Índole e a capacidade de se auto-sabotar...

"A vida é um ping pong: tudo o que você faz volta, de alguma forma, para você. Pode demorar muitos e muitos anos, mas, tenha certeza, volta mesmo.
Pena que não descobrimos isso quando somos crianças. Aprenderíamos desde cedo que lapidar nosso caráter traz um efeito benéfico e multiplicador ao longo da vida e nos faz viver com mais conforto, tranqüilidade e sucesso.
É fácil perceber pessoas a nossa volta que têm problemas de índole e, por conseqüência, puxam seus próprios tapetes. Essa situação aparentemente caricata assemelha-se a um desenho animado, onde o personagem, no intuito de fazer algo em seu benefício, cai ao puxar o tapete em que está pisando. Vemos isso todos os dias!
Como dizer a essas pessoas que a deficiência está no caráter que elas desenvolveram? A má notícia é que, infelizmente, não existe cura. É o típico "pau que nasce torto, morre torto". Se você fizer o mesmo, obterá problemas em curtíssimo prazo.  Não se arrisque a pisar no mesmo tapete!".

Jorge Sabongi  

Não precisa ir muito longe para perceber o relatado acima, basta olhar no núcleo familiar. Todo mundo tem um tio, um cunhado, um primo, etc. , que sempre chuta as oportunidades para escanteio, por problemas de índole ou caráter. Não bastasse encrencar-se sozinho, leva todo mundo junto em suas “peripécias” e, por vezes, causa sérios danos aos mais próximos. Isso é patente em todas as famílias, pois todos são diferentes uns dos outros. Alguns reúnem-se no Natal ou em algum funeral para tentar uma proximidade entre tantos inaproximáveis.

No trabalho e nos círculos sociais ocorre o mesmo. A deformação no caráter de algumas pessoas desvirtua o objetivo de um grupo, cria animosidade nas relações e estabelece um clima tenso no dia-a-dia.

São pessoas que não aprenderam a lidar com limites, desconhecem a noção de respeito e convivência, não se afinam nas relações interpessoais, exageram nas brincadeiras e vivem num mundo que é uma redoma de desconfiança e falsidade. Em suas mentes, todos podem participar e merecem uma boa vida, contanto que elas sejam as primeiras da fila e tenham sempre os melhores benefícios. Enfim, atrás de uma deficiência de caráter existem diversas ramificações perniciosas que trazem malefícios para quem se envolve.

Nosso caráter se forma desde a tenra idade. Acredito que desde o ventre materno. Se uma gravidez se desenvolve de forma tranqüila e a criança tem um clima de calmaria em casa, isso influirá significativamente em seu caráter. Há uma série de fatores que se amalgamarão ao caráter de cada um: a conduta dos pais, a forma como direcionam os estímulos aos filhos, os bons exemplos, a ambientação de suas casas, as companhias e amizades dos primeiros anos, o positivismo ensinado, a maneira equilibrada em lidar com situações delicadas, o espírito empreendedor para fazer as coisas acontecerem, o hábito de resolver embaraços de forma instantânea em vez de procrastinar as situações e, principalmente, a honestidade. (Finalizo por aqui, porque se me aprofundar demais nesse ponto, teria que partir para um estudo científico, o que não é o caso.)

A maneira como lidamos com nossas experiências cotidianas, alegrias, decepções, problemas e soluções formará um licor que poderá ser o mais puro néctar ou o pior dos vinagres.

Para muitos, é difícil descobrir qual é o seu sabor real.

Boa índole não se ensina, infelizmente. Todavia, pode ser aprendida através dos exemplos e das experiências. É paradoxal algo que não se ensina, mas que se aprende, não? É simples explicar aspecto tão controverso: ocasionalmente, fala-se algo, por melhor que seja, a alguém e não se obtém a devida audiência; entretanto, ele aprende por meio da observação e das invertidas que lhe causam algum tipo de dor, seja sentimental ou física. É assim que funciona a índole.

Trata-se de uma tendência do ser humano de se auto-desenvolver, preferencialmente sem a imposição de terceiros.

O comportamento vem de dentro para fora. Se a pessoa, desde a mais tenra infância, acostuma-se a resolver de forma amarga, preconceituosa ou mesmo desonesta as situações apresentadas pela vida, terá sérios dissabores e problemas. Conheço pessoas que falam que "a vida não é generosa com elas", que "tudo o que tentam, não dá certo", que "não conseguem parar muito tempo em lugar nenhum, principalmente em empregos", e também que "inexplicavelmente, afastam aqueles de que mais gostam". É um processo de sabotagem, só que de si mesmo. Isso é apenas o fim da linha, a resposta definitiva, após diversas atitudes impensadas e mal direcionadas.

