Papelão no Restaurante
(... e algumas histórias na KK)

"Eu sempre digo a todas as mulheres que conheço: 'quer saber se seu parceiro é digno de se casar com você e dar-lhe o devido respeito, leve-o a um restaurante e repare como ele se comporta e, principalmente, observe como ele trata o garçom'. Depois não diga que não teve uma excelente dica!".

Jorge Sabongi 

Já reparou que existem pessoas que saem para se divertir e não conseguem se divertir?  São os populares "neuróticos de plantão". Infernizam os bares e restaurantes, com suas grosserias gratuitas e, ao menor sinal de contrariedade, apresentam-nos um lado obscuro que não gostaríamos de conhecer.

Pessoas sem culpa ou má-fé acabam sendo vítimas desses seres. Destratam todos, desde o momento em que descem do carro. Iniciam o “festival de grosserias” ao entregarem seus veículos aos manobristas:  "Estaciona direito, hein?  Paguei caro por esse carro!" Com recepcionistas, garçons/garçonetes, caixas e até mesmo os artistas, o tratamento é idêntico.

O egocentrismo desses neuróticos é imenso!  São pessoas que não se atém a nada nem a ninguém.  Desconectadas da realidade, aprontam mil e uma. Nos restaurantes, prestam-se a verdadeiros papelões: "troque isto e chame o maitre".  Ao assistirem a um show, sequer valorizam o momento e a sensação de algo que poderia lhes causar um agradável torpor aos sentidos.  Descontentes com algo, falam alto, gritam, gesticulam e ofendem.  A questão é: pessoas deste naipe devem ser de difícil convivência, mas, por incrível que pareça, tem gente que gosta.

Desconhecem completamente as palavras de cortesia e cumprimento: "Por favor...", "Obrigado!", "Boa noite!".... "por favor, poderia me trazer mais um chá de hortelã?" (esse tipo de educação, é raro!), 

Recentemente, após mais de duas décadas à frente da Casa de Chá, tive a oportunidade de presenciar o caso mais medíocre de nossa história:  uma garçonete estava servindo um café árabe e, ao colocar o bule sobre a mesa, deixou cair algumas gotas de café na lateral da camisa e no colo de um cliente (Nada exagerado, não!  Foram gotas mesmo!). Levando-se em conta que era um domingo, final de noite, o incidente poderia ter passado sem problemas, pois dificilmente alguém sairia dali e iria para outro encontro social.   Pois o sujeito, apesar de a garçonete ter levado um pano descartável para limpar as gotas que caíram, levantou-se irritado e foi à caixa reclamar, ou melhor, esbravejar: "O que eu não quero é ficar com minha roupa suja!".  Pensei: "Será que ele quer tirar a roupa aqui e agora para que lavemos?".  Confesso que quase perguntei a ele o que tinha em mente naquele instante.  Por dentro já estava morrendo de rir com a possibilidade de qualquer resposta.  Como não vi uma solução instantânea para aquele momento, ele explicou o que desejava: "exigia" que mandássemos, no dia seguinte, alguém a sua casa, que fica em outro município (numa localização oposta à Khan el Khalili), para que enviássemos suas camisa e calça a uma lavanderia, e as devolvêssemos em sua residência.  Desse modo, informei que, no dia seguinte, um moto-boy iria à casa do reclamante para recolher a roupa e mandaríamos para a lavanderia, garantindo-lhe todo o conforto.  As vezes, vale a pena encerrar logo o papo!

Imagine você que isso aconteceu por apenas algumas gotas de café!

O padrão de comportamento varia de acordo com a companhia e com os lugares freqüentados (danceterias, bares, restaurantes, casas de chá). Se estão sozinhas, assumem uma postura diversa de quando saem com namorados, cônjuges, etc. de quando estão acompanhadas por amigos.  A mudança de conduta varia de acordo com os integrantes do grupo: se é misto, a personalidade x se manifesta, se é composto por pessoas do mesmo sexo, vemos a personalidade y.

