| "Como" e "Quando" começou no Brasil |
por Jorge Sabongi
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Revisto e ampliado em 08/Abril/2008
Em
geral, três músicos tocavam num pequeno palco (alaúde, derback
e dâff), e num determinado momento do jantar, eram chamadas uma
ou duas bailarinas, para fazerem suas apresentações.
Hoje,
após três décadas, as sementes da dança oriental, permanecem
frutificando. Mesmo após estes locais terem encerrado suas
atividades, ao longo dos anos 80 a dança começou a exercer
tremendo fascínio nas mulheres brasileiras, assim como no resto
do mundo.
Na
verdade, a sugestão destas "Noites Egípcias" com
dança do ventre na Casa de Chá, na época, foi mencionada pelo Sr. e Sra. Ashmawi (egípcios natos e amigos da casa), como forma
de aproximar e mostrar aos brasileiros um pouco da riqueza da
cultura egípcia.
Lulu,
iniciou seu aprendizado com Shahrazade
e acabou tornando-se uma grande estrela dentro da Casa de Chá em
pouco tempo. A foto ao lado, data de 1984/85.Numa dessas noites, Sharazade-a mestra, foi assistir Lulu-a aluna, dançar na Khan el Khalili e tirou da bolsa, de repente seus "snujs" (címbalos de metal). Adorei a forma como ela tocava ao assistir a dança de Lulu. Fiquei visívelmente deslumbrado. Seus dedos davam ritmo e vida a dança.
Na semana
seguinte, tratei de encomendar um jôgo de snujs para mim e
comecei a minha odisséia de aprender a tocar, por conta
própria, este instrumento. Gostava tanto, que em pouco
tempo já fazia malabarismos com eles. Acabara me tornando
uma atração dentro da Casa, junto com a dança. Quando eu
não tocava, reclamavam. Quem diria?
De lá para
cá, são 18 anos. Diversas gerações de bailarinas se
apresentaram desde então; acredito eu, pessoalmente, que o marco
inicial, o qual desencadeou o processo da dança para o grande
público no Brasil, data do momento em que se apresentavam Lulu e Fátima Fontes. Em seguida, em 1986 vieram Najua, Laila e Kareema. Por volta de 1987, chegou Shams, seguida em 1988, por
Dalila, Nura e Ramda.
De nosso antigo grupo, tantas coisas já aconteceram. Kareema hoje está na Alemanha; Serena se casou com um percussionista e mora na Inglaterra; Dunia mudou-se para Alemanha e dançou na Europa durante quatro anos; atualmente, de volta ao Brasil, está em Curitiba e é nosso referencial por lá. Najua dançou nos Emirados Árabes por seis meses enriquecendo sua dança e também hoje encontra-se em São Paulo, onde continua desenvolvendo seu trabalho como professora. Safira retornou sua dança na Casa de Chá. Munira morou no Egito por um tempo e hoje, também retornou aos nossos shows.
Uma das características mais importantes que imprimimos, desde cedo, nas apresentações de dança da Casa de Chá, sempre foi o "improviso". Os shows nasciam no exato momento em que estavam sendo executados, ao sabor da música, do público e da disponibilidade criativa da bailarina.

Kareema em momento antológico
Vale
mencionar todas da Nova Geração de 1997: Yasmin Namú (aluna de Laila), Mayara, Shiraman, Aisha, Ágata, Salua, Lainah,
Zur, Vivi, Amar, Sabah, Dúnia La Luna, Iman e Naila (a primeira bailarina japonesa - um encanto, hoje
morando nos E.U.A.). Todas em desenvolvimento simultâneo.
Elas também tiveram parcela significativa na progressão geométrica que aconteceu desde então.
Suas apresentações do dia-a-dia na KK, mostram-nos cada vez mais, uma diversidade de estilos e características nos movimentos. Cada público acaba encontrando sua predileção. E elas todas, criando um incentivo cada vez maior nas mulheres que as assistem. Isso gera mais e mais interêsse no aprendizado da dança.
É interessante ver as bailarinas da Nova
Geração dançando pela primeira vez no palco. Esta
experiência você tem ao assistir o vídeo dos 15 anos de dança
de Lulu. Todas as apresentações frutos de
improviso.
Um vídeo que, mais do que a lembrança de uma festa, marca uma época áurea da dança do ventre: o desenvolvimento de um grupo grande e totalmente novo dentro da Casa de Chá.
O que ficou gravado naquela noite de 21 de Agosto de 1998, foi o início de uma fase, que agora se acelera a cada dia que passa. Se você assistí-las nos dias de hoje, conseguirá perceber visívelmente as mudanças na dança de cada uma. E elas vem para melhor.
A dança do ventre não é um aprendizado, mas sim uma jornada. Cada dia, é mais um degrau. Cada ano, novas possibilidades.
O período de maior florescimento da dança, criou um segundo "momentum". A necessidade de aprendizado levou ao aparecimento de novas perspectivas. Workshops nasceram e a curiosidade sempre crescente, funcionou como fermento. Em todos os lugares propostas e temas apareciam, movimentando um mercado emergente de dança.
Muitas das bailarinas que fizeram parte desta época
já se foram. Afinal são quase 20 anos de dança. Cada uma
delas, em especial, deixou sua marca, através de seus movimentos
e graça; foram seguidas posteriormente, por centenas de
mulheres, que ainda estudam seus movimentos e admiram sua arte.
Ao assistir
uma apresentação de dança na Khan el Khalili, as mulheres
ficam surpresas e encantadas com a delicadeza e habilidade que
esta dança proporciona, os quadris traduzidos em música, as
mãos desenhando pelo ar, os trajes e o mito de princesa.
Sem falar na fantasia sobre o poder sedutor desta arte milenar.
