| 20 ANOS DE KHAN EL KHALILI |

Desafios da
Khan el Khalili
1)
Falar dos "desafios" que a Khan el Khalili ofereceu, ao longo dos anos,
daria um bom livro. Sou suspeito
para falar de sucesso; ele não veio todos os dias, como eu esperava ou
imaginava. Aconteceu em doses
homeopáticas e geralmente numa proporção de nove tentativas de erro, para um resultado
positivo (10x1 - nove não retornaram). É evidente que todos sonhamos com
o sucesso. Ocorre que ele é como uma miragem no deserto: "Quanto
mais achamos que estamos próximos à ele, mais ele se distancia".
Por isso, tomamos como base, assentar cada pedra e esperar que um dia, ela se
torne uma pirâmide faraônica. É um trabalho de paciência. Estas
pequenas descobertas, projetos inovadores da Khan el Khalili, ao longo dos anos,
que acabaram tomando vulto mais tarde, chamo de "desafios".
Na verdade, grandes idéias surgem de uma intuição. Pelo menos, idéias que não são cópias de algo que já existe surgem de algum ponto no além (acredito eu!), e te chamam a atenção. Costumo ouvir muito aquela voz que diz o caminho a seguir... e percebi... "ela não me engana". Por isso, quando a idéia surge, eu imediatamente já começo a rabiscar um papel. Em seguida... "ação" o quanto antes, pois a idéia esfria e você vai junto. Coisas novas surgem e aquilo que parecia ser algo do outro mundo, dissipa como nuvem. Quantas idéias já passaram por sua cabeça e você deixou ir embora...
Ter um negócio próprio em nosso país, significa fim do sossego. Todos experimentamos muita coisa amarga para encontrar algo doce. Hoje a Casa de Chá tem diversos segmentos em nosso mercado. Vou mostrar aqui, como surgiram algumas destas idéias, e o quanto, muitas delas, foram difíceis "fazê-las dar certo". O principal nisso tudo, é o “estar pronto para perceber quando ela chega... O passo seguinte é fazer acontecer... ir atrás, tomar iniciativa de começar a ação e, principalmente, nunca desistir de seu objetivo”. Vamos à elas...
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Onde achar música árabe para o Brasil nos anos 80?
2) Fazer o nosso país despertar para a beleza da cultura árabe, não foi fácil. Não existia música árabe no Brasil há 20 anos atrás. Compramos algumas fitas cassetes, na época, que eram gravadas de discos de vinil muito velhos, e assim começou o som ambiente da casa. E o engraçado... as pessoas adoravam. Nem reparavam o chiado das gravações. Quando veio a dança, outro desafio: onde conseguir música boa? E o principal... “música que emocionasse”. A tecnologia musical nas últimas décadas melhorou muito no oriente médio (parece brincadeira falar assim, conhecendo a precariedade daquela região, mas é verdade!). A qualidade das gravações dos discos árabes de vinil de 25 anos atrás era “um lixo”, ao pé da letra. Quando não irritava os ouvidos, com seu som agudo absurdo, não havia fidelidade de som nas músicas (equilíbrio de graves, médios e agudos); outras vezes, desprezavam a beleza de um determinado instrumento e deixavam a percussão muito alta. Ruim de ouvir, quanto mais para dançar e apreciar! Mas isso são detalhes técnicos. Só que no contexto geral, isso faz a grande diferença. “A diferença entre o sonho e o pesadelo, está na qualidade que aparece aos seus sentidos” (essa ficou legal,... veio agora à minha cabeça!). Para fazer as pessoas sonharem, é necessário qualidade sonora, caso contrário, esqueça, não ocorre o encanto. Aprendi isso sendo DJ dos 14 aos 22 anos de idade.