Em nosso ramo, felizmente, é difícil termos de lidar com pessoas que bebem muito ou que reclamem da comida.  É rara uma situação desagradável, a proporção é de uma para cada mil pessoas. Ainda assim, algumas ocasiões mostram o quanto é necessário ter jogo de cintura e despertam a curiosidade de muitos. Aí vão algumas delas...

Quando você trabalha com o público, especialmente no ramo de bares e restaurantes, você vê todo o tipo de pessoas e de acontecimento. É uma verdadeira escola para se testar a fleuma: "traga-me outra cerveja" (chacoalhando a latinha), "quero mais kibe" (apontando o dedo para o pratinho), "o que você tem de mais caro aqui? Ótimo, traga-me esse!", "não quero nada extra, senão vou ter que pagar por isso", "ela não vai comer nada, está de regime, tá muito gorda!", "sei lá, escolhe você, comerei o que vier".  Enfim, vê-se de tudo.

Durante um show, um rapaz que falava muito alto levantou-se e foi até a recepção. A música que a bailarina estava dançando tinha um break de, aproximadamente, um segundo (de repente, a música parava, deixando todo o ambiente no mais completo silêncio, e, depois de um segundo, voltava).  Exatamente no break, ele chega e pergunta com sua voz altíssima "Ô meu! Onde é que fica o banheiro?".  A sala inteira voltou-se para ele e, inevitavelmente, todos riram.  A música voltou e a bailarina continuou dançando.  Parecia um quadro humorístico.

Outra vez, o sujeito chegou com a namorada, sentou-se e falou que queria ver o show.  Normalmente, pode acontecer um intervalo de uma hora e meia entre uma apresentação e outra.  Após 20 minutos os dois não se falaram, praticamente nem se olharam.  Então, ele disse: "se o show não acontecer AGORA, vou embora!"  Será que ele faz a mesma exigência, de forma tão imperativa, em todos os shows que vai?

Teve outro que ficou fulo porque, ao chegar na Khan el Khalili, foi cumprimentado na recepção. "Boa noite, seja-bem vindo, como vai?"  Levou sua esposa até a sala escolhida e voltou para discutir, porque não queria que o tivéssemos cumprimentado, pois esta era a sua esposa de verdade, a moça que ele havia levado noutro dia não!  O que ocorreu é que, em nenhum momento, comportamo-nos de forma a oferecer tão descabida dedução, apenas o recebemos do mesmo modo que recepcionamos todos os clientes.  A culpa que ele sentia voltou-se contra ele, sem que fizéssemos nada!

Existem ainda aquelas namoradas que, provavelmente, nunca vieram a Khan el Khalili e, por conseqüência, desconhecem o perfil da dança, a qualidade e profissionalismo das bailarinas. Por causa disso, recebemos telefonemas assim: "alô, estou ligando para pedir que a bailarina não chegue perto de nossa mesa, não olhe para o meu namorado e também não jogue o véu para ninguém que se sente conosco!"

Ah, e o D. Juan que estava com a amante em uma sala, resolveu levantar-se para ir ao banheiro e descobriu que a esposa estava na sala ao lado em companhia do amante? (Este mundo é mesmo muito pequeno! Por vezes, as pessoas pensam as mesmas coisas no mesmo dia.) Começaram a digladiarem-se, e os amantes tentando apartar a briga! Completamente hilário!  Imaginem a cena. E eu, parado no caixa, olhando, sem saber que atitude tomar.  Quem pagou a conta, foi "a amante".  Virou para mim com um talão de cheques e falou: "Eu pago. Isso vai longe..."

Outro caso: “não vou pagar os 10%”, ouvi.  "Perfeitamente, não há a menor obrigação, mas o senhor foi mal atendido?"  E a figura responde: "não, pelo contrário, a mocinha foi muito gentil, mas eu não pago nada a mais, onde quer que eu vá! Em NENHUM lugar!" Imagine como uma pessoa dessas é tratada quando retorna aos lugares.  Garçons e garçonetes nunca esquecem a fisionomia de quem não reconheceu seu trabalho, mesmo que se passem anos.  Tem muita gente que ainda não descobriu a máxima: pequenas bonificações abrem as portas do mundo, aonde quer que se vá.

