Talento e Direção Artística

"Eu gostaria muito de cantar, de ser um astro do rock and roll no palco de um imenso estádio. Tenho certeza que levaria a platéia ao delírio. Mas não tenho o principal: o dom da voz!

Quando era pequeno queria ser astronauta, mas cedo descobri que só poderia pensar nisso se fosse americano nativo. Não havia nascido na localização geográfica correta. Ah, também gostaria de ser um terrível jogador de basquete, daqueles que fazem as “enterradas”, penduram-se na cesta e, ao final, ainda fazem aquela cara de quem pulou o muro do vizinho para roubar goiaba e saiu andando! Deve ter um gosto todo especial fazer isso, não? Só que eu não tenho a altura necessária. Jamais conseguiria pular acima dos 3,05m para poder fazer uma cesta assim.

Afinal, talento é algo que se aprende? Depende do quê? E qual a importância de se ter uma direção artística?".

Jorge Sabongi

Talento é um dom! Nascemos com ele ou com eles.

Vou procurar fazer uma analogia sobre o "processo do talento". Ele se assemelha a uma série de sementes invisíveis que possuímos desde que nascemos. Todos nós temos nosso punhado de sementes.

Ao longo da vida, poderemos nem tomar conhecimento que essas sementes existem ou, devido a um estalo ou à percepção de um sinal, poderemos semear e, após o tempo devido, colher os frutos gerados. Outra possibilidade é que uma delas caia no chão, na hora e lugar certos, sem que percebamos, e comecem a germinar, surpreendendo-nos, por ignorarmos a existência dela, e a todos os que o rodeiam, pois igualmente nem imaginavam que aquela semente pudesse estar em nós.

A questão é saber em que momento de nossa vida essas sementes deixarão de ser invisíveis e comecem a nos agraciar.

Há pessoas que jamais vão descobrir talento algum em si mesmas, por não procurarem ou pela vida que levam não permitir a descoberta.  Eu, por exemplo, só fui descobrir que poderia tocar snujs aos 23 anos de idade, depois de ter uma Casa de Chá Egípcia.  Antes disso, eu sequer sonhava com esse instrumento ou imaginava que poderia ter alguma habilidade extra nos dedos, além da datilografia. Imagine você, onde eu poderia ter descoberto este talento se tanta coisa não tivesse acontecido antes!?  Ao longo dos últimos anos, por estar sempre atento as situações, consegui descobrir alguns outros também.  Quantas sementes mais vão se tornar visíveis para mim?

Mas a questão é: "em algum momento da vida, somos levados a enxergar esta(s) semente(s), este(s) dom(dons) que estão dentro de nós".

Quando estava no colégio eu era um fenômeno no salto em altura. Tinha 15 anos e uma elasticidade que me permitia pular quase 1,70m com pouco esforço, sem nenhum treino nem aquecimento. Sentia-me uma promessa no esporte e era o orgulho da minha turma nesta modalidade. Meu professor de educação física não me incentivou da forma devida. Ele apenas observava e mandava pular mais e mais. Nenhuma palavra de incentivo ou exercícios práticos a fim de melhorar ainda mais minha performance.

No primeiro ano de faculdade e com o mesmo professor, fui às olimpíadas que envolviam vários outros estabelecimentos de ensino superior. Foi quando percebi que não tinha o apoio suficiente para crescer. Surpreendentemente, algo me causou um bloqueio que eu nunca soube explicar. Já não pulava mais tão bem. Sempre estava inseguro quando corria para o salto. Isso realmente espantou o técnico que, outra vez, não falou nada. De uma promessa para o futuro passei a ser uma fumaça no presente. Evaporei na possibilidade. Agora era uma negação no salto. Não era mais nada daquilo que eu havia pensado.

As pessoas que lá se encontravam pulavam, no mínimo, acima de 1,70m. Isso, aliado ao fato de eu pensar que não era tão fenômeno quanto eu imaginava ser, causou-me um certo desânimo. Mas, no fundo, sentia que faltava-me o devido apoio. Talvez uma frase certa, naqueles dias, mudasse meu panorama.

Quantas pessoas visualizam uma(s) semente(s), descobrem seu(s) talento(s), e, por estar(em) nas mãos certas, desenvolvem-no(s)?

Quando comecei a fazer Economia, detestava a matéria “Estatística”. Havia, na época, um professor tão bom, com uma didática tão apaixonante, que reverteu esse processo, fazendo-me não só um ardoroso simpatizante dos cálculos, como também me permitiu desenvolvê-los de cabeça. Essa semente deu-me uma imensa árvore, da qual, até hoje, concede-me seus frutos. Sem imaginar, eu possuía esse talento. Se isso ocorre com uma matéria de cuja aula fugimos, poderá acontecer com as artes.