Em 1987, ao viajar para os EUA, fui direto as grandes lojas de discos procurar músicas árabes (long-plays - vinil) . Andei por Nova York em todas as lojas possíveis e adquiri o que tinha em cada prateleira. Bastava ter desenho de bailarina na capa, mesmo sabendo que poderia estar comprando coisa ruim. Comprei 53 discos de vinil, e trouxe tudo como bagagem de mão (se pudesse colocava uma algema, para os discos não se separarem de mim); no quarto de hotel, coloquei-os no criado-mudo, com medo que pudesse sumir algum, como se fosse o maior tesouro do mundo. Cheguei aqui e foi uma festa... dava para aproveitar só umas 80 músicas (média de 1 a 2 músicas por disco). Sabe aqueles discos que só tem uma música que presta? ... O resto ... os músicos pareciam que estavam bêbados ou loucos para ir para casa? Este era o meu tesouro. E eu fiquei feliz mesmo assim.... Por volta dos anos 90, começaram a melhorar muito a qualidade do som das músicas árabes. A Europa e os EUA passaram a ser consumidores dos produtos em larga escala... tinha que melhorar. Começava a tomar vulto a dança oriental de forma global. O CD começava a entrar em moda e agora as vendas pareciam eminentes. Sempre que tinha oportunidade comprava algum CD árabe. Tinha um amigo piloto, que trazia sempre, CD ou vinil e cobrava o preço que pagava no país. Trouxe coisas muito boas da França, Itália, Alemanha... gravações que ofereciam a possibilidade do sonho. Agora começava a ficar interessante o show business árabe no Brasil.
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A disciplina com a dança e com os shows
3) Ocorre um detalhe interessante quando falamos em fazer shows árabes. A questão disciplinar é fundamental para um show de qualidade. Bailarinas normalmente tem gostos diferentes e músicas que umas adoram, outras simplesmente odeiam. Vai da personalidade e estilo de cada uma. Se você deixar que elas escolham a música para dançar, passam horas e horas discutindo, sem chegar a uma conclusão, qual vai ser a da primeira apresentação. Foi necessário imprimir um ritmo, caso contrário iria debandar a organização. Dei preferência ao “improviso” para todas. Isso virou marca registrada na Khan el Khalili. Eu explico... as músicas começariam a tocar, e elas teriam que entrar para dançar e criar na hora, improviso total. Se fossem boas bailarinas e talentos emergentes, isso seria visível rápido. Evidente que falhas tiveram que ser corrigidas, aos poucos, na dança de cada uma. Parece incrível, mas foi positivo demais essa iniciativa. Nenhuma das nossas bailarinas vive de coreografias hoje, mas sim da própria criatividade com sua dança e seus movimentos. Isso resulta que, todas as bailarinas da Khan el Khalili, principalmente as que dançam nas Noites no Harém, são capazes de se apresentar em qualquer lugar do planeta, sentindo-se à vontade, e não fazendo feio para ninguém. Aprendem desde cedo a "presença de cena". Quando você improvisa uma ou outra vez, sempre dá aquele friozinho na barriga. Quando você faz isso sempre, acaba causando uma metamorfose em sua dança e em você própria. É como um vírus, que fica cada vez mais forte! Existe também uma disciplina interna na Casa de Chá, impecável e de fazer inveja para quem trabalha no meio artístico árabe. Qualquer lugar onde nosso grupo se apresente, shows, programas de TV, ou outro tipo de evento, sempre é necessário improvisar, e em minutos, chegamos armamos o esquema, e, sempre dá um resultado melhor do que esperamos. Isso faz bem ao grupo. Diversas bailarinas nossas que se apresentaram no exterior falam a mesma coisa: não tem esquema melhor.
Da mesma forma, elas também reconhecem que público igual ao nosso (brasileiros), não tem igual em lugar nenhum do mundo. Existe um contágio, uma empatia, difícil de explicar por aqui, principalmente na Casa de Chá. Segundo elas, aqui "além de assistir e vibrar, existe um respeito muito sério pela dança da bailarina que está se apresentando". Para nós, é um grande privilégio e ficamos extremamente lisonjeados. Desconheço no ocidente algum lugar assim. Foi difícil aprender cada passo para conquistar esse respeito. Anos e anos de tentativa e erro para chegar a esse know how.
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A propaganda começou... e nunca mais parou!
