é..." E virava para a nova "namorada" e perguntava: "Qual é mesmo o seu nome?". Numa noite, ele tomou uma garrafa de whisky que trouxe com mais um amigo, também árabe, e quis aparecer mais que as bailarinas. Levantava para dançar com elas, pulava, e deitava no chão. Falava alto com todo mundo na sala, sempre brincando. Contava casos, piadas, com todo aquele sotaque, enfim, ele fazia o show na sala. Acabou até sendo inconveniente para alguns. Quando eu soube que três mesas reclamaram dele e de suas gracinhas, decidi que no dia seguinte falaria com ele, e proibiria sua entrada na Casa, dali por diante, pois a situação estava fugindo ao controle. Lá veio ele, na noite seguinte: novas namoradas, com a mesma conversa de sempre....Chamei-o e falei: "Fulano (não vou comprometê-lo)... você exagerou ontem e nas últimas vezes, e eu, não quero mais que você venha aqui fazer bagunça. Tiveram clientes que reclamaram de você...". Pensei: "Ele vai ficar louco comigo!". Virou-se e nem deixou eu terminar: "Desculpa Yá Jôrge, nom faço mais....aquelas namoradas de ontem, nom boas...eu ficava nervoso, venha ver minhas namoradas de hoje, elas me deixam apeixonados. Quero casar conelas. Você quer uma brá você? Bode escolher... eu dô brá você.". Ele realmente não vive nesse mundo... falou até para a garçonete, quando ela o atendeu: "Fala brá Jôrge, que eu tô comportado hoje, só brá ele nom fica triste, comigo. Eu bromete, nom fais mais bugunça". E realmente... dali para frente, dezenas de namoradas depois, todas "apeixonadas" por ele, sempre se comportou direitinho...
7) Uma outra amiga árabe, ligou para mim uma tarde, e disse: "Vou lhe dar um esbaço no meu ristorante brá você monta seu loja e você só vai me bága R$ 2.000 de aluguel por mês, Yá Jôrge. Se puder baga adiantado, eu agradece." Detalhe: ligou e falou isso direto, nem um 'como vai?', e coisa e tal. Falei para ela: "Mas Fulana... eu não tenho interesse em abrir outro espaço, nem arrumar outro aluguel". E ela respondeu, com a maior sutileza: "Nom tem broblema, bága mesmo assim...o esbaço é seu, eu dô ele bresente brá você! Entom te espero trazer cheque." Você consegue acreditar, que alguém em sã consciência, faça uma proposta destas? Nem eu... Ela ligou, ligou e... nunca mais me achou!!!
8) Aquela turma foi realmente desagradável. Chegaram em 17 (alguns casais, e outros avulsos, todos falando muito alto). Pessoas bem aparentadas. Mexeram de forma grosseira com a recepcionista e a copeira que passou por eles no corredor. Tentaram passar a mão na garçonete e quando a gracinha chegou à bailarina, ela saiu da sala no meio da apresentação, e falou: "Habib, não tem condições de dançar para esse pessoal. Eles fazem micagens e falam palavrões o tempo todo". Não tive dúvidas. Entrei na sala e falei: "Todos fora: vocês não são dignos de pisar aqui dentro... ruuua". Nenhum deles acreditou. Mandei parar o som do show. Apagamos a iluminação colorida e nisso as mulheres da turma vieram falar comigo: "Isso é um absurdo!" Respondi: "Absurdo é o comportamento de vocês, fooora". Engraçado que, na hora, nem pensei em chamar a segurança. Já estava no meio do incêndio... Dois dos engraçadinhos vieram tentar se desculpar, dizendo que não imaginaram que as brincadeiras "tinham sido tão pesadas", e que elas se ofenderiam. Conclui finalmente: "Se vocês não tem bom senso, para perceber que estão ofendendo uma pessoa que trabalha, enquanto vocês se divertem, não sou eu que vai lhes ensinar isso nesse momento. Assunto encerrado, quero todos fora daqui agoooora! Nem precisam pagar... o dinheiro de vocês não é bem-vindo aqui!!! Ponto final.". E virei as costas para esperá-los na saída da recepção. Isso foi chato... imagine suas caras ao sair, com todos olhando. Foram, para nunca mais aparecer. Depois que tudo passou, é que me dei conta: eles eram dezessete contra um, imagine o estrago, se decidissem reagir a contento? A gente faz cada coisa na vida... e depois, pensa!