Outro fator importante é o lugar certo na hora certa. Imagine você, um Ronaldinho jogando futebol num campo de várzea de uma cidade interiorana (antes de ser o Ronaldinho da Seleção, claro!). Ele vê sua semente. Ele percebe uma plantinha. Algo nele o instiga a continuar fazendo o que gosta. Uma hora, sua estrela vai brilhar. O mesmo se aplica a uma modelo altamente requisitada nos dias atuais, quando esta não tinha fama. Tente imaginar como ela era na sala de aula de uma faculdade, por exemplo. Ela se olha no espelho todos os dias, sabe que possui as curvas certas nos lugares certos. Mas falta alguma coisa. Investe em si, na forma de andar, no jeito, na personalidade, na etiqueta, até chegar o momento. Sua semente já é visível para ela, mesmo que não tenha toda a produção e mídia fazendo o trabalho de base.  Num determinado momento da vida, ambos estavam no lugar certo e na hora certa.  São descobertos!  E aí tudo muda de figura... 

Como sempre, antes da descoberta do talento, a postura é mais despachada, mais tranqüila e sem nenhuma cobrança visual. O nível de exigência não é grande e a personalidade pode ser como a minha e a sua. Quando acontecem os primeiros raios da fama o panorama tende a mudar. E o “mudar” pode não ser tão favorável assim. Se não houver uma direção artística, egos vão saltar.

Ao longo dos anos na Khan el Khalili, pude conviver com muita gente. Orgulho-me de poder oferecer a todo nosso elenco uma direção de qualidade. Todas aprenderam muito sobre a forma de se desenvolver como artistas e, por conseqüência, eu também.

Descobrimos o talento dessas pessoas na dança e muitas delas se desenvolveram de forma extraordinária. Apesar de muitas terem progredido e chegado a um ponto estacionário, a direção da conduta e o profissionalismo foram ímpares. Chego à conclusão que conter egos não é tarefa fácil, mas depois que se consegue o respeito, a disciplina, e o equilíbrio de grupo, tudo se torna mais fácil.

Paralelo a isso, tive a oportunidade de conviver com o mundo artístico e de estar nos bastidores de dezenas de programas de televisão. Outra experiência enriquecedora foi a que vivi, durante alguns meses, no estúdio, por ocasião da gravação dos CDs da casa. Essas passagens foram um verdadeiro estudo sobre como se desenvolvem os talentos.

Uma coisa é indiscutível: pessoas que desenvolvem algum talento específico precisam de alguém que, permanentemente, oriente-lhes e incentivem suas ações. Dificilmente artistas caminham sozinhos ou desenvolvem a conduta correta em suas artes sem amparo específico. Funciona como um pai para colocar equilíbrio e chamar a atenção para as coisas erradas, e um avô, para passar a mão na cabeça e dizer que é lindo e pode funcionar.

Todos os artistas, sem exceção, necessitam dos cuidados de alguém dos bastidores, pois, em algum momento do percurso (senão sempre), eles perdem a noção de referência, vêem uma realidade transfigurada e acabam convivendo com uma dose de depressão. Diversos fatores impulsionam isso: descontentamento com a falta de reconhecimento do público, sensação de que sua arte não progride, solidão, desconforto e uma certa inadequação com o mercado e a concorrência, insuficiência financeira para se manter...e a lista não para por aí.

A partir daí, a vida pessoal acaba se misturando com a arte. A emoção é dominada de tal forma que mexe com a conduta, o ego, deformando a personalidade, corrompendo-a. O próprio espírito se transfigura a ponto de mudar a beleza de sua arte.

Uma vez li uma frase que nunca esqueci: "Todo gênio, cria para si a própria desgraça!" Carreira mal direcionada é como uma montanha-russa: o carrinho pode até ser menos rápido na subida, mas é extremamente veloz na descida.

Mulheres aprendem dança do ventre pelos mais variados motivos. Umas percebem sua semente mais depressa, sentem maior facilidade quase que imediatamente, outras levam anos para ver e descobrir que podem criar uma bela árvore com raiz sólida.

Pessoas que não têm o menor dom, se colocarem uma força de vontade excepcional, podem fazer germinar uma semente, e se surpreender. São raridades, mas conheço casos assim. O tempo fez o trabalho de florescer. Essas pessoas têm que se mostrar extremamente envolvidas e comprometidas com sua arte e, principalmente, consigo mesmas. Para elas, a semente não se torna visível tão facilmente. Suas tentativas devem ser feitas com bastante veemência para se desenvolverem. Aqui entra o fator motivacional dos envolvidos no processo: orientadora não desiste da aluna e vice-versa.

O dom de mostrar-se bela é inerente às mulheres. Essa característica pertence ao sexo feminino, basta se descobrir. Daí para frente é uma massa a ser moldada por quem a dirige a sala de aula. Uma boa direção inicial abre caminhos.

A orientadora é responsável por transformar essas sementes invisíveis em visíveis. Se a aluna se desenvolve rapidamente, talvez mais do que a própria professora, é importante que ela seja encaminhada, imediatamente, para quem possa oferecer a direção adequada. Caso contrário, pode-se matar a raiz de uma árvore promissora.

Em sala de aula, o dom não brota e simplesmente se transforma da noite para o dia. É um trabalho de paciência e de anos. Proporcionalmente, uma em cada mil aprende no tempo relâmpago de um a dois anos. No mais, não existe milagre. São, no mínimo, quatro anos de árduo aprendizado para oferecer equilíbrio e desenvoltura. Varia de mulher para mulher. O tempo não pode ser delimitado, mas o período sim. Existe ainda uma regra fundamental: a necessidade de mãos competentes ensinando. Portanto, a direção artística começa em sala de aula.