4) Um dia recebi, em 1985, uma proposta, via mala direta, para fazer propaganda numa nova revista que iria ser lançada pela Editora Abril. Iria ser o que hoje chamamos de "Vejinha". Joguei no lixo na hora, pois achava que não tinha cacife para aquilo. Nossa auto-estima empresarial naquele início de negócio andava baixa. Inclinei a cadeira até a parede e olhei para o lixo, de novo. Aquele folheto amassado, parecia que me chamava.... "Ei... você aí olha prá mim! Eu sou algo que vai fazer uma diferença na sua vida..." Com as mãos cruzadas sobre a cabeça, como se dissesse, "eu me rendo", pensei "porque não?". Peguei o folheto amassado e liguei para eles; pedi um representante e resolvi assinar um contrato para ver o retorno. Estaríamos começando a Vejinha em seu primeiro número. Permanecemos nela durante quase 10 anos. Mesmo no Plano Cruzado, quando nem propaganda era necessário, foi quando mais investimos em publicidade.
Saiba você de uma coisa muito importante: “A hora de fazer propaganda, é quando as coisas vão bem, e não, quando vão mal”. Tivemos resultados, pois mostrou ao mercado que existíamos, e muita gente tomou conhecimento da Khan el Khalili por ela. A nossa localização não era perto de um shopping, por exemplo, que as pessoas tropeçam e acabam caindo aqui dentro. Precisávamos mostrar ao mundo que existia uma Casa de Chá Egípcia.
Dali para frente, fizemos propaganda em muitos lugares. Agora, não tínhamos mais medo de investir em publicidade; esta era a barreira que faltava ultrapassar: fomos para a Revista Nova, a Playboy, diversos jornais, FMs, e também Rede Globo em 1989. Ocorre que a propaganda tem um efeito engraçado. Se você faz, precisa continuar fazendo. Não pode parar. Parou, você simplesmente, some! Uma ação isolada não faz verão. Tem que ter continuidade. Assim, aprendemos que tinha que ser um pouquinho em cada lugar... e sempre! Não importa se temos 20 anos de negócio ou mais. Estamos fazendo propaganda para a outra geração, que nasceu quando abrimos a casa, e que agora já é adulta. Veja o exemplo da Coca-Cola, do McDonalds e outras multinacionais. Propaganda nunca foi demais!
Um ponto que não pode ser deixado de lado, é que nunca economizamos com material publicitário. Em qualquer época que você for a Casa de Chá, vai ver o balcão forrado de folhetos e informações úteis para quem quer saber sobre a cultura, a casa, a dança, aulas, nossos produtos, etc... Nisso, não se economiza.
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Pensa que eu também já não fui pedante?
5) Por volta de 1986, as coisas começaram a melhorar em virtude do Plano Cruzado. Começamos a ficar conhecidos pois estávamos em toda a mídia. Pagamos nossas contas e começamos a ter uma conta corrente satisfatória. É incrível como isso mexe internamente. Achava que podia comprar tudo! Ia aos shoppings toda 2a. feira (eleita "Dia de Consumo", pois a Casa fechava neste dia, naquela época), e gastava, gastava, gastava... Comprava tudo por atacadão. Uma bela jaqueta... tinha que comprar uma de cada, de preferência de várias cores. CDs estavam começando a chegar os primeiros ao Brasil...era novidade tecnológica e custavam em média, 50 dólares cada um, na época, e eu comprava uns 10 importados, toda semana. Troquei de carro, comprei diversos brinquedinhos, destes que a gente sonha comprar e não parava "nunca mais" de gastar.
Comecei a perceber que algo estava errado comigo: estava tratando diferente as pessoas. Com um pouco de soberbia. Sentia uma certa arrogância nas minhas atitudes do dia a dia. Por incrível que pareça, começava a me sentir cada dia mais infeliz. As coisas começavam a perder o sentido. Afinal... o que vem depois de comprar tudo o que você tem vontade? Que coisa, bem sucedido, mas infeliz! A vida me deu o troco no ano seguinte e eu experimentei uma "maré de dívidas" que não desejo à ninguém. Pensei numa noite ao deitar: "O que me faz diferente das pessoas para ter esta sensação estranha? Sentia uma descontinuidade na vida, uma inadequação onde ia!. Tudo começava a ficar chato e sem sentido. Comecei a baixar minha crista, pois o saldo no banco diminuiu e minha auto-estima ficou prejudicada. Percebi que da mesma forma que havia subido, poderia descer e o prestígio iria acabar. E que o resultado de sua vida é "o que você deixa de abstrato, pois o concreto, outros vão ficar com ele, e quem sabe, vão destruir logo"...
