O FENÔMENO "CLONE"

Muitos que visitam a Casa de Chá nos últimos meses sempre perguntam: "E aí? ...a novela "O Clone" tem influído em alguma coisa para vocês?"  Não restam dúvidas que sim, que um veículo de massa como  a Rede Globo, ainda mais apresentando uma novela temática, numa época onde só se falam de árabes no mundo inteiro, teria que representar alguns efeitos.  Felizmente, bastante positivos em nosso país.  Funcionou como um sedativo sociológico e elucidativo num momento em que ficamos todos pasmos com o ocorrido em 11 de Setembro.  Na primeira semana após o ocorrido com o World Trade Center, muita gente sequer saia de casa.  Em muitos países, houve uma confusão cultural generalizando tudo, e não se sabia o que pensariam do povo árabe após tudo aquilo.  A novela contornou com maestria, mostrando muitos lados da cultura, sequer imaginados antes pelo povo brasileiro...

Mas voltemos ao assunto inicial...

Evidentemente que o comentário sempre suscita a possibilidade da "melhoria financeira" advinda através da novela.  Na verdade o que as pessoas perguntam subliminarmente é: "E aí? ... tá ganhando muito dinheiro com a novela?".  Seria demagogia nossa dizer que foi "bonzinho" o movimento depois que a novela foi ao ar.  Em todos os segmentos relativos à área, que lidam direta ou indiretamente com a cultura árabe, está havendo um aquecimento gradual, não total, mas gradual.  E eu explico: "é gradual porque para a maioria esmagadora dos brasileiros, tudo que diga respeito à cultura árabe e ao islamismo é 100% novidade, portanto a assimilação demora algum tempo até se estabelecer de fato".

O retorno disso se traduz em pagar as contas em dia e cultivar esperanças para o futuro.  Num pais como o nosso, onde desde o Plano Collor, andar na contra-mão do mundo é uma regra, acredito que é um grande avanço.  Um assunto, relativamente (ou totalmente???)  novo, levado ao ar diariamente no horário nobre, mobiliza a massa brasileira... e o mais interessante, está fazendo o nosso povo sonhar novamente.  Num amor impossível (?) daqueles encontros e desencontros entre Jade e Lucas, a identificação de milhares de brasileiros e brasileiras vira assunto no dia seguinte, no caminho para o serviço ou mesmo no  trabalho.

E a poligamia então? Os castigos pela desobediência aplicados pelo homem, conflitando ditames muçulmanos com situações nunca vividas antes por nós aqui na área ocidental?  "O Clone" é, sem dúvidas, um manancial de novidades para quem achava que já havia visto de tudo na teledramaturgia.

Não tem quem não goste de ver aquelas ruas do Marrocos, onde o mistério se mescla com a curiosidade.  Como seria estar lá presente?  Vestir aquelas roupas, comprar aqueles objetos diferentes, observar aquelas pessoas extremamente pitorescas em seus hábitos...O sonho caminha para todos a passos largos e o Brasil inteiro se liga naquela uma hora, como uma fuga do dia-a-dia difícil.

A verdade é que o assunto tem sido levado à sério.  Cada país árabe (são 22 no total), tem suas diferenças culturais, apesar de todos falarem o idioma árabe e seguirem em quase sua totalidade à religião muçulmana(90%).  É uma realidade: em nosso país, muita gente acha que vestiu uma túnica e usou turbante... é tudo turco (a Turquia só tem duas coisas com os árabes: a proximidade geográfica e a religião).  Quando referem-se à cultura árabe, falam: "Lá nas suas terras das arábias...".  Tem até aquele caso de pessoas que perguntam: "Você é árabe ou é muçulmano?".  Fazem uma confusão de regiões, nacionalidades, geografia, religião... e até épocas: tem muita gente que acha que no Egito ainda tem faraós...


É egípcio ou é árabe?

O Egito é um dos 22 países árabes.
A título ilustrativo, apresentamos abaixo os períodos da
História do Egito. As datas diferem um pouco nos livros de história, mas o básico é entender como transcorreram os períodos: 

1) Período Pré-Dinástico  copta (4.500 à 3.000 A.C.- poucos registros encontrados)
2) Período Faraônico  copta (3.100 A.C. até 332 A.C. - dinástico) 
3) Período Persa  copta (332 A.C. até 323 A.C.)
4) Período Greco-Romano (ptolomaico) copta-cristã (323 A.C. até 330 D.C.)
5) Período Bizantino (turco) copta-cristã (330 D.C. a 641 D.C.) 
6) Período Islâmico (árabes) muçulmano (a partir de 641 D.C. - Século VII)

Antes, dentro da casa de chá, muito do que mostrávamos ou fazíamos, pedia explicações extras aos clientes, como os traços da cultura!   Tivemos até que criar um folheto explicativo de 24 páginas que distribuímos gratuitamente desde 1989.  Atualmente, muita coisa não precisa ser esclarecida, pois a TV faz isso por nós, através das imagens.

Agora... o engraçado é o que vem atrás da locomotiva... a mídia que segue os passos da Globo, correndo atrás da dança do ventre, tentando mostrar à toque de caixa, em todos os pontos, sem critérios, nem filtrar nada, uma miscelânea de bailarinas e aprendizes de última hora, sem o menor preparo, criando um mar de confusão na cabeça daqueles que começam a ver a dança como mágica.  Evidente, se não houver uma banalização do assunto, a audiência não acontece.

