"Como" e "Quando" começou no Brasil

por Jorge Sabongi


Revisto e ampliado em 08/Abril/2008

Em nosso país, no início dos anos 70, alguns restaurantes árabes como Semíramis, Bier Maza e Porta Aberta possuiam apresentações de dança do ventre como atração para seu público frequentador (em sua maioria, pessoas da colônia árabe).

Em geral, três músicos tocavam num pequeno palco (alaúde, derback e dâff), e num determinado momento do jantar, eram chamadas uma ou duas bailarinas, para fazerem suas apresentações. 

Surgia a primeira geração de bailarinas no Brasil.  Eram elas, Shahrazad, Samira, Rita, Selma, Mileidy e Zeina.

Hoje, após três décadas, as sementes da dança oriental, permanecem frutificando.  Mesmo após estes locais terem encerrado suas atividades, ao longo dos anos 80 a dança começou a exercer tremendo fascínio nas mulheres brasileiras, assim como no resto do mundo.

Não se pode negar que a procura pelo desenvolvimento da dança e pelos benefícios que ela trás consigo para todas as mulheres, desencadeou-se geométricamente, a partir do momento que ela começou a ser divulgada através da Khan el Khalili em 1983, em suas Noites Egípcias.  Na primeira delas, dançaram: Samira (que realiza anualmente o Mercado Persa), Rita, Selma, Rosana e Mileidy.

Na verdade, a sugestão destas "Noites Egípcias" com dança do ventre na Casa de Chá, na época, foi mencionada pelo Sr. e Sra. Ashmawi (egípcios natos e amigos da casa), como forma de aproximar e mostrar aos brasileiros um pouco da riqueza da cultura egípcia.

À eles, devemos nosso profundo respeito e carinho, por terem-nos concedido tal idéia a qual, abraçamos para o resto de nossas vidas, sempre procurando apresentar o melhor. 

Lulu, iniciou seu aprendizado com Shahrazade e acabou tornando-se uma grande estrela dentro da Casa de Chá em pouco tempo.  A foto ao lado, data de 1984/85.

Numa dessas noites, Sharazade-a mestra, foi assistir Lulu-a aluna, dançar na Khan el Khalili e tirou da bolsa, de repente seus "snujs" (címbalos de metal).  Adorei a forma como ela tocava ao assistir a dança de Lulu.  Fiquei visívelmente deslumbrado.  Seus dedos davam ritmo e vida a dança.  

Na semana seguinte, tratei de encomendar um jôgo de snujs para mim e comecei a minha odisséia de aprender a tocar, por conta própria, este instrumento.  Gostava tanto, que em pouco tempo já fazia malabarismos com eles.  Acabara me tornando uma atração dentro da Casa, junto com a dança.  Quando eu não tocava, reclamavam.  Quem diria?

 

 

De lá para cá, são 18 anos.  Diversas gerações de bailarinas se apresentaram desde então; acredito eu, pessoalmente, que o marco inicial, o qual desencadeou o processo da dança para o grande público no Brasil, data do momento em que se apresentavam Lulu e Fátima Fontes. Em seguida, em 1986 vieram Najua, Laila e Kareema. Por volta de 1987, chegou Shams, seguida em 1988, por Dalila, Nura e Ramda.

Até 1992, este foi o grupo que permaneceu, quando então chegaram: Soraia Zaied, Rosana Chalita e Safira.

Em 1994 surgiram Serena, Khadija, Shahar Badri, Munira Maharib, e Hayet Xerfan. Coroando o final desta geração vieram Pallú, Dyvia Djy e Dúnia em 1995 e Jade em 1996

De nosso antigo grupo, tantas coisas já aconteceram. Kareema hoje está na Alemanha; Serena se casou com um percussionista e mora na Inglaterra; Dunia mudou-se para Alemanha e dançou na Europa durante quatro anos; atualmente, de volta ao Brasil, está em Curitiba e é nosso referencial por lá. Najua dançou nos Emirados Árabes por seis meses enriquecendo sua dança e também hoje encontra-se em São Paulo, onde continua desenvolvendo seu trabalho como professora.  Safira retornou sua dança na Casa de Chá.  Munira morou no Egito por um tempo e hoje, também retornou aos nossos shows.  

Esta equipe, com todas as bailarinas mencionadas acima, na minha opinião, são responsáveis por tudo isso que existe hoje, em termos de dança do ventre.  De uma forma ou de outra, todas ofereceram sua contribuição.  Chegou-se então, a progressão geométrica.