Felizmente, coloquei os pés no chão quando olhei no espelho e percebi que não estava gostando do que estava vendo. Já leu "O Retrato de Dorian Gray" de Oscar Wilde? Aquele livro causou uma metamorfose imediata em mim... e a arrogância começou a dissipar-se. Outras vezes que ela tentou chegar... controlei. O dinheiro e o poder mexem...
Olhar para mim mesmo e perceber isso, foi também um grande desafio imposto pela Khan el Khalili, afinal ela era a responsável por eu conviver com sentimentos como este. E ela não cansou de me ensinar a lição ao longo dos anos: "por mais que a vida mude... nunca mude você e nunca mude com as pessoas".
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A ampliação da Khan el Khalili
6) Em 1989 também, durante um show do Paul McCartney, em pleno gramado no Maracanã, recebi uma ligação de São Paulo, informando que a casa ao lado da Khan el Khalili, tinha vagado e estava para alugar. Nosso espaço físico só permitia 100 lugares na época. Já havia noites que eu acordava assustado, sonhando com a casa ampliada. Levantava e ficava andando pela casa, imaginando como seria ela, se fosse maior e com o espaço que eu sonhava. Sabe aquelas coisas de pai que fica pensando como vai ser seu filho quando tiver mais de 18 anos? Mais ou menos isso...
Não pensei duas vezes. Pedi para avisar ao proprietário, que tínhamos interesse, e para não fecharem negócio com ninguém, sem falar comigo até voltar para São Paulo na 2a. feira. Um mês depois, estávamos reformando e unificando as duas casas. Crescia para 300 lugares ao público. Agora tínhamos 12 ambientes para o chá e os shows. Teria agora um escritório, o camarim das bailarinas, o estoque, a quituteria, um estúdio de fotografia para a publicidade, a sala do marketing, a lavanderia, a sala frigorífica. Não sei como vivemos sem tudo isso antes. Comprar tudo o que precisava e decorá-los iniciava uma nova etapa na vida da casa. Vivíamos ligados o dia todo em tudo o que víamos que pudesse fazer parte da nova decoração. Demorou para chegar ao que é. Tudo custava muito caro e requeria reformas. “Meu Deus, como fiz reformas em minha vida!”. A partir daquela data, nunca mais parei... Dez anos depois (isso mesmo, 10 anos!), ela ainda precisava de reparos. Ficou grande demais e tudo que fica muito grande, exige muita manutenção.
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As grandes festas da Khan el Khalili
7) Em 1997, fizemos uma festa no Clube Sírio. Era uma 2a. feira e vieram 2000 pessoas. Foi um assombro. Oito horas de festa e alegria. Começou as 20h e acabou as 4h da manhã. Dezenas de grandes bailarinas, dois conjuntos árabes completos, jantar, etc... Em seguida, meses depois, fizemos outras, incluindo no Memorial da América Latina. Foram grandes festas, todas tinham mais de 1500 pessoas convidadas presentes. Uma das características das festas da Khan el Khalili, foi sempre conseguir reunir uma quantidade imensa de grandes talentos no palco. Houveram apresentações que entraram para história mesmo.
Foi aí, que percebemos como havia tomado forma todo o trabalho de anos anteriores. Trabalhavam na festa aproximadamente 200 pessoas, entre músicos, bailarinas, garçons, recepcionistas, seguranças e técnica. Era mágico traçar a organização de tudo aquilo. Era difícil, mas descobri um dom: a facilidade de orquestrar grandes eventos com grande quantidade de pessoas. Como eu gosto disso!!! Infelizmente eles são caros e "não lucrativos". Eu até faria todos os anos, mas prejuízos de grandes festas, tardam a ser recuperados. Nos últimos 10 anos, percebi que é inviável trabalhar com prejuízos em nosso pais, mesmo que isso represente valor de propaganda institucional para os negócios, isto é, vender a imagem para os próximos 5 anos.