Elas não compreendem, por mais que se fale, que o problema está nelas mesmas. Têm uma sede absurda de sucesso e reconhecimento, mas, ao longo do caminho, puxam os tapetes por onde pisam e caem sempre. Sempre se vêem impingidas a recomeçar suas histórias e nunca dão conta do que já está iniciado. Aí vem o pior: encrencas e enrolações. Utilizam-se de mentiras e subterfúgios para tapar o buraco, piorando cada vez mais esse festival de crateras autofágicas.

Já viu aquelas pessoas que vivem enroladas? Se você fechar os olhos, com certeza, vai se lembrar de alguém assim. Ou de muitos...

Pessoas com deficiências de caráter simplesmente não funcionam: elas andam dois passos para frente, dois para trás (quando não retrocedem três). Não adianta dar chances. Tudo o que fazem de errado uma vez, farão a segunda. E todos nós sabemos que tudo o que acontece duas vezes, fatalmente acontecerá uma terceira, quarta, etc. Desista de tentar entender. Querer fechar os olhos para isso, e continuar acreditando numa mudança, fará de você um "lutador perdedor".

Meu primeiro emprego, aos 14 anos de idade, foi no departamento pessoal de uma metalúrgica. Foi a melhor experiência que eu poderia ter tido na vida em termos de psicologia. Observar o comportamento das pessoas quando entram nas empresas, através das entrevistas, e o triste transcorrer de algumas devido a problemas causados por uma índole deformada, até chegar a demissão por justa causa. Suas atitudes tinham sempre um cunho maldoso, pernicioso.

O mundo cuida de fechar as portas a essas pessoas.

Sempre falo para todos: pode-se transformar uma pessoa que trabalha e não conhece nada do serviço num grande executivo, desde que ela tenha vontade e perseverança. Uma pessoa com problemas de caráter não passa dos 30 dias de experiência. Caso insista em mantê-la, fatalmente terá dor de cabeça.

Quer saber como é sua índole? Imagine se você estivesse sendo filmado(a) nos últimos 30 dias em todas as suas atitudes. Esqueça os momentos de sono e higienização. Leve em consideração suas “atitudes de bastidores” ou quando você está só. Quantas imagens você aprovaria para ir ao ar, sem cortes, em rede nacional?

Pessoas de índole má possuem atitudes que não podem ser mostradas publicamente. Elas têm comportamento problemático em seus bastidores. Tudo o que fazem visa o benefício próprio ou o prejuízo de outrem. Para ter noção do caráter de alguém, você precisa ser um observador do mundo, detendo-se, principalmente, nas atitudes de quem lhe rodeia.

As pessoas notam sua índole de diversas formas, especialmente nos seus procedimentos. Repare, fundamentalmente, o seu linguajar, a expressão facial, os gestos, a postura. A partir do momento em que você consegue adquirir um felling nesse sentido, dificilmente se enganará com as pessoas.

O mundo corrompe o ser humano por meio de seus exemplos. Somos colocados à prova desde a primeira infância. Isso permanece enquanto estivermos vivos. Traços de caráter são sulcos na personalidade, gravados para toda a existência.

Como não sucumbir diante da mediocridade? Diariamente somos expostos a ações que nos impelem a gerar reações impróprias. São os nossos princípios, desenvolvidos desde os primeiros anos de nossas vidas, que vão manter as bases estáveis para lançar sua âncora no local preciso, permitindo que saiba até onde é permitido ir e quando parar. Seu conceito de valores (o que é importante e o que não é, o que é certo e o que é errado, etc.) é que evita a distorção de seu caráter.

Vivemos em sociedade, apesar de haver momentos que todos sonharíamos ser Robson Crusoé. Na medida do possível, a regra básica é formar um cinturão de equilíbrio em sua vida, no qual não haja espaço para a entrada de pessoas com má índole. Seu círculo social deve estar isento de pessoas assim.

Existe um ditado árabe que diz: "Quer conhecer a índole de um homem, observe como ele reage nos momentos em que está com raiva".

Formar um time de pessoas vencedoras, equilibradas e tranqüilas, requer uma garimpagem de caráter daqueles que você escolhe como parceiros. Coloque critério em suas escolhas e lembre-se: não adianta dar chances.

No âmbito familiar funciona da mesma forma. Meu pai já dizia: "para família, devemos ser sempre visitas: chegamos, cumprimentamos, conversamos um pouco, tomamos um bom café e vamos embora. Mais do que isso, acarretará prejuízo". E é verdade: compartilhar índoles que batem de frente com a nossa, bastam algumas horas.

Jorge Sabongi - Agosto/2004


revisão editorial:   Andrea Loli  (Brasília - DF)