Para a mídia em geral, dança do ventre é uma só: aquela que a mulher mexe a barriga.  Aperta o play e põe uma menina bonita para tentar "seguir a música".  É o que acontece.  Se ela for sensual, melhor ainda.  Colocando a parte estética na dianteira, fica mais fácil disfarçar com a beleza, a falta de coordenação motora e o desconhecimento dos passos da suposta bailarina.  Dança do ventre é muito mais...

Vou fazer uma analogia rápida: imagine o time do colégio local, jogando basquete com o "dream team" americano.  Essa é a diferença que já existe nas bailarinas brasileiras.  Muitas delas deveriam pertencer à "NBA da dança do ventre".  Não é de agora que nosso país exporta bailarinas de alto nível para dançar no Oriente Médio.  Portanto, a mídia ainda tem muito o que aprender sobre "a arte da dança"; sobre as grandes estrelas e as aprendizes.

Já recusamos, ao longo dos anos, dezenas de aparições em programas e matérias escritas polêmicas, em função da deturpação que isso gera, e principalmente, por ser contra nossos princípios em relação à "arte".  Somos de opinião que se não é para fazer bem-feito, é melhor não fazermos.  

Um exemplo disso é homem dançando dança do ventre: "não existe e pronto; em muitos países árabes, como Egito, Arábia Saudita, Líbano é passível de morte; eles não aceitam o homossexualismo e é regra deles, é assim há milênios".  Mesmo assim, a mídia gosta de colocar no ar, homens dizendo e inventando estórias de almanaque sobre eles dançarem como na antiguidade.   A criação de um paralelo entre o corpo homem/mulher dançando a dança do ventre não existe.  É uma beleza exclusiva do universo feminino.

A verdade é uma só:  assim como o brasileiro sempre negligenciou o estudo da geografia e história dos povos árabes, a mídia também o fez.  Estão todos começando do zero.  Evidentemente que impulsionados pela locomotiva puxada pela novela transmitida pela Rede Globo de Televisão.  

Ao longo de quase duas décadas, sempre soubemos e provamos para diversas produções de programas e revistas que "dança do ventre" e cultura árabe dão Ibope.  Existe um interesse natural, se você está mudando de canal e aparece uma bailarina bonita e dançando bem, ou alguém vestido com trajes árabes;  você imediatamente para para ver o que é.  Isso não acontece com centenas de motes, mesmo na TV a cabo.  O assunto "árabe" sempre interessa.  Chama a atenção.  Você muda de canal, muda, muda, muda... e chega a conclusão que não acha nada que valha a pena ver, ou perder seu tempo.

A Globo atentou para este detalhe... e colocou o que todo mundo quer ver no ar.  Demorou, mas colocou.  Agora vem todo mundo atrás... e ainda nem começou!  Quer dizer, a febre pela dança já está acontecendo e bem forte.  A procura pela música vai começar a explodir e trazer muita coisa ao mercado em seguida.  Diversos outros segmentos estão sendo estimulados, oferecendo sinais de recuperação: bijuterias, galabias (túnicas árabes), roupas específicas para apresentações de dança, arguiles, decorações orientais, objetos, estatuetas e mimos árabes, aulas para aprendizado do idioma, ....e por aí vai).

Veja por exemplo aquela pulseira que algumas atrizes da novela usam (pulseira ligada ao anel):  logo no início, virou uma febre.  Todas as mulheres queriam usar uma igual...

O mesmo aconteceu com os volumes do Alcorão, vendidos nas livrarias: todo mundo quer ver como é, e o que diz. Ao mesmo tempo, veja você que curiosidade, foi constatado que somando-se tudo o que havia escrito, nas livrarias do Brasil sobre a cultura, o oriente médio e os árabes, não passava de um palmo de altura, se fosse colocado sobre uma mesa.   Conclusão: antes da Globo colocar a novela no ar, e as mãos sobre o assunto, não havia demanda para nada relativo ao assunto".

A novela só vem ressaltar uma cultura que há 20 anos procuramos difundir em nosso país, através da Khan el Khalili.  O Marrocos por sua vez, é o mais ocidental dos países árabes.  O efeito, em minha opinião, seria ainda mais avassalador se fosse filmado no Egito, onde se misturam 5000 anos de civilização.  Mas isto é outro assunto.

Nos últimos meses, mulheres de todas as idades tem procurado o aprendizado da dança do ventre.  Não que tenha sido diferente nas últimas décadas.  Esse é um fenômeno mundial nos últimos 30 anos.  Mulheres do mundo inteiro voltam-se para o oriente, na expectativa de recobrar seu elo perdido com a feminilidade... e o principal, vieram ao lugar certo!

Evidentemente que em meados de 2002, quando a novela não estiver mais no ar, haverá um novo tema que irá virar moda na Rede Globo e os outros irão atrás, em seus vagões.  Mas acredito que depois de Junho de 2002, a imagem sobre a cultura árabe para todos os brasileiros, será bem diferente e não tão novidade assim.  Até lá tem muito chão... e muita gente ainda vai perguntar: "E aí... a novela tem dado algum resultado?"...Os resultados que temos são como os frutos das árvores plantadas há muitos anos, podem oferecer mais frutos num ano especialmente abençoado pelo clima, ainda que sua fertilidade anteceda o ano mencionado.

Jorge Sabongi