| O FIM DA ERA "CLONE" |
O
que sobrou, depois que "o sonho acabou!"
"Quem se surpreendeu com o ‘efeito divulgação’ que O Clone trouxe para a dança oriental no Brasil (durante aqueles meses de glória), jamais imaginou que tudo isso iria acabar tão rápido e de forma tão brusca e nefasta".
Alguns meses, antes de a novela ir ao ar (ago/set
de 2001), eu dizia que teríamos pela frente uma "onda" daquelas.
Havia chegado o momento em que a divulgação em massa aconteceria. Os caminhos
que surgiriam eram uma incógnita até para os mais criativos. Na rede, eu
sabia, poderia vir de tudo um pouco: "camarões, lagostas, ostras, mariscos
e peixinhos de toda espécie!" Pessoas,
que já se encontravam no mercado e perderam a noção da realidade, aumentando
preços, inflacionando desnecessariamente o valor cobrado por shows, atualmente
sofrem por seus desatinos. Restaurantes sem verba, movimento diminuído e
fracionamento no número de clientes, hoje obrigam todo o contingente envolvido
com a dança a repensar as atitudes do passado.
Esperava-se, pelo menos de minha parte, uma saturação proveniente de tão
poderosa onda (como tudo o que a Globo divulga, de forma maciça, e martela até
achatar ou chatear, como queiram!). Temia, inclusive, que a dança pudesse
sofrer, caindo vítima do amadorismo que costuma acompanhar os modismos em nosso
país.
Nós, que estamos nesse mercado há décadas, visitamos outros países e temos
contato com a cultura árabe diariamente, sabemos o tamanho do risco que
acompanha o crescimento desenfreado e abrupto de uma corrente de divulgação
gerada artificialmente pela mídia. A falta de preparo oferece, ao mesmo tempo,
o melhor e o pior, sem muita seleção.
Num primeiro momento, foi um espetáculo interessante para os leigos, mas a
sucessão de oferta, sem padrão de qualidade, cansa. Muitos canais ofereceram overdose
de dança e, em pouco tempo, não se agüentava mais a mesma ladainha por todo
canto.
Academias contratando professoras que eram alunas, despreparo por todos os
lados. Sem história ou estrutura, a qualificação era a última das exigências.
O importante era oferecer "a febre do momento"!
Durante meses, assistimos à "mascateação da dança do ventre".
O deslumbramento nunca faz bem. Dentro do mercado tudo tem sua vez e hora. O
comportamento das ondas, quando algo está subindo e depois a natural descida,
é um exercício constante para nossa maleabilidade. Uma bolha de consumo existe
por tempo determinado e é necessário que assim seja. Devemos aprender a beber
da fonte, enquanto a água é limpa e fresca. Comércio é uma rua de duas mãos...
nunca passe por uma rua explodindo o que vem atrás de você, pois não sabe se
um dia terá de voltar na mão contrária.
Foi um susto, não? Se por um lado havia a divulgação exacerbada, por outro
havia a proliferação desmesurada.
Dois meses antes de a novela acabar, eu já falava para aguardar o pior que
viria para o mercado de dança do ventre no pós-Copa do Mundo. E assim foi. A
novela acabou, começou a copa, as atenções foram redirecionadas e, ao iniciar
o mês de agosto de 2002, só ficava a saudade daqueles áureos tempos.
Agora existe o grupo das inconformadas, chorando a saudade e torcendo para
passar no "Vale a Pena Ver de Novo" ou cogitando rumores de uma
segunda investida no mesmo tema oriental nos próximos meses. A má notícia é
que isso não vai acontecer tão cedo. Uma fórmula repetida não oferece o
mesmo resultado quando se trata de massas.
Se durante os meses do boom, seu
trabalho não construiu alicerces seguros, o momento atual não será a alavanca
de ajuda. Poucas pessoas podem dizer que, no Brasil, não existem professoras
capazes de oferecer novidades. Sempre há tempo para se reciclar. Pense em
retomar suas aulas, tanto como professora quanto no papel de aluna. Em nenhum
dos dois casos o estudo deve estagnar.
Cursos intensivos, aprendizados relâmpago, formação em 1 ano, nada disso
existe de fato. Pode ter sido uma jogada mercadológica interessante para
muitos, mas não é efetiva no desenrolar de uma carreira de envergadura. As
verdadeiras amantes da dança procuram um lugar onde possam crescer e se
desenvolver com segurança.
Acabou "A Era Clone" definitivamente! Não tem mais volta. O que foi
moda hoje não é mais. A chance que ontem era oferecida a todas, independente
de sua formação ou qualidade, hoje está disponível a um número muito menor
de escolhidas.
A cada ano, junto com as esperanças do melhor porvir, acabam-se as fantasias
que não se transformaram em realidade. Lugares que realizavam shows fecham suas
portas, outros pensam em entrar numa nova aventura, colocando-a como chamariz, e
a luta para se manter permanece sempre, para todos nós brasileiros. Coisas de
Brasil! Nosso panorama é de insegurança misturada com uma esperança necessária.
Precisamos acreditar que este imenso país pode e irá crescer!
Se tem um ano dentro de nossa vida, como Khan el Khalili, que nunca esqueceremos
é 1986 (Plano Cruzado). Tudo ia tão bem que, inocentemente, pensamos
"isso nunca vai acabar"! E vocês viram o que aconteceu: acabou.
Quantas pessoas não enterraram seus sonhos junto com o falecido Plano Cruzado?
Portanto, nos tempos bons, devemos nos lembrar de dona formiga, sempre
trabalhando, para merecer o retorno no inverno.
Importante investir em seu negócio? Claro, mas com parcimônia e bom senso.
Construa solidamente seus alicerces, ofereça mais do que o necessário e
naturalmente esperado. Respeite aqueles com quem você trabalha, conheça sua
posição e respeite a dos outros.
Tenha contato com aqueles que fazem parte de seu meio, esteja com eles e faça-os
sentirem que são as pessoas mais especiais neste mundo. Trate bem, para ser
tratado(a) dessa forma!
Mantenha, acima de tudo, o respeito por aqueles que chegaram antes de você.
Se pudéssemos fazer uma brincadeira, "os quatro passos para chegar lá, em
dança oriental", eles talvez pudessem ser dispostos da seguinte forma:
1) aprender
2) ser
3) acontecer
4) ter.
Não existem atalhos ou caminhos mais curtos, só a verdade lhe guia (a sua própria
e a de mais ninguém). Não altere a ordem dos passos. Em nenhuma receita dada
de coração devemos provar nossas próprias suposições.
Agora só vinga e permanece o que e quem realmente comprova ter qualidade. Só
quem tem a oferecer vai mudar, com o decorrer dos meses, essa calmaria pós-dilúvio
em credibilidade. Leva tempo... anos de paciência e investimento. Se você está
disposto(a) a isso, é tempo de reconstruir.
"Depois da tempestade, para muitos, vem a enchente!"
Jorge Sabongi - Janeiro/2003