Pensa que acabou? Chegaram três estudantes no "dia da pendura" (Faculdade de Direito do Largo S.Francisco).  Vieram à tarde e comeram até não poder mais.  Ficaram conversando umas cinco horas e, quando já era noite, reiniciaram a comilança (almoço e jantar).  Quando estavam empanturrados, foram até o caixa e disseram que era "pendura", por isso não iriam pagar. Tudo isso “recheado” com risos de deboche!  "Bem, então vamos para a delegacia".  O sujeito voltou até a sala, enfiou o dedo na garganta e vomitou, sujando todo o ambiente (tivemos testemunha, outro cliente viu a cena).  Voltou para o caixa e falou que passou mal por causa da comida estragada.  Aí ficou pior! Fomos, de viatura, à delegacia. Saímos de lá às quatro da manhã, após recebermos do recém-advogado o cheque de pagamento da conta e assistirmos à severa bronca que este ouviu do delegado.  Com o dia amanhecendo, dirigimo-nos para o estacionamento da D.P., e, qual não foi a minha surpresa, quando ele perguntou: "Meu, você não quer me dar uma carona até o metrô, não?"  E eu respondi: "não acredito no que estou ouvindo! Que mundo é esse?  NÃÃÃÃO!!! Você vai vomitar no meu carro!"  Insatisfeito, o rapazinho, no dia seguinte, ligou para a vistoria sanitária, que foi lá fazer uma fiscalização, ocasião na qual fomos considerados um dos vinte locais mais limpos de São Paulo, e, de quebra, os familiares dos “agentes vistores” tornaram-se nossos clientes.  Eles, mais do que ninguém, só freqüentam lugares seguros.

Há alguns aspectos interessantes a considerar no nosso ramo de atividade (Casa de Chá, com shows de dança do ventre, para públicos de todas as idades):

1) existem pessoas que não conseguem desvincular a dança do ventre do erotismo.  Simplesmente não percebem a diferença de um espetáculo de arte e um show de stripers.  Para elas, sensualidade e erotismo é tudo a mesma coisa.  Lamentavelmente, essas pessoas deixam de proporcionar um momento agradável a todos os seus sentidos. Estão tão vulneráveis à massificação do corpo da mulher como um objeto de consumo, que não conseguem separar o belo e poético do devasso;

2) há também aqueles cujo semblante denotam total alienação. Suas expressões, quando observam uma dança de alto nível, indicam que, na verdade, a pessoa não está ali.  Ela entra num sonho e, muitas vezes, só volta à realidade quando ouve os aplausos ao fim do show (chegam, surpreendidos da “viagem”, com alguns segundos de atraso);

3) aqueles que chegam com algum tipo de alteração, principalmente os nervosos, ficam calminhos, calminhos, depois dos shows. Mudam da água para o vinho. As apresentações são uma verdadeira terapia para quem se deixa entreter.

Se formos caracterizar papelões e gafes, temos uma enorme coleção.  Abaixo seguem as mais recentes:

- um cliente recebeu o véu da bailarina e não queria devolver! Achou que ela o havia dado a ele, como forma de presente.  Falou: "o véu é meu, ela me deu!" Foi um custo fazê-lo devolver;

- clientes que circulam no local do show, chegando ao cúmulo de pedir licença à bailarina. Francamente, passar no meio de um show, é demais! Uma gafe e tanto! (existe, em todas as mesas, um folheto explicativo do show, recomendando que não transitem pela sala durante a apresentação);