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Como surgiram as Noites no Harém
8) No começo de 1998, numa conversa informal, Soraia Zaied sugeriu-me que criasse na Khan el Khalili um show diferenciado no Salão Harém (claro que ela fez isso com seu peculiar talento dramático, gesticulando bastante e também muito animada, como sempre... queria que eu criasse um show diferente na casa, que misturasse folclore, as bailarinas levando as pessoas da recepção até o Harém, uma verdadeira e feliz bagunça árabe.... naquele momento não estava pronto para pensar em algo novo e acredito que demorei um pouco para digerir a sugestão). Segundo ela, as pessoas viriam e assistiriam a um grande espetáculo com as melhores bailarinas da Casa de Chá. A idéia parecia interessante e logo tratei de formatá-la.
Algumas semanas depois veio aquela voz de novo (até pareço Joana D'Arc... ouvindo vozes!). De repente, bum... voltou na minha cabeça uma idéia, pulei do puf e comecei a gesticular e falar com ênfase: “Porque não fazemos um show de arrebentar, com as melhores bailarinas da casa, a preço irrisório, só para criar uma ferveção aos domingos? Tirar as pessoas de frente da TV aos domingos. Coisa assim prá cobrar um preço popular. Porque não? As danças poderiam ser mais longas. Cada bailarina criaria o que quisesse dançar e poderia dar margens à inovações. Gente boa, nós temos... é só organizar isso!”.
Este evento tornou-se um dos maiores shows de dança do ventre do mundo. Sempre com shows inéditos, agrega um grande número de apresentações especiais folclóricas. É apresentado todos os Domingos a partir das 20h.
Soraia com o passar dos anos, mudou-se para o Egito (em 2002), onde tornou-se uma das grandes bailarinas daquele país, mas a semente de sua idéia transformou-se numa árvore surpreendente.
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O site Khan el Khalili
9) Em 1997 no início da Internet achei que era hora de colocar nosso site no ar. Era simples, mas teria muitos atrativos. Como a Khan el Khalili é uma empresa dinâmica (todo dia tem novidades!), tornava-se difícil ficar chamando o técnico para atualizar este site toda semana. Gastamos tempo e a nossa calma com isso. Comecei a ficar enfezado com o técnico, e também, por ter que dispor de tanta verba só para atualizar cada vez a homepage...
Aí... eu chamava o técnico, e ele não vinha.... outras vezes, simplesmente ele sumia, desaparecia total, e as informações ao público ficavam desatualizadas, como revista da semana passada. Isso me irritava. Quem tem um computador em casa e um website sabe bem o que é isso. Falei comigo mesmo... “Quer saber? Eu vou fazer esse site, do meu jeito e não chamo mais ninguém! Vai ter "custo zero". Chega de técnicos enrolados!”. Resolvi fazer o curso de HTML no Senac e aproveitar cada grão de informação. Foram 48 horas de aula durante 2 meses. Valeram cada centavo. Desprezei completamente o site antigo. Não digo que joguei-o fora, porque seria uma judiação. Ele tinha 250 páginas. Comecei a achá-lo ridículo e resolvi fazer tudo de novo, nos moldes que eu achava correto, e principalmente, que falasse a linguagem das pessoas de "todas as idades". Simples, de fácil acesso, que desse o recado, e com um tom lúdico (em clima de brincadeira!).
Hoje, nosso site tem mais de 20.000 páginas à disposição e mais de 30.000 ilustrações. Não, sem uma dose de muitas horas de trabalho, claro! Despendi muitas madrugadas criando páginas interessantes, atualizado-o e tornando-o mais interessante. Você está nele agora... o que acha? Diga que minhas horas não foram em vão...
E por falar nisso, sempre aparecem designers querendo refazê-lo. Mandam e-mails e falam que ele não funciona! Que está ultrapassado, etc. Penso comigo: "ha, ha, ha...". Claro, é um assunto diferente, gostoso de mexer, seria uma ótima propaganda para qualquer profissional. Fazê-lo é fácil... o problema maior é quando tiver que atualizar as páginas, na proporção que eu faço. Todos os dias... já imaginou o custo de um trabalho destes? Para mim atualmente ele é gratuito e, principalmente traz retorno além do desejado. Passamos de 2000 visitas por dia.