Acima de tudo, as aulas funcionam como um convite pois a mulher que conhece seu corpo como ninguém, respeita e cultua suas crenças, traz de volta para sí através dessa prática, antiga como o curso dos rios que nunca secam, uma profunda ligação com suas raízes ancestrais. Eis o grande prazer de ser mulher.

Khan el Khalili em 1982
A dosagem certa e o ponto da receita, não resta dúvidas, só a Khan el Khalili acertou ao longo de tantos anos. Isso motivou a criação da franquia que está sendo preparada.
Em março
de 1998, surgiram as Noites
no Harém. O espetáculo
máximo da dança no país. As "melhores das
melhores", em apresentações inéditas, todos os
domingos. Um grande marco para mostrar ao público, quem
faz a dança realmente acontecer. As grandes estrelas lá
estão. Toda bailarina sonha um dia dançar nas
Noites no Harém. Um público especial, cativante, e
sedento por dança.
Noites com apresentações de conjuntos árabes "ao vivo", danças folclóricas diversas, inovações, performances, homenagens e tributos, tudo dentro da cultura, no melhor molde oriental. No momento que esta página está sendo revista, já aconteceram 600 Noites no Harém, e estamos completando seu 10º. Aniversário.
É um
grande orgulho e prazer para a Casa de Chá Egípcia, permanecer
como um local tradicional, durante todos esses anos.
Evidente, que isso nem sempre agradou à todos.
Porém, de norte a sul, ninguém contesta o nível e a qualidade do trabalho que é apresentado por esta equipe de profissionais.
Durante
as apresentações na casa, você tem a oportunidade de assistir
diversas gerações de bailarinas, desde aquelas que ainda estão
se desenvolvendo, até as grandes estrelas, já
conceituadas. Todas desenvolvem características próprias
em seus movimentos ao longo dos anos. É um grande laboratório de dança do ventre em
nosso país.
Até hoje, a
casa tem presenciado e recebido em seus ambientes as maiores
representantes desta arte. Brasileiras e estrangeiras que
vem de todas as partes, fazem questão de nos visitar. Isso
nos motiva a apresentar um trabalho cada vez mais elaborado.
A Revista Khan el Khalili, veio coroar a possibilidade, juntamente com a
Internet, de divulgar da cultura árabe e da dança do ventre de
uma forma mais abrangente.
Os vídeos didáticos de Lulu
Sabongi (da Série - "A
Arte da Dança do Ventre"), teve seu
primeiro título lançado em 1993, inaugurando de forma inédita
os vídeos didáticos em nosso país. Essa coleção foi em
grande parte responsável pela divulgação da dança,
facilitando as mulheres de todos os pontos, o acesso a este tipo
de informação. Chegaram a pontos distantes e
surpreendentes. A cada dia uma surpresa: a Espanha,
Noruega, Islândia, USA, Austrália, Chile, Argentina e Venezuela
e muitos outros países, mantêm contato, enviando suas
impressões acerca do que aprenderam através dos vídeos e
didática de Lulu.
Os CDs didáticos com os ritmos árabes, auxiliam no aprendizado e assimilação da dança do ventre em salas de aulas, todos os dias.
E nós... construimos e fortificamos cada vez mais este grupo. Mesmo com todas as dificuldades pertinentes ao fato de agrupar muitas mulheres num mesmo espaço trabalhando juntas e exercitando a beleza em suas diversas facetas, permanece a sensação de pertencer a algo maior. Existe uma união que resiste a todas as intempéries.
Em pé (da esquerda
para direita): Nevenka, Pallú, Rose, Dunia, Jorge, Chalita,
Zur, Shiraman e Amar;
Sentadas: Shams, Soraia, Lainah e Shahar; No
chão: Mayara, Tati, Lulu, Ágata e Vivi
Faltam na foto:
Fátima, Hayet, Yasmin Namú, Jade, Nar, Aisha, Salua,
Lydia, Tahia, Amira,
Kahina, Nadia, Maya, Dahab, Danny, Thais, Charis, Shadyah, Leila,
Juliana, Samya-Ju,
Aziza-Mor, Monah, Monica, Marcia Lima, Yasmine Amar. (FEV/2001)
Evidentemente que reunir todas num mesmo dia para uma foto, é praticamente impossível, em função das atividades de cada uma.
Hoje contamos mais de 200 bailarinas qualificadas para dançar na escala da casa mensalmente. O grupo completo, só se encontrou uma única vez até hoje: na Grande Festa dos 15 anos da Khan el Khalili, no palco do Esporte Clube Sírio, em 24 de Novembro de 1997, na entrega dos abays (mantos pretos de veludo). Foi a única vez na história da Casa, que foram vistas todas juntas. E ainda assim, hoje o grupo já não é o mesmo, portanto a próxima vez será de novo a primeira.
Todos os anos, através da Pré-Seleção de Bailarinas, em média 20 novos talentos são descobertos. Todas elas, recebendo em diversos estados brasileiros o "Certificado de Padrão de Dança do Ventre de Qualidade", aprovado por banca examinadora, escolhida com todo o cuidado por sua experiência e reputação no mercado de dança árabe.
Soraia Zaied e Lulu desenvolveram e coreografaram o Grupo Folclórico Khan el Khalili, composto por 20 integrantes. O objetivo deste grupo estava ligado ao estudo e divulgação das danças do folclore egípcio.
Novas
estrelas se revelam e as portas estão abertas à todas aquelas
que desejam entrar...mas sempre se lembre do que dizia um antigo
filósofo:
"A porta é larga mas é baixa, sempre entre com cuidado!"
Afinal, a dança do ventre ainda está começando no Brasil...
Jorge Sabongi - Março/2001