Uma das características mais importantes que imprimimos, desde cedo, nas apresentações de dança da Casa de Chá, sempre foi o "improviso".  Os shows nasciam no exato momento em que estavam sendo executados, ao sabor da música, do público e da disponibilidade criativa da bailarina.


Kareema em momento antológico

A partir de 1997, aparecia uma turma nova, que chamamos de "Nova Geração" de bailarinas.  Práticamente uma média de 10 a 15 estágiárias incorporavam-se ao grupo, vindas das aulas de dança do ventre que aconteciam na Khan el Khalili, através principalmente de Lulu Sabongi, não tirando os méritos de Soraia Zaied e Shahar Badri.

Vale mencionar todas da Nova Geração de 1997: Yasmin Namú (aluna de Laila), Mayara, Shiraman, Aisha, Ágata, Salua, Lainah, Zur, Vivi, Amar, Sabah, Dúnia La Luna, Iman e Naila (a primeira bailarina japonesa - um encanto, hoje morando nos E.U.A.).  Todas em desenvolvimento simultâneo.

Elas também tiveram parcela significativa na progressão geométrica que aconteceu desde então.

Suas apresentações do dia-a-dia na KK, mostram-nos cada vez mais, uma diversidade de estilos e características nos movimentos.  Cada público acaba encontrando sua predileção.  E elas todas, criando um incentivo cada vez maior nas mulheres que as assistem.  Isso gera mais e mais interêsse no aprendizado da dança. 

 É interessante ver as bailarinas da Nova Geração  dançando pela primeira vez no palco.  Esta experiência você tem ao assistir o vídeo dos 15 anos de dança de Lulu.  Todas as apresentações frutos de improviso.  

Um vídeo que, mais do que a lembrança de uma festa, marca uma época áurea da dança do ventre: o desenvolvimento de um grupo grande e totalmente novo dentro da Casa de Chá.  

O que ficou gravado naquela noite de 21 de Agosto de 1998, foi o início de uma fase, que agora se acelera a cada dia que passa.  Se você assistí-las nos dias de hoje, conseguirá perceber visívelmente as mudanças na dança de cada uma.  E elas vem para melhor.

A dança do ventre não é um aprendizado, mas sim uma jornada.  Cada dia, é mais um degrau.  Cada ano, novas possibilidades.

O período de maior florescimento da dança, criou um segundo "momentum".  A necessidade de aprendizado levou ao aparecimento de novas perspectivas.  Workshops nasceram e a curiosidade sempre crescente, funcionou como fermento.   Em todos os lugares propostas e temas apareciam, movimentando um mercado emergente de dança.

Muitas das bailarinas que fizeram parte desta época já se foram.  Afinal são quase 20 anos de dança. Cada uma delas, em especial, deixou sua marca, através de seus movimentos e graça; foram seguidas posteriormente, por centenas de mulheres, que ainda estudam seus movimentos e admiram sua arte.

Ao assistir uma apresentação de dança na Khan el Khalili, as mulheres ficam surpresas e encantadas com a delicadeza e habilidade que esta dança proporciona, os quadris traduzidos em música, as mãos desenhando pelo ar, os trajes e o mito de princesa.  Sem falar na fantasia sobre o poder sedutor desta arte milenar.

Acima de tudo, as aulas funcionam como um convite pois a mulher que conhece seu corpo como ninguém, respeita e cultua suas crenças, traz de volta para sí através dessa prática, antiga como o curso dos rios que nunca secam, uma profunda ligação com suas raízes ancestrais.  Eis o grande prazer de ser mulher.

Durante os anos de nossa permanência no mercado, diversos locais abriram e fecharam suas portas, pois a grande maioria negligenciava  componentes e detalhes essenciais, tais como por exemplo a qualidade da dança a ser apresentada.  


Khan el Khalili em 1982

A dosagem certa e o ponto da receita, não resta dúvidas, só a Khan el Khalili acertou ao longo de tantos anos.  Isso motivou a criação da franquia que está sendo preparada.

Em março de 1998, surgiram as Noites no Harém.  O espetáculo máximo da dança no país.  As "melhores das melhores", em apresentações inéditas, todos os domingos.  Um grande marco para mostrar ao público, quem faz a dança realmente acontecer.  As grandes estrelas lá estão.   Toda bailarina sonha um dia dançar nas Noites no Harém.  Um público especial, cativante, e sedento por dança.

Noites com apresentações de conjuntos árabes "ao vivo", danças folclóricas diversas, inovações, performances, homenagens e tributos, tudo dentro da cultura, no melhor molde oriental.  No momento que esta página está sendo revista, já aconteceram 600 Noites no Harém, e estamos completando seu 10º. Aniversário.