Mexer nele exercita minha criatividade. Sou contra muitos efeitos especiais, música no site e coisas muito modernas. A informação tem que ser precisa e imediata. Na primeira vez você fica chocado, na segunda vez que acessa, já não tem mais paciência para ver tudo de novo. Temos visitantes que nos acessam diariamente. Já imaginou que chato ter que ver os mesmos efeitos (músicas, páginas em movimento...) toda vez que se entra? Isso cansa, deixa as pessoas entediadas e sem paciência. Essa é uma percepção mercadológica que deveria estar na ponta da língua dos designers, na minha opinião. Site de consulta, como o nosso, tem que ser prático, rápido no gatilho... Quer ver um exemplo: entre num site cheio de efeitos. Agora entre mais quatro vezes e me diga o que você acha do seu tempo perdido para ver os efeitos. Na primeira vez até vai... mas as seguintes tem efeito contrário. Consegue entender o que digo?
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Mostrando o caminho para o sonho
10) Minhas melhores idéias sempre surgiram no banheiro. Não tenho vergonha de dizer isso. É lá que eu produzo mais... (não sei se isso é engraçado!). Mas é real! É onde consigo pensar e organizar o fluxo das idéias, todos os dias. Mas vamos continuar falando do “aquilo deu nisso”: Como já disse antes, desde meus 15 anos de idade, eu era DJ. Isso mesmo... eu colocava músicas nos bailinhos para as pessoas dançarem. Pode falar o que for, mas isso foi uma escola e tanto! Observar a atitude das pessoas quando começa a tocar uma música, perceber quais as músicas que mais causam efeito, quais as que entediam as pessoas e mandam embora do baile e aquelas que são "elemento surpresa". Tudo isso, me favoreceu, durante anos, com uma psicologia visual e auditiva que não tem preço. Nada paga o aprendizado do dia-a-dia na vida. Isso atualmente reflete na escolha das músicas durante os shows na KK. Normalmente, todas as danças são improvisadas. As músicas são escolhidas dois minutos antes dos shows, dependendo do ânimo do público, do ritmo da agitação, do horário, e da euforia que acontece depois que elas estão em cena, durante as danças (nesse caso, eu acabo mudando as músicas da rodada para combinar melhor a rodada, enaltecendo ainda mais “o sonho”). Conhecer o estilo musical que causa emoção, é uma dádiva. As músicas devem combinar entre si. Tem todo um esquema. Não é só colocar o CD e dar play como muita gente pensa. Esse é um dos grandes segredos de sucesso na vida: saber o que agrada as pessoas. Principalmente se você está nos bastidores.
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Como surgiram os CDs Árabes da KK
11) Foi assim que em 1998 resolvi gravar músicas. E surgiram os CDs. Sentia falta de alguns estilos para completar os shows. Sabia como fazê-los... porque não? Vamos por mãos à obra. Minha intuição novamente falava mais alto. Mesmo sendo um economista de formação, acredito que a sensibilidade deve ser preservada. A descoberta de nossos talentos pessoais parecem nascer de nossa disponibilidade em respeitar a diversidade no mundo e manter olhos e ouvidos atentos para a vida. Foi assim que senti, com os anos, minha acuidade musical se desenvolver gradativa e progressivamente. Adoro ritmos e os snujs me completaram oferecendo tantas possibilidades para o improviso. Outra facilidade que pode parecer engraçada é minha mania de cálculo. Me divirto fazendo predições sobre tempo real...pensando em minutos e segundos e calculando coisas diversas ligadas a isto. É tão tranqüilo pra mim que parece instintivo. Quer ver um exemplo?
