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HISTÓRIA DA KHAN EL KHALILI |


Há exatamente 27 anos atrás, abriam-se as portas ao público da Khan el Khalili, Casa de Chá Egípcia - 22 de Julho, 1982. Para todos que vieram naquela noite foi uma aventura, para mim, um show de horrores misturado a satisfação de ter meu próprio negócio, depois de dois anos de preparativos.
Normalmente quando um negócio inicia-se na área de bares e restaurantes, na inauguração, acontecem inúmeras surpresas. Tem-se a presença de muitos amigos e pessoas que acompanharam os momentos de ansiedade até a concretização daquela data. Todos eles não pagam. É boca livre total. Pessoas que passam pela frente, veem o lugar cheio e pensam que o sucesso já bateu ali e resolvem parar. O titití é geral... todo mundo adora uma festa para falar...
Antes de entrar neste carrinho de trem fantasma, gostaria de abrir um pequeno parênteses: qualquer local recém-inaugurado, no dia em que abre suas portas, desconhece diversos pontos importantes: 1) a temperatura de seu público, 2) o funcionamento equilibrado da cozinha, 3) a quantidade exata de material para trabalhar, e, principalmente, 4) o atendimento ideal, desde a recepção até a satisfação total daqueles que virão pela primeira vez. Tudo é novidade e sendo assim, muita coisa escapa ao controle. Tudo pode acontecer! Para nós que administramos o primeiro dia, é necessário ter em mente que o "pânico" não pode acontecer, por mais desesperadora que esteja a situação no que diz respeito aos quatro itens acima. Foi assim que entrei nessa noite de inauguração...
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22 de Julho de 1982
Noite de Inauguração da Khan el Khalili
Naquela noite de 22 de Julho de 1982, veio muita gente à Khan el Khalili. Muita gente mesmo. A Casa, que parecia grande, imensa, tornou-se pequena. Amigos ajudavam na cozinha e nos fogões que não davam conta de produzir tudo o que era pedido. E gente chegando...
"Ei Jorge... quero tirar uma foto com você!"... Claro, vamos lá! E logo em seguida outro: "Jorgeeee... mas quanto tempo não nos vemos... parabéns pelo novo negócio; fico contente que esteja indo de vento em popa!" (a pergunta é: como ter essa noção? A maioria é convidado e a boca é livre - daqui a 30 dias teremos noção realmente disso). E gente chegando na Casa...
Desesperado eu corro para lá e para cá tentando controlar tudo para que nada saia imperfeito. Aquela tia que não via há 20 anos aparece na porta: "Queridoooooo....!!!" Meu Deus, e tanta coisa tendo que preparar da cozinha. Uma bandeja cai, levada por alguém sem prática, tudo quebra e faz um barulhão danado, mais parece uma cantina italiana. Risos altos, gente conversando, outros fazendo pose com um copo de bebida nas mãos. Alguns fumando num ambiente totalmente fechado e sem circulação de ar. Uma criança subindo numa cadeira... e pulando. Acho que vai pular na mesa. Acabou a música da fita cassete. Vai ficar sem som. Alguém coloque uma música por favor. Nisso me para um sujeito no meio de toda aquela balburdia: "Jorge, vem cá... me diz aqui, me conta tudo, tudo tim-tim por timtim....como foi que surgiu na sua cabeça a idéia de montar uma Casa de Chá Egípcia..." Acho que vou ter um infarto. E gente chegando...
Entro na copa e vejo o fogão com tantos canecões fazendo chás... cairam chás no chão. Tá uma loucura. Gente lavando louças, outras arrumando bandejas cheias de produtos, um atropelando o outro. A caixa de leite longa vida virou agora. Largaram a porta da geladeira aberta, como pode? Os três liquidificadores não param de fazer dezenas de sucos ... que barulho. Alguém me pergunta... "Como eu faço essa cesta de pães?... o que eu coloco nela para despachar este pedido?" A lixeira, sim a lixeira está cheia... tem que mudar o saco de lixo 100 litros. "Onde está a vodka?"; "Jorge, como eu bato o milk-shake?"; "Jorge estão te chamando para dar uma entrevista lá na recepção!"; "Alguém pode me arrumar trôco para o caixa?"; Entra alguém e grita angustiado: "Rápido, alguém bebeu demais e vomitou no banheiro... precisam limpar!" Meu Deus, que caos. Penso comigo: seria mais fácil se eu tivesse agora liderando uma classe de jardim da infância com 50 alunos... todos bêbados. E não para de chegar gente...
"Alguém tem aí uma lâmpada? Queimou a do corredor"; "Olhe..., minha senhora e eu estamos esperando uma mesa há 40 minutos, o senhor tem alguma sugestão?"; "Jorge, Jorge, um amigo seu tá lá no carro, pedindo para você ir lá para te dar um abraço pelo novo negócio". Socooorrooo!!! Porque ele não sobe, Cristo? "Disse que tá com pressa!"; Fala que eu tô indo.... "Mocinho, este chá está fraco, tem como melhorar ele e me esquentar um pouquinho?"; Penso eu: esquentar a senhora, dona? Acho que não vou poder, não!. Muita gente na porta... Boa noite... 4 pessoas?... sim, aguardem um pouquinho por favor que a recepcionista já vai acomodá-los. Preciso ir até a cozinha novamente... tem mesas que precisam ser servidas. O serviço está falho; "Cê sabe me dizer onde é o banheiro?" Por ali... naquela porta a esquerda. Tem uma sala inteira lotada e sem ser atendida. Cadê a garçonete da sala Principal? "Ela tá lá no fundo, chorando... tá com crise existencial. Sorrio ou me mato?
"Acabou o pão!" Como acabou o pão? Isso não pode faltar. Cai uma tampa de panela no chão. Que barulho infernal. É hora de ranger os dentes? Fecho os olhos e penso: calma!
Uma colega que ajudava servindo vem até mim: "Jorge, tenho que ir embora... hoje é aniversário de uma amiga minha e ainda tenho que ir visitá-la! Adorei te ajudar aqui." Claro, tudo bem... estamos com a mão-de-obra totalmente em dia. "O moço no caixa está dizendo que adorou, que vai voltar a semana que vem com 20 amigos e tem uma senhora que quer fazer reserva para o início da semana de uma sala inteira"; Enfim uma notícia boa. "Vem cá... você não pode me arrumar mais uma coxinha?"; "Isso aqui é brinde? (o quadro mais caro da casa?); "Jorge... tem um primo seu que quer desconto no caixa! Vai lá"; A noite promete...
Exatamente 6 horas depois desse rush... estava sozinho na sala Principal.
Feliz da vida por ter iniciado meu próprio negócio, morto de tanto resolver situações e problemas operacionais. Por um lado sorria, por outro chorava; nossa quanta coisa tenho que melhorar por aqui.... falei para mim mesmo... sorria... agora é hora de tomar um whisky para ficar mais calmo e desanuviar... Humm... bahhh... que coisa horrível.... nunca tomei whisky na vida, e descobri que detesto justamente esta noite. Fui até a pia da cozinha e esvaziei meu copo, ... sozinho, na madrugada, sem som, sem ninguém... dormi na primeira sala em que sentei e pisquei os olhos.
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| 22/Julho/1982 | 22/Julho/2009 |
Jorge Sabongi - Julho 2009