Orientadoras sem personalidade firme, que não entendem de psicologia de grupos, de trabalho em equipe, de organização e liderança, e, especialmente, de motivação, não têm condições de desenvolver grandes talentos. Pelo contrário, isso as machuca! Verem alguém crescer mais que elas mesmas cria um instinto de demarcação de território, semelhante aos felinos. Sua condição de perspicácia é limitada. É certo que uma hora terão de passar a bola para alguém que tenha mais condição profissional. Isso se não forem abandonadas antes.

Para aqueles que descobrem seu dom, ocorre uma constante: assim que ele se manifesta, a primeira tendência é uma elevação automática da auto-confiança. Se isso vem acompanhado de uma certa publicidade, pode-se criar uma proporção geométrica na aceleração nociva do egocentrismo. Caso o artista tenha uma personalidade fraca ou volúvel, esta poderá ficar totalmente depauperada, pois não terá preparo emocional para lidar o sucesso instantâneo, que tende a se esvair, levando consigo a raiz daquele broto que prometia. O processo é semelhante ao que acontece com aquelas pessoas que ganham fortunas na loteria e, da mesma forma que ganham, gastam desmesuradamente. O dinheiro evapora em pouco tempo e ela, frustrada, volta ao patamar anterior. Pudera, não havia um preparo pessoal para uma mudança tão drástica. É essa consciência necessária às orientadoras.

Outras vertentes dizem respeito a um certo fanatismo pela arte, onde a pessoa só fala daquele assunto. Sem a direção adequada, o mundo da aprendiz resumir-se-á a uma redoma: ao sair daquele campo, ela poderá sentir-se um peixe fora d'água. Pudera, negligenciou outras áreas. Em vez de encontrar um equilíbrio, seus valores ficam centrados naquele determinado assunto. É o tradicional “chato(a) de plantão”, que só fala do mesmo tema aonde quer que vá e com quer que fale. Isso terá fim exatamente no momento em que ele(a) se cansar, exaurir suas forças e seu dom. O que antes era natural tornar-se uma obrigação. Sua calma desaparece e esvai-se o encanto.

Essa supervalorização do “eu” mina o campo de atuação. Qual a hora então de se supervalorizar? Simplesmente não existe. O artista talentoso não pode pedir desculpas por ser talentoso, muito menos deve ater-se a um exagero de vaidade a ponto de isolá-lo de quem mais o aprecia.

É a questão do tirar uma foto com alguém ou dar um autógrafo. Isso faz parte da carreira de todo artista apreciado e reconhecido. Podem passar décadas, mas a atenção que se dava aos primeiros fãs deve permanecer igual. Os que assim não procedem foram corrompidos no tempo pelo sistema e pela ilusão de seu ego.

Executar uma direção artística é, também, colocar os pés de quem tem talento no chão, não deixar os egos inflarem, informar quando o artista está além da conta ou fora da realidade cabível em cena. Quem não recebe esse estilo de direção muda de forma extraordinariamente rápida, maculando, em pouco tempo, a imagem construída.

Evidente que sua orientadora não estará presente por muito tempo, além do período de aulas.  Portanto, é importante que você encontre e confie em alguém que possa continuar lhe dirigindo.  Isso é fundamental no seu desenvolvimento ao longo dos anos, caso opte por uma carreira profissional.

A escolha de alguém competente é difícil.  Você nunca saberá se está com a pessoa certa lhe dirigindo, se não tentar.  Preferencialmente, deve ser alguém competente, que conhece a área de dança, shows, bastidores e que possa lhe orientar nas situações de maior dúvida.  Principalmente alguém de bom senso e equilibrado(a).  Esta pessoa vai lhe dizer o que é e o que não é, o que serve e o que não serve.  Assistindo as suas apresentações, terá que ser extremamente crítico(a).  Alguém pronto para efetuar correções e melhorias. 

Aplausos e publicidade tiram o equilíbrio psicológico dos artistas e os tornam escravos da aparência.

É real. Dificilmente um artista consegue manter-se em equilíbrio, principalmente no lado financeiro. Eles perdem a mão das finanças, acabam vendendo o almoço para comprar o jantar. Essa tendência mostra-se ainda no lado emocional e, fatalmente, penderá para uma carência no aspecto racional.

Por outro lado, artistas que têm o lado racional desenvolvido demais não são tão bons artistas assim, pois possuem a tendência de se tornarem mercenários de sua arte. Eis a necessidade da direção. Uma pessoa equilibrada que não se atém a bater de frente e falar verdades quando acha necessário.

Eu, até hoje, não consegui encontrar nenhum artista que tivesse equilíbrio exato de 50% emocional e 50% racional. Sempre pende para um dos lados. Nesse caso, é preferível que seja para o emocional.

Talentos não se acham; são descobertos. O mundo os elege!

Jorge Sabongi - Agosto/2004


revisão editorial:   Andrea Loli  (Brasília - DF)