“Você tem idéia de quantos “metros” por segundo, seu carro está correndo, quando ele está a 120 km/hora?” Muito bem... você está correndo 33,33 metros por segundo. Significa que você está andando 100 metros a cada 3 segundos. Responda friamente: “Você consegue brecar um carro “totalmente” em 3 segundos a 120 km/hora, se precisar parar? Pois bem... não entendo como tem gente que cola o carro na traseira de outros, no máximo 3 a 5 metros. Será que eles tem noção do espaço necessário, se o carro da frente precisar brecar só um pouquinho? As campanhas de trânsito deveriam atentar para esta questão de física. Aliás, física nunca foi o meu forte, mas no raciocínio mecânico, não posso negar: "os deuses foram bem condescendentes comigo...".
Continuando... achei que deveria gravar CDs e dei asas a criatividade e ao conhecimento que havia adquirido com a música árabe na KK. Chamei alguns músicos árabes para gravarmos. Estabeleci os ritmos e quais os instrumentos que fariam o quê. No começo eles não respeitavam muito minhas idéias, não! Quando perceberam com os meses trabalho, que fomos tendo juntos, minha “sintonia fina” com a música árabe, a história mudou. Havia disciplina e as minhas propostas eram aceitas. Fizemos canções lindas, mas minha preocupação era que a música tinha que ter 1) abertura para bailarina; 2) um momento especial durante seu desenvolvimento; e 3) uma finalização que proporcionasse um bom show. Todas as músicas do CD tinham que ser para estudo de dança do ventre ...e boas. Essa história de uma ou duas boas só para vender o CD, não fazia parte de meus planos. Infelizmente, nunca tive a minha disposição uma orquestra egípcia completa, para extravasar toda essa criatividade... acho que eu poderia fazer “miséria” com arranjos e uns 20 músicos. Mesmo assim, acredito que fizemos um bom trabalho. Existem atualmente 21 CDs. São quase 230 músicas (incluindo solos de percussão). Resolvi na época, gravarmos também, algumas músicas de domínio público, que são muito tradicionais nos países árabes (coisas de 100, 150 anos, que o tataravô cantava para eles... mas que são verdadeiras obras-primas), e demos um arranjo com a devida qualidade sonora necessária. São CDs para sempre, pois são músicas do gênero clássico árabe. Nunca ficam ultrapassadas. Principalmente.... são adaptadas ao que os brasileiros gostam de ouvir. A medida que íamos gravando, aprendíamos dia a dia, novas coisas e pudemos sentir com o trabalho pronto o progresso musical.
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A Pré-Seleção de bailarinas
12) Em 1999, chegamos a conclusão que teríamos que criar uma forma de reconhecimento para as bailarinas que estavam realmente se destacando. Um compromisso com a qualidade. Formatei então a Pré-Seleção de bailarinas. Você não imagina o trabalho que dá. Mas a satisfação que temos quando vemos o resultado na festa de encerramento, nas Noites no Harém, daquelas que foram qualificadas, não tem preço. Vale toda a mão-de-obra de meses.
A Revista Khan el Khalili chega as bancas
13) Em 2000, recebemos um convite para editarmos uma revista da Khan el Khalili, encartando um CD com as coletâneas das nossas músicas. Geralmente, revistas com CDs, tem conteúdo fraco e não satisfazem os consumidores. Não queríamos isso. Falamos na época, com os editores que gostaríamos de fazer algo bem feito, tanto os CDs, como os fascículos. Se o problema eram os artigos, muitos dos que estavam no site seriam utilizados, outros seriam escritos. Desde pequeno sempre li muito e isso facilitava a verbalização da escrita. Escrevi alguns e sugeri muitos outros temas. O resultado foi que a Revista Khan el Khalili foi um sucesso. Ocorre porém que a editora não tinha um departamento de publicidade, que captasse patrocinadores, e isso, só favoreceu 4 fascículos. Todos os fascículos são atemporais, com uma qualidade de impressão acima da média. Esta foi a condição para a parceria com a editora MID, na época.