- tínhamos, à venda no balcão do caixa, alguns escaravelhos egípcios de porcelana (daqueles azuis). Um cliente chegou, pegou um e o colocou na boca, pensando que era uma bala: "Coloca essa balinha na minha conta!" O caixa até tentou falar que não era bala, mas o cliente falava tanto com o escaravelho na boca, que não deu chance.  Foi embora comendo o escaravelho de porcelana; 

- teve outro que não deixava a mulher pegar nada.  Tudo o que a garçonete oferecia, ele dizia que a mulher não podia comer. Quando a mulher retrucava: "mas eu tô com vontade",  ele falava para a garçonete: "ela não quer nada não, pode ir embora!"; 

- a recepcionista, elegantemente vestida a caráter, aguardava para orientar quem chegasse na Casa. Ao chegar um solitário, aborda-o: "Boa noite, posso ajudá-lo?" O cliente simplesmente a ignora, como se ela não existisse. De certo, pensou que a casa tivesse um único ambiente.  Circulava sem a menor noção de onde ir e só disse alguma coisa após as várias tentativas de contato por parte dos funcionários; havia se perdido pelos 13 ambientes da Casa;

- dia desses, uma mulher entrou e foi procurar seus convidados dentro de uma das salas que ela havia reservado. Voltou brava e começou a discutir, pois queria saber o que tínhamos feito com seus convidados, porque não havia ninguém (ela mesma já estava atrasada).  Resultado: nenhum dos convivas veio.  Após duas horas de espera, ela teve que ir embora;  

- depois de um show, um homem que estava num grupo de vários casais vira-se para a sua companheira e diz, em alto tom de voz: "Tá vendo fulana, você precisa dançar só a metade disso prá mim!"  Papelão?  Nem me fale!

- agora a gafe campeã: a bailarina ao encerrar a dança ouve do cliente: "Agora você pode me trazer uma cerveja".  Esse faz bem o tipo daquele fanático que assiste futebol na sala de casa, rodeado de caixas de pizzas mordidas pela metade e latas de cerveja amassadas pelo chão.  Para ele, tudo o que importa é o gol e a cerveja da geladeira.

Ainda bem que existem as exceções! Tivemos um caso muito interessante. Um senhor que, numa tarde, trouxe a família e solicitou, de última hora e num horário em que ainda não havia apresentação, uma bailarina para dançar para sua esposa e filhos.  Providenciamos uma e, ao final, ele perguntou se poderia entregar o véu à bailarina e oferecer-lhe uma gratificação.  Assentimos e ele, ao passar o véu para as mãos da bailarina, juntou uma quantia de mil reais.  A bailarina ficou tão emocionada (... e estupefata!), que perdeu a voz!  Não conseguia nem agradecer.  A voz sumiu mesmo!  Há pessoas realmente surpreendentes.  Poucas, mas existem.

Um restaurante é o perfil, um raio-X da personalidade da boa ou má educação das pessoas que o freqüentam.  Nele você observa vários flashes confiáveis, sobre quem lhe acompanha.  Aguce sua percepção e repare alguns aspectos inadequados de se conviver, principalmente:

1) educação - não utiliza palavras de agradecimento e cortesia ou só faz uso delas para cargos elevados, interrompe quando você fala, conta vantagens, resmunga com tudo e todos, acha-se dono do espaço;

2) tom de voz – sua fala varia do alto às formas monótona, tediosa, chorosa, elétrica, aguda; 

3) trata todos com atitudes imperativas, destilando grosserias gratuitas;

4) desequilíbrio psicológico - egocêntrico, pavio curto, agressivo, impaciente, ou intolerante; o popular "grosso";

5) vocabulário insípido – termos chulos, palavrões constantes, gramática ruim – não dá condições a uma conversa amigável, prefere gerar polêmicas e discussões inúteis.

Tudo isso denuncia com quem você está e, fundamentalmente, com quem você vai conviver no futuro, caso aquela ocasião vingue.

Das suas escolhas de hoje, depende a sua satisfação de amanhã!

 Jorge Sabongi - Agosto/2004


revisão editorial:   Andrea Loli  (Brasília - DF)