É um grande orgulho e prazer para a Casa de Chá Egípcia, permanecer como um local  tradicional, durante todos esses anos.  Evidente, que isso nem sempre agradou à todos.

Porém, de norte a sul, ninguém contesta o nível e a qualidade do trabalho que é apresentado por esta equipe de profissionais.

 Durante as apresentações na casa, você tem a oportunidade de assistir diversas gerações de bailarinas, desde aquelas que ainda estão se desenvolvendo, até as grandes estrelas, já conceituadas.  Todas desenvolvem características próprias em seus movimentos ao longo dos anos.  É um grande laboratório de dança do ventre em nosso país.

Até hoje, a casa tem presenciado e recebido em seus ambientes as maiores representantes desta arte.  Brasileiras e estrangeiras que vem de todas as partes, fazem questão de nos visitar.  Isso nos motiva a apresentar um trabalho cada vez mais elaborado.

Aproximadamente 50% das pessoas que visitam nossos sites, são de outros países, em especial dos EUA.  

A Revista Khan el Khalili, veio coroar a possibilidade, juntamente com a Internet, de divulgar da cultura árabe e da dança do ventre de uma forma mais abrangente.

Os vídeos didáticos de Lulu Sabongi (da Série - "A Arte da Dança do Ventre"), teve seu primeiro título lançado em 1993, inaugurando de forma inédita os vídeos didáticos em nosso país. Essa coleção foi em grande parte responsável  pela divulgação da dança, facilitando as mulheres de todos os pontos, o acesso a este tipo de informação.  Chegaram a pontos distantes e surpreendentes.  A cada dia uma surpresa: a Espanha, Noruega, Islândia, USA, Austrália, Chile, Argentina e Venezuela e muitos outros países, mantêm contato, enviando suas impressões acerca do que aprenderam através dos vídeos e didática de Lulu.

Os CDs didáticos com os ritmos árabes, auxiliam no aprendizado e assimilação da dança do ventre em salas de aulas, todos os dias.

E nós... construimos e fortificamos cada vez mais este grupo. Mesmo com todas as dificuldades pertinentes ao fato de agrupar muitas mulheres num mesmo espaço trabalhando juntas e exercitando a beleza em suas diversas facetas, permanece a sensação de pertencer a algo maior. Existe uma união que resiste a todas as intempéries. 

 
Em pé (da esquerda para direita): Nevenka, Pallú, Rose, Dunia, Jorge, Chalita, Zur, Shiraman e Amar;
Sentadas: Shams, Soraia, Lainah e Shahar;  No chão: Mayara, Tati, Lulu, Ágata e Vivi
Faltam na foto: Fátima, Hayet, Yasmin Namú,  Jade, Nar, Aisha, Salua, Lydia, Tahia, Amira,
Kahina, Nadia, Maya, Dahab, Danny, Thais, Charis, Shadyah, Leila, Juliana, Samya-Ju,
Aziza-Mor, Monah, Monica, Marcia Lima, Yasmine Amar. (FEV/2001)

Evidentemente que reunir todas num mesmo dia para uma foto, é praticamente impossível, em função das atividades de cada uma.

Hoje contamos mais de 200 bailarinas qualificadas para dançar na escala da casa mensalmente.  O grupo completo, só se encontrou uma única vez até hoje: na Grande Festa dos 15 anos da Khan el Khalili, no palco do Esporte Clube Sírio, em 24 de Novembro de 1997, na entrega dos abays (mantos pretos de veludo).  Foi a única vez na história da Casa, que foram vistas todas juntas. E ainda assim, hoje o grupo já não é o mesmo, portanto a próxima vez será de novo a primeira.

      Todos os anos, através da Pré-Seleção de Bailarinas, em média 20 novos talentos são descobertos.  Todas elas, recebendo em diversos estados brasileiros o "Certificado de Padrão de Dança do Ventre de Qualidade", aprovado por banca examinadora, escolhida com todo o cuidado por sua experiência e reputação no mercado de dança árabe.  

Soraia Zaied e Lulu desenvolveram e coreografaram o Grupo Folclórico Khan el Khalili, composto por 20 integrantes.   O objetivo deste grupo estava ligado ao estudo e divulgação das danças do folclore egípcio.  

Novas estrelas se revelam e as portas estão abertas à todas aquelas que desejam entrar...mas sempre se lembre do que dizia um antigo filósofo:

"A porta é larga mas é baixa, sempre entre com  cuidado!"

Afinal, a dança do ventre ainda está começando no Brasil...

 

Jorge Sabongi - Março/2001