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Surge a Turma do Sahara
14) Minha filha, quando tinha 8 anos, uma vez me falou para eu desenvolver personagens infantis para as crianças que iam na Casa de Chá com os pais. A idéia era genial, porém, por onde começar? As idéias sempre surgem. Resta-nos torná-las reais e viáveis. Vamos lá... fiz um esboço, depois comecei a determinar os detalhes dos personagens. Pensei então em fazer as estórinhas no Egito, as aventuras seriam hilariantes. Crianças egípcias, veja você! Caracterizei cada um deles com a personalidade de amigos da Casa de Chá (bailarinas, amigos, e também dos meus próprios filhos). Deu uma turma de arromba! Dei-lhes alguns atributos para que se tornassem especiais (um tapete mágico, uma chave que abre uma máquina do tempo, um cajado que transforma-se numa serpente num momento de perigo...). Cada dia que eu ia criando detalhes em um personagem. Levava ainda, minha filha junto comigo para opinar junto ao desenhista o que ela achava mais interessante. Nada melhor que uma criança para falar sobre "produtos desenvolvidos para crianças". Discutíamos as roupas, os tamanhos dos personagens, as idades de cada um, e principalmente, suas manias. O objetivo seria dar de presente para as crianças colorirem em casa. Levariam como presente da Casa de Chá. No início de 2000 eles ficaram prontos. Registrei-os com a marca Khan el Khalili e pronto!
A editora da Revista Khan el Khalili, resolveu colocar nas bancas a Revistinha no. 1 da Turma do Sahara a título de curiosidade. Sem compromisso, só para ver a aceitação. A criançada adorou. Não tinha violência, e a idéia era essa. Gente esperta e com idéias. Dando exemplos inteligentes para as crianças, não deturpando suas mentes e os tornando seres agressivos. Cada personagem tem algo interessante, que suscita a identificação de uma criança. Surgiu então a idéia do licenciamento de marcas (licensing) para os personagens. Outro segmento para o futuro. Manter personagens infantis depende de muita verba.
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O desenvolvimento para o futuro - franchising
15) Comecei a desenvolver então a idéia do franchising. É importante saber que uma idéia destas não de desenvolve da noite para o dia. Aos poucos fomos analisando o mercado e percebemos diversas facetas para que o negócio fosse promissor para os franqueados. Temos muitos interessados atualmente em todo o Brasil, através de nosso cadastro na Internet.
Não é interessante abrir uma franquia que não dê certo, por isso estamos sendo bastante criteriosos com o momento econômico e as dificuldades que podem advir para os franqueados; surgem fatos novos todos os dias, e estamos montando uma equação com estrutura para dar segurança às nossas futuras células. Em 2001 abrimos uma loja-piloto de um Bazar Egípcio em Itú. Tratava-se de uma idéia interessante, genial, principalmente levando o nome de Khan el Khalili, que é o bazar do Cairo onde vendem-se souvenirs para turistas do mundo todo.. Sorte nossa que foi uma loja-piloto e não uma franquia em si. Em poucos meses descobrimos que a pessoa que teríamos como parceiro para trazer os produtos do Cairo ao Brasil, não tinha o menor preparo empresarial, agia de forma incorreta e seu conceito de organização não existia. Achamos conveniente então, encerrar as atividades com a loja-piloto. Ter a própria loja-piloto, foi um instrumento de testes que não tem preço. Isso favoreceu um forte “know-how” para oferecer aos futuros franqueados. Estamos reestruturando para nos iniciarmos nesta área.
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Um programa de TV homeopático
16) Tivemos a proposta para fazer um programa de TV. Ela continua de pé. Não é fácil! Aulas, entrevistas, reportagens, dança, egiptologia, culinária e muito o mais. Chegamos até a produzir um programa piloto que mais tarde foi ao ar pela CasablancaTV. A produção de 12 programas foi difícil e batia de frente com um momento de crise financeira no Brasil.
Não temos mais pressa para nada a essa altura do campeonato. O trabalho correto e honesto sempre trouxe os navios aos nossos portos. Nunca tivemos que copiar nada nem ninguém e sempre respeitamos nossas fontes de inspiração.
Com o tempo e a permanência no mercado, nossa opinião acabou se tornou para muita gente neste país, relevante e a ser levado em consideração. Nossa responsabilidade ficou grande... muito maior do que imaginávamos.
Assim foi...e continua sendo... desafios e mais desafios... com surpresas
conquistadas a cada dia.
Jorge Sabongi - Fevereiro 2002