9) Sempre acreditei até o último instante que "milagres acontecem... e podem ocorrer todos os dias". Isso manteve-me firme, mesmo quando, muitas vezes, a situação parecia não ter mais solução. Veja este exemplo: numa noite, uma hora antes de fechar, o pessoal que trabalhava conosco perguntava: "Hoje está fraco o movimento, vamos fechar mais cedo?" E eu respondia: "Espera que vai chegar uma turma de 20". Que piada: não entrava ninguém fazia uns 40 minutos. De repente, quando todos já haviam perdido as esperanças, pararam três táxis especiais na frente da Casa. Desceu um japonês e falou... "Ainda está aberto? Estamos vindo de um show no Maksoud Plaza...." Perguntei: "Em quantos vocês estão?". E ele respondeu: "vinte pessoas". Completei: "Claro, estávamos esperando os senhores...podem entrar..." Ééééhhh milagres acontecem... E diversas vezes.... Hoje, ninguém duvida mais, quando eu faço uma previsão na Casa...
10) Não podia deixar de mencionar um telefonema muito engraçado também. Havia há alguns anos atrás, um restaurante árabe que chamava-se PORTA ABERTA. Não existe mais. Um dia, me liga uma senhora no telefone, e pergunta: "Alô... aí é do restaurante Porta Certa?" Eu não tive dúvidas, e respondi de bate-pronto: "Desculpe, a senhora bateu na PORTA ERRADA".
11) Japoneses, chineses, coreanos e orientais sempre adoraram vir à Khan el Khalili, desde o início, quando abrimos as portas. Tem até uma crendice, do nosso pessoal na copa, que diz: "Quando o dia começa com um cliente oriental, é certeza que o movimento vai ser muito bom". Eu acredito... pois já vi isso acontecer centenas de vezes. Tem uns casos muito engraçados. Quando chegam, às vezes, não falam nenhuma palavra em português. Falamos: "Boa noite!" Eles não respondem, nos atropelam e passam direto, vão entrando, até encontrar um lugar para sentar. Depois falam por gestos com a garçonete. No fim, sempre acaba dando certo. Eles adoram dança do ventre. Assistem atentos, sem esboçar emoção. Sempre sérios. Aplaudem muito. Agora... é 8 ou 80. Quando dão para ser bagunceiros, então... num final de semana desses, apareceu um grupo que havia acabado de chegar do Japão. Eram uns 20. Nunca houve, na história da casa, um grupo de orientais tão animados, homens e mulheres. Todos felizes e participativos. Vibravam com tudo! Levantavam, dançavam com as bailarinas e riam, riam, riam como nunca. Ganharam na megasena... no Japão!
12) Essa eu não poderia deixar de contar: uma senhora, já de uma certa idade, veio com seu marido a Khan el Khalili. Enquanto ele ficava na sala, ela saiu circulando pela Casa com as mãos levantadas. Dizia que estava captando energia. Até aí sem novidades, respeito o misticismo de todos, tenho também minhas crenças. Ao me ver passando pelo jardim (eu estava vestido de árabe, como é o costume na KK), ela me chamou perto e falou: "Deixei meu marido lá na sala tomando chá e estou vagando pelos ambientes, captando energia, mas.... (sempre tem um mas...).... estou sentindo falta de algo e só você poderá ajudar". Perplexo olhei para ela e perguntei: "Sim, como posso fazer para ajudar? Se estiver ao meu alcance farei desde já". E ela disse: "Quero que você coloque o seu sultão para fora." Wow... esta eu não esperava, arregalei os olhos, fiquei atônico, sem palavras: o que ela queria dizer com estas palavras? Humm,... pensa rápido, falei para mim mesmo... Estava longe de parecer uma cantada. Não era, tenho certeza! Tinha mais a ver com uma viagem cósmica, uma coisa de abdução, de fanatismo de alguma procedência desconhecida. Não é nada do que está se passando por sua cabeça neste momento, pode ter certeza! Não tive dúvidas, respondi: "Vou procurar fazer o que me disse, mas tenho que ir agora". Saí andando para outros ambientes. Essa minha resposta não era plausível, porque não dizia absolutamente nada, mas dava-me tempo para pensar. Vinte minutos mais tarde, cruzo com ela ainda andando pelos ambientes; virou-se para mim e disse: "E então? Já pensou na minha solicitação?" E eu, desconcertado novamente, falei: "Me desculpe a franqueza, mas não entendi corretamente o que a senhora quis dizer. Posso colocar a senhora e seu marido para assistir ao show novamente em outra sala, pois tem lugar vago, caso queira". Ela me interrompeu: "Você não entendeu... o seu sultão, você tem que colocar o seu sultão para fora... é isso que eu vim ver aqui! É isso que eu estou querendo ver desde quando cheguei. Ele é a energia. Você vai colocar ?". Agora eu pergunto: você entendeu? Nem eu.... então finalizei: "Desculpe senhora, meu sultão não está no palácio neste momento!" . E me fui...
Jorge Sabongi